Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

Mostrando postagens com marcador nazismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nazismo. Mostrar todas as postagens

25/04/2008

Quando a Ciência banaliza a vida: o caso das células-tronco
Eu não sou contra as pesquisas com células-tronco. Acredito que pesquisas científicas que melhorem e preservem a vida devem ser realizadas. Eu sou contra o uso de embriões ou fetos humanos nestas pesquisas. Seres Humanos não podem ser matéria-prima para processos industriais ou para pesquisa. A vida não pode ser matéria-prima de laboratório e tubos de ensaios.

Além disso, ressalto mais uma vez, a mídia somente foca nos resultados das pesquisas com as tais células troncas. Não dizem que estas pesquisas usam seres humanos como matéria-prima. Não dizem que vidas congeladas (outra aberração diabólica) serão eliminadas, fatiadas, liquefeitas e estudadas em microscópios, ou então, servirão para extrair as tais células tronco....

Querem fazer pesquisas com células-tronco ? Que façam... Porém, devem respeitar a vida. Busquem matéria-prima em outra parte. Considero que a proibição do uso de embriões e fetos humanos em pesquisas científicas é fundamental para impedir o avanço da banalização da vida. Um fenômeno que conhecemos muito bem e que resulta a extermínio em massa de pessoas consideradas inviáveis ou indesejáveis.

Usar embriões e fetos em pesquisas científicas é uma demonstração clara de banalização da vida, de coisificação do humano. O Homem é transformado em matéria-prima de processo científico ou industrial.

Isto parece ser uma coisa boba. Uma coisa sem muita importância. Uma coisa que a Ciência aprova com muitos méritos. Afinal novas curas e tratamentos irão surgir dessa panacéia chamada células-tronco. Isto me lembra um artigo sobre o Nazismo que foi publicado na Revista Superinteressante de julho de 2005.

Este artigo busca explicar as razões que levaram milhões de alemães a seguirem Hitler e a tolerarem as ações nazistas contra pessoas consideradas descartáveis pelo sistema. E a primeira idéia apresentada no artigo, que ajudou o totalitarismo a avançar na Alemanha, foi o carimbo da ciência.

Diz o texto: "Como uma pessoa comum pode conviver com sua consciência após assassinar inocentes ? A resposta: fica mais fácil dormir à noite quando se acredita que seus atos trarão o bem à humanidade. Hitler convenceu os alemães - e muitos estrangeiros - de que, após o massacre, nasceria um mundo melhor.

Isso pode soar absurdo hoje, mas era um fato aceito pela ciência da época. "O Holocausto não ocorreu no vácuo. Ele seguiu décadas de crescente aceitação científica à desigualdade entre os homens", diz o alemão Henry Friedlander, historiador e autor de The Origins of Nazi Genocide ("As origens do Genocídio Nazista", sem versão brasileira). Friedlander se refere a um conceito nascido no século 19 nas melhores universidades: a eugenia.

A eugenia surgiu sob o impacto da publicação, em 1859, de um livro que mudaria para sempre o pensamento ocidental: A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Darwin mostrou que as espécies não são imutáveis, mas evoluem gradualmente a partir de um antepassado comum à medida que os indivíduos mais aptos vivem mais e deixam mais descendentes. Pela primeira vez, o destino do mundo estava nas mãos da natureza, e não nas de Deus.

Darwin restringiu sua teoria ao mundo natural, mas outros pensadores a adaptaram - de um jeito meio torto - às sociedades humanas. O mais destacado entre eles foi o matemático inglês Francis Galton, primo de Darwin. Em 1865, ele postulou que a hereditariedade transmitia características mentais - o que faz sentido. Mas algumas idéias de Galton eram bem mais esquisitas. Por exemplo, ele dizia que, se os membros das melhores famílias se casassem com parceiros escolhidos, poderiam gerar uma raça de homens mais capazes. A partir das palavras gregas para "bem" e "nascer", Galton criou o termo "eugenia" para batizar essa nova teoria.

Galton se inspirou nas obras então recém-descobertas de Gregor Mendel, um monge checo morto 12 anos antes que passaria à história como fundador da genética. Ao cruzar pés de ervilhas, Mendel havia identificado características que governavam a reprodução, chamando-as de dominantes e recessivas. Quando ervilhas de casca enrugada cruzam com as cascas lisa, o descendente tende a ter casca enrugada, pois esse gene é dominante.

Os eugenistas viram na genética o argumento para justificar seu racismo. Eles interpretaram as experiências de Mendel assim: casca enrugada é uma 'degeneração' (hoje sabe-se que estavam errados - tratava-se apenas de uma variação genética, algo ótimo para a sobrevivência). Misturar genes bons com 'degenerados', para eles, estragaria a linhagem. Para evitar isso, só mantendo a raça 'pura' - e aí eles não estavam mais falando de ervilhas. O eugenista Madison Grant, do Museu Americano de História Natural, advertia em 1916: "O cruzamento entre um branco e um índio faz um índio, entre um branco e um hindu faz um indu, entre qualquer raça européia e um judeu faz um judeu".

As idéias eugenistas fizeram sucesso entre as elites intelectuais de boa parte do Ocidente, inclusive as brasileiras. Mas houve um país em que elas se desenvolveram primeiro, e não foi a Alemanha: foram os EUA. Não tardou até que os eugenistas de lá começassem a querer transformar suas teorias em políticas públicas. "Em suas mentes, as futuras gerações dos geneticamente incapazes deveriam ser eliminadas", diz o jornalista americano Edwin Black, autor de A Guerra contra os Fracos. A miscigenação deveria ser proibida.

Programas de engenharia humana começaram a surgir, inspirados por técnicas advindas de estábulos e galinheiros. O zoólogo Charles Davenport, líder do movimento nos EUA, acreditava que os humanos poderiam ser criados e castrados como trutas e cavalos. Instituições de prestígio, como a Fundação Rockefeller e o Instituto Carnegie, doaram fundos para as pesquisas, universidades de primeira linha, como Stanford, ministraram cursos. Os eugenistas americanos ergueram escritórios de registros de 'incapazes', criaram testes de QI para justificar seu encarceramento e conseguiram que 29 Estados fizessem leis para esterilizá-los.

As primeiras vítimas foram pobres da Virgínia, e depois negros, judeus, mexicanos, europeus do sul, epilépticos e alcoólatras. Segundo Black, 60 mil pessoas foram esterilizadas á força nos EUA. Em seguida, países como a Suécia e a Finlândia começaram programas parecidos.

Portanto, quando a Alemanha de Hitler começou a esterilizar deficientes físicos e mentais, em 1934, não estava inventando nada. Só que eles foram mais longe. "Hitler está nos vencendo em nosso próprio jogo", indignou-se o medico americano Joseph DeJarnette, que castrava pobres. Em 1939, os alemães começaram a matar deficientes, num programa de "eutanásia forçada". Médicos usaram o gás inseticida Zyklon B para eliminar 70 mil pessoas "indignas de viver". O programa foi suspenso após protestos, mas serviu de ensaio para os campos de concentração, onde Zyklon B exterminaria qualquer um que ameaçasse o projeto da raça pura e a conseqüente "melhora da humanidade".

"Hitler conseguiu recrutar mais seguidores entre alemães equilibrados ao afirmar que a ciência estava a seu lado", diz Black. "Seu vice, Rudolf Hess", dizia que o nacional-socialismo não era nada além de biologia aplicada." Com o carimbo da ciência, ainda que meio falsificado, ficou mais fácil compactuar com o absurdo nazista."

O interessante desta história é a proximidade com o caso atual das células-tronco. É o uso da ciência como justificativa para o extermínio. Os operadores do sistema mostram e fixam as descrições no futuro, a "melhora da humanidade", a raça pura, sem doenças, etc. Porém, não mostram os meios e os custos para se atingir o futuro e realizar os objetivos que perseguem.

É exatamente o que temos com as tais células-tronco. Mostram o futuro, a cura de doenças (já arranjaram um monte de doentes incuráveis para acompanhar a caravana da liberação do extermínio, ou seja, para sensibilizar e enganar a sociedade sobre suas pretensões), novos tratamentos, etc. Porém, não mostram os meios e os custos para se atingir o futuro que descrevem. Não dizem que as pesquisas envolve o extermínio de embriões e fetos ou o extermínio de vida que eles consideram inviável. Usam, mais uma vez, o carimbo da ciência, para justificar práticas de extermínio.

Contudo, assim como na história dos Nazistas, o começo não é tão violento quanto o meio e o final da história. No caso das células-tronco o começo envolve apenas alguns embriões e alguns fetos considerados inviáveis. Nada mais do que isto. Porém, a ampliação das pesquisas ou o advento de uma 'possível' descoberta irá gerar uma grande demanda por mais embriões e fetos.

Então, já não buscaram mais embriões e fetos inviáveis, pois já utilizaram tudo o que existia nos estoques. Logo, começarão a buscar e gerar novas fontes. Podem, inclusive, gerar um mercado de embriões, incentivar a produção de fertilização in vitro para produzir embriões e fetos, ou então, trabalharem para a liberalização do aborto. As mães abortam nas clínicas científicas que não cobram nada pelo serviço e ainda pagam uma quantia para a mãe do exterminado. fazem isto para ficarem com o feto que irão utilizar nas pesquisas ou como matéria-prima de seus medicamentos.

A mídia está gerando uma forte neblina para obscurecer a consciência da população. Fixa nos resultados e não conta o custo para se alcançar tais objetivos, ou seja, não diz quantos serão exterminado pelas pesquisas e depois pelos processos industriais que usam céluluas-tronco para produzir medicamentos, etc....

08/02/2008

Só para registro
Um outro estudioso, há muito tempo, também percebeu que o domínio totalitário ia além das coisas materiais visíveis, Certamente, ele não usou estes termos, pois ele era contemporâneo aos fatos. Estou falando de Reich, de Wilhelm Reich.

"Quando Reich declarou terem as massas desejado o fascismo, foi como mexer num vespeiro. Perseguido pelos nazistas, acabou sendo expulso também do partido comunista. Através de uma aproximação até hoje polêmica entre o marxismo e a psicanálise, Reich insistiu na crítica ao 'marxismo vulgar', sempre pronto a definir pela infra-estrutura econômica a análise de qualquer tipo de fenômeno. Não era pela teoria econômica, dizia ele, que o misticismo do nazismo poderia ser entendido.

Não era pela 'base econômica' que se poderia entender por que a massa de trabalhadores famintos votava na direita, ao invés de votar na esquerda. E cita Otto Strasser para criticar a permanente cegueira dos marxistas alemães: "Seu erro básico é que vocês rejeitam ou ridicularizam a alma e a mente, e não compreendem que estas movem tudo." "
(Nazismo: o triunfo da vontade - Alcir Lenharo - Ed. Ática - 1998 - p.15)

Certamente, as explicações de Reich envolvem outras variáveis. basicamente, ele diz que o domínio do fascismo e do nazismo deve ser entendido pela questão sexual e explica todas as coisas a partir dessa perspectiva. Você lê isto no livro "Psicologia de massa do fascismo" (Publicações Escorpião - 1974 - Porto).

Estou dizendo isto porque estou escrevendo um texto sobre a consciência totalitária e Reich apareceu na pesquisa. Logo, já estou mirando a obra citada, inclusive acabei de emprestá-la na biblioteca. Este é o lado bom da USP. Viu um livro citado em algum lugar, é só ir na biblioteca e emprestá-lo.

Mais especificamente, a citação de Reich diz o seguinte:

"Em muitas assembléias alemãs, ouviam-se frequentemente anti-capitalistas sensatos, e cheios de boas intenções, mesmo quando pensavam em termos nacionalistas e metafísicos, como por exemplo Otto Strasser, apresentar aos marxistas esta objeção:

Vocês, os marxistas, referem-se habitualmente à doutrina de Karl Marx. Mas ao que sabemos, Marx ensinou que a teoria só pela prática pode ser confirmada. Ora vocês limitam-se a dar explicações das derrotas da Internacional Operária. O vosso marxismo fracassou: o que serviu para explicar a derrota de 1914 foi a deserção da social-democracia; quanto a 1918, foi a traição da sua política e das suas ilusões. E agora vocês vêm com novos argumentos na manga para explicar que no momento da crise mundial as massas oscilaram para a direita e não para a esquerda ! Mas nem todas essas explicações poderão suprimir o facto da derrota ! Depois de 80 anos seria bom ver na prática a confirmação da doutrina da revolução social ! O vosso erro principal consiste em negar a alma e o espírito ou em zombar dele, e em não compreendê-lo, ele que imprime movimento a todas as coisas."

(Reich, Wilhelm. Psicologia de massa do fascismo. Porto. Publicações Escorpião, 1974. p. 10-1)

29/01/2008

O retorno do Totalitarismo
Analisando o fenômeno totalitário, percebe-se que o retorno do totalitarismo, na forma do nazismo, é muito difícil de acontecer, principalmente pelo fato, como mostra a matéria abaixo, de se conhecer todos os aspectos dessa vertente.

O perigo totalitário está nas formas que são pouco conhecidas e estudadas. Por exemplo, o extermínio de russos pelo Stalinismo, as ações de Pol Pot no Camboja, de Mao Tsé na China e os casos de extermínios na África.

Estas vertentes totalitárias também exterminaram milhões de pessoas e são pouco conhecidas. Não se basearam em questões anti-semitas e, como no caso dos russos, era o governo exterminando o próprio povo. Pessoas supérfluas e descartáveis para o sistema de governo.

Comparativamente, o Stalinismo é um Nazismo que não extermina Judeus, mas sim alemães. Por isso, muito mais terrível e muito mais perigoso. É o governo nacional contra os próprios nacionais.

Enfim, é preciso estudar e prestar muito mais atenção nestas vertentes e em seus métodos. São elas que estão se repetindo por aí... São elas que podem nos atacar de repente...
Alemanha expõe história do nazismo em memória ao aniversário do Holocausto
Notícias do New York Times - Tradução do G1
Ministro diz que país vai construir monumentos em homenagem a ciganos e gays mortos.

Nesta quarta (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler.

A maioria dos países comemora os melhores momentos de sua história. A Alemanha, porém, não cansa de promover o que houve de pior na sua.

O gigantesco memorial do Holocausto que toma conta de uma parte do centro de Berlim só foi concluído depois de anos de polêmicas. Mas a construção de monumentos em memória ao ultraje nazista segue inabalável.

Na segunda-feira (28), o ministro da cultura da Alemanha, Bernd Neumann, anunciou que essa construção iniciaria em Berlim com dois monumentos, um próximo a Reichstag, em homenagem aos ciganos assassinados, conhecidos aqui como Sinti e Roma, e outro no perímetro da Porta de Brandenburg, aos gays e lésbicas mortos no Holocausto.

Em novembro, a Alemanha progrediu na tão adiada construção do centro Topografia do Terror no local que sediava a Gestapo e a SS. E em outubro, uma nova exposição enorme foi aberta no campo de concentração Bergen-Belsen. No campo de Dachau, próximo a Munique, será inaugurado um novo centro de visitação nos próximos meses. A cidade de Erfurt planeja construir um museu dedicado aos crematórios. Existem no momento duas exposições concorrentes sobre o papel das ferrovias alemãs na condução de milhões de pessoas à morte.

Nesta quarta-feira (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler e do Partido Nazista na Alemanha, e a ocasião motivou um novo período de reflexão e análise do que aconteceu.

"Em que lugar do mundo já se viu um país que constrói memoriais para imortalizar sua própria vergonha?", questionou Avi Primor, ex-embaixador israelense na Alemanha, em um evento realizado em Erfurt na sexta-feira em memória ao Holocausto e à libertação de Auschwitz. "Somente os alemães tiveram essa coragem e humildade."

O esforço de fazer as pazes com a história se materializa não só nos prédios e exposições. O Departamento de Crimes Federais iniciou no ano passado uma investigação interna, na tentativa de esclarecer o passado nazista dos fundadores do partido após o término da guerra. Além disso, neste mês o promotor federal da Alemanha indeferiu o veredicto de culpado de Marinus van der Lubbe, o comunista holandês executado sob acusações de ter iniciado o incêndio de Reichstag. O 75º aniversário desse acontecimento será em 27 de fevereiro.

A experiência do nazismo está viva no debate público contemporâneo que aborda os mais variados temas: as tropas alemãs no Afeganistão, a baixa taxa de natalidade e a maneira de o país lidar com estrangeiros. Os motivos de o país parecer infinitamente obcecado pelo tema do nazismo é assunto de discussões intermináveis aqui. Esses motivos vão desde o temperamento filosófico da Alemanha ao simples choque diante da combinação sem precedentes de organização e brutalidade, até o sentimento de que o crime teve dimensões tão grandes que se espalhou como uma mácula pela cultura do país como um todo.

Sejam quais forem os motivos, à medida que os acontecimentos se tornam mais distantes e menos pessoais, esta sociedade é forçada a encarar a dúvida de como deveria preservar a memória de seus crimes e transgressões daqui para frente.

Nas décadas que sucederam a guerra, a questão central era como Hitler conseguiu chegar ao poder, disse Horst Moeller, diretor do Instituto de História Contemporânea, em uma entrevista. Até uma minissérie da televisão americana chamada "Holocausto", exibida na década de 1970, afetou a discussão na então Alemanha Ocidental, mudando o foco com muito mais intensidade para o sofrimento das próprias vítimas, como explicou Moeller.

Em 1969, Ruediger Nemitz começou a receber de volta as vítimas de Berlim exiladas pela tirania nazista, sendo a maioria esmagadora desse grupo composta por judeus. Berlim faz com que seus antigos cidadãos retornem para uma semana de visitas, com todas as despesas pagas, completando a iniciativa com uma recepção do prefeito.

O Programa de Convites de Ex-Cidadãos Perseguidos de Berlim, que trouxe cerca de 33 mil pessoas para visitar a cidade, chegou a ter 12 funcionários trabalhando em período integral. Agora restaram apenas Nemitz e um funcionário trabalhando meio período.

Contudo, o programa não está esmorecendo aos poucos devido à redução do suporte à preservação da memória do sofrido passado da Alemanha. Pelo contrário, em uma época em que o semi falido governo da cidade de Berlim foi obrigado a promover cortes significativos em outras áreas, Nemitz conta que todos os partidos políticos representando o parlamento da cidade apoiaram o programa e não diminuíram o orçamento de US$ 800 mil destinado a passagens aéreas, hotéis e tours desde pelo menos 2000.

"Quando o programa começou, eles eram adultos. Agora, são pessoas com quase nenhuma memória de Berlim", disse Nemitz em seu escritório no térreo do prédio da prefeitura. "Os que vêm hoje eram crianças na época." As visitas se encerrarão em 2010 ou 2011, segundo estimativas de Nemitz, já que o número de vítimas ainda vivas é muito pequeno.

É importante lembrar também que, além da dolorosa morte dos sobreviventes ao longo dos anos, a geração de Nemitz, daqueles que encararam os crimes de perto e lutaram para quebrar o silêncio de seus pais e professores, está começando a se aposentar. Quando o último grupo de visitação deixar Berlim, Nemitz, 61, que declarou ter medo de tirar férias e considera seu cargo mais como uma missão do que como um emprego, fechará as portas de seu escritório e se aposentará.

Há quem diga que os alemães jovens, que são obrigados a estudar com profundidade a era nazista e o Holocausto, deram poucas demonstrações de que deixariam o assunto morrer, apesar de sua distância dos acontecimentos. Afirma-se que a geração mais nova lida com o assunto não como uma fonte de culpa, mas de responsabilidade no panorama mundial pelo pacifismo e pela justiça social, incluindo a oposição à guerra no Iraque.

Outros afirmam que os crimes são tratados apenas superficialmente e que os jovens acabarão, talvez de forma menos latente, expressando sua exaustão do tema. "Não consigo deixar de sentir que uma parte desse contínuo 'Vamos construir monumentos; vamos construir museus aos judeus', seja um comportamento bastante ritualizado", declarou por telefone Susan Neiman, diretora do Einstein Forum, em Potsdam, organização internacional de pesquisa pública. "Preocupo-me muito se tudo isso não sairá pela culatra, tendo resultados contrários aos desejados."

A relação da Alemanha com sua história nazista até hoje costuma provocar controvérsias, como no caso das exposições concorrentes sobre as ferrovias. A primeira, chamada Train of Commemoration, é uma locomotiva que carrega itens de exposição que detalham como as crianças judias eram assassinadas no Holocausto.

O trem atravessa as cidades da Alemanha e fica aberto à visitação durante o percurso, tendo Auschwitz como destino final. Os organizadores da exposição reclamam que em vez de apoiar o projeto, a companhia ferroviária nacional Deutsche Bahn, prejudicou a mostra, fazendo com que os organizadores pagassem pelo uso dos trilhos mesmo enquanto relembram a história de crimes das ferrovias.

A segunda exposição, patrocinada pela própria Deutsche Bahn, foi inaugurada em Berlim na estação de trem Potsdamer Platz na semana passada. Os críticos desdenharam a exposição oficial como uma resposta à atenção da primeira exposição. Mas a exposição da Deutsche Bahn de fato mostra como a predecessora da empresa, a Reichsbahn, transportou cerca de 3 milhões de passageiros conduzindo-as à morte; é repleta de estatísticas e fotografias tenebrosas e dolorosas e histórias fortes de algumas das pessoas que sucumbiram.

Qualquer fracasso em lidar com a história com o devido zelo imediatamente atrai atenção nacional. Em Munique, no último final de semana, um desfile tradicional de carnaval foi realizado no Dia Internacional de Memória ao Holocausto, celebrado todos os anos em 27 de janeiro. A coincidência das datas provocou uma enxurrada de publicidade negativa para a cidade. Charlotte Knobloch, líder da organização nacional dos judeus, na Alemanha, declarou que o episódio "desonra e insulta as vítimas."

Stefan Hauf, porta-voz da cidade, declarou: "Não houve intenção de fazer nenhuma afronta." Ele explicou que a cidade poderia ter mudado a data do desfile, como o fez a cidade de Regensburg, mas o problema foi que muitos participantes estavam chegando de outros países e ficou impossível alterar a data de última hora. "A data estava marcada no calendário público desde maio do ano passado", disse Hauf.

Munique exerceu um papel especial na história nazista. Foi lá que o partido nacional-socialista teve ascensão e foi o local do Beer Hall Putsch de 1923, a fracassada tentativa de golpe de estado encerrada no mito nazista. Hitler acabou declarando a cidade como a Capital do Movimento. Ao contrário de Berlim, que ficou conhecida como a cidade que possui um memorial construído em praticamente cada esquina, Munique foi muitas vezes criticada por minimizar a importância de sua história.

"Munique era a Capital do Movimento. Desde 1945, é a capital do esquecimento", declarou Wolfram P. Kastner, artista que contou que ao longo dos anos brigou com o governo da cidade para obter autorizações e permissões para, por meio da arte performática, manter viva a memória do Holocausto.

O governo da cidade de Munique acredita que foi bastante ativo na tentativa de preservar a história daquela época. Em uma pequena caminhada saindo da histórica Marienplatz na cidade, vê-se todo um complexo de novos edifícios dedicado ao passado e ao presente dos judeus da cidade. A sinagoga nesse local foi inaugurada em novembro de 2006 no aniversário dos ataques Kristallnacht liderados pelos nazistas contra os estabelecimentos e locais de prece dos judeus e contra os próprios judeus. O Museu Judaico e um novo centro comunitário foram inaugurados em Munique no ano passado.

A cidade está trabalhando no projeto de um novo museu que será construído onde ficava a sede do partido nazista. O futuro Centro de Documentação da História do Nacional-Socialismo deve ser inaugurado em 2011. O objetivo declarado, de acordo com o site do museu, "é criar um local de aprendizagem que sirva para o futuro."

Focada nesse objetivo, Angelika Baumann, do Departamento de Artes e Cultura da cidade, está promovendo workshops com alunos de 14 a 18 anos, incluindo estudantes que se preparam para a universidade e alunos de escolas técnicas e crianças que não possuem origem etnicamente alemã. "Planejamos alcançar as pessoas que ainda nem nasceram", disse Baumann.

Tradução: Claudia Freire

05/01/2008

Consciência, liberdade e responsabilidade
Uma questão importante que surge nesta Teoria da Consciência e Liberdade é: qual é a relação entre a consciência, a liberdade e a responsabilidade ? Agir com consciência significa agir com responsabilidade ? Ter liberdade significa ter responsabilidade ?

Esta questão fica ainda mais interessante quando eu penso nos nazistas que operavam o sistema totalitário. Eles agiam de acordo com a própria consciência ? Agiam. Logo, eles eram livres. Além disso, eles tinham informação e conhecimento. Eram pessoas de extensa cultura, amantes da artes e conhecedores dos clássicos do pensamento. Inclusive, Eichmann lia Kant. Portanto, como se enquadra a ação dos nazistas nesta Teoria da Consciência ?

Vamos pensar, gafanhoto !!! A Teoria da Consciência e Liberdade define a Liberdade como poder de agir de acordo com a própria consciência. Agir de acordo com a própria consciência implica, necessariamente, em respeitar o outro, em respeitar a liberdade do outro, em respeitar a consciência do outro. Caso contrário, a liberdade não é possível. Não é possível porque o agir de acordo com a própria consciência exige que os outros me deixem agir de acordo com a minha consciência. Exige que eu deixe os outros agirem de acordo com as suas consciências.

E o mecanismo encontrado pela consciência individual, para impedir os outros de interferirem na minha liberdade, ou seja, interferirem no meu poder de agir de acordo com a minha consciência, assim como para obrigar-me a respeitar a liberdade dos outros, respeitar a expressão da consciência dos outros, é a consciência coletiva (no âmbito familiar ou de grupos próximos - normas tácitas e costumeiras - moral, etc) e a consciência social (no âmbito da sociedade, do país ou da comunidade internacional - normas tácitas e cogentes - Direito, etc).

Este mecanismo da consciência coletiva e da consciência social, subsistemas da consciência individual, possui um conjunto de normas, regras e valores que emitem sentenças prontas, em determinados casos ou diante de certas ações, para a consciência individual, inibindo comportamentos, ações e vontades que contrariem os interesses da coletividade, ou interesses da sociedade, ou que violem a liberdade do outro. Este mecanismo é de auto-proteção e de proteção do grupo. Violando as regras da família, dissolve-se o grupo familiar. E a dissolução do grupo familiar implica em menos proteção, em menos alimento, em menor possibilidade de sobrevivência.

Biologicamente falando, quem atua contra o grupo tende a se isolar, a viver separado. Vivendo sozinho e separado tende a ser atacado e exterminado mais rapidamente, não passando adiante os genes que o induziu ao isolamento. Já quem vive em grupo tem uma maior chance de sobrevivência e de passar seus genes adiante. Há uma propensão genética nisso. E esta propensão genética, biológica, é potencializada pela propensão cultural. Basta lembrar que foi a sobrevivência em grupo, o trabalho em conjunto e a troca de informações que salvou os cerca de mil humanos (variedade genética existente) que sobreviveram ao cataclisma do vulcão Toba da Ilha de Sumatra, a cerca de setenta e cinco mil anos atrás. Você podem ver isto no documentário da BBC de Londres - "Aventura da Vida" - sobre o desenvolvimento e a evolução da vida na Terra (http://www.guba.com/user/pfilosofia).

Enfim, através deste mecanismo da consciência coletiva e da consciência social a implicação da Liberdade, ou seja, somente terei liberdade se respeitar a liberdade do outro; somente expressarei a minha consciência, se respeitar a expressão da consciência do outro; torna-se fundamento de todo o sistema da Consciência e Liberdade.

Mais do que isto, este mecanismo insere na Teoria a característica da responsabilidade, pois a partir da consciência coletiva e da consciência social, expressar a própria liberdade, agir de acordo com a própria consciência, significa também agir com responsabilidade, respeitando o outro, para que o outro me respeite. E a violação dessa responsabilidade, significa violação da consciência coletiva e social. Logo, é uma violação das regras da Consciência Individual. Portanto,uma forma de inibição da liberdade. Isto significa que violar a liberdade do outro significa violar a minha própria liberdade. Desrespeitar a liberdade do outro é desrespeitar a minha própria liberdade. Atingir a consciência do outro é atingir a minha própria consciência.

Então, alguém dirá: este é o tal do contrato social ? Eu respondo: não. Não existe contrato social. Isto é um paradigma cultural. Qual é a diferença ? Bem, a diferença é que contrato começa com c e paradigma começa com p (brincadeirinha... disse isto só para o meu cérebro chato parar de fazer perguntas.). A diferença é que um contrato é um acordo de vontades, estabelecido com a aceitação da partes e uma paradigma é uma ação padronizada, neste caso é um comportamento cultural, que pode ter começado com apenas duas pessoas e, a partir daí, se espalhou para todas as demais, independentemente de aceitação ou de acordos. Você assinou, quando nasceu, algum contrato social que transferia parte de sua vontade ao governante ? Nem eu... Contudo, aprendemos, desde criancinhas, as regras e o comportamento social. Isto é um paradigma que passa de geração para geração. Certamente, este paradigma cultural começou com o desenvolvimento da consciência coletiva, com o desenvolvimento das regras na família. Em seguida, vieram as regras de convivência em uma tribo. Da consciência coletiva desenvolveu-se a consciência social. A consciência social exigiu o surgimento da consciência política. Esta levará ao desenvolvimento de uma consciência cosmopolita. Há uma evolução cultural da consciência. As regras vão sendo construída e aprimoradas ao longo dos séculos e milênios.

Com isto, podemos retornar ao caso dos nazistas que operavam o sistema totalitário. Agora já temos as respostas para as indagações. Primeiro, há uma íntima relação entre consciência, liberdade e responsabilidade. Esta relação é inserida pelas consciências coletiva e social, que são subsistemas da consciência individual. Logo, agir com consciência significa, necessariamente, agir com responsabilidade. Isto fica evidente quando se pensa que a consciência, para o seu funcionamento, exige informações e conhecimentos. E que o funcionamento da consciência consiste em processos analíticos. Processos analíticos são, pela própria natureza, lógicos, razoáveis e responsáveis.

Mas se os processos analíticos são lógicos, razoáveis e responsáveis, o que aconteceu no nazismo ? O primeiro acontecimento do nazismo foi a deturpação da informação e do conhecimento que atribuiu relevância social máxima a patologias/aberrações sociais. Lembre-se que no âmbito da consciência as informações e os conhecimentos são catalogados, por cada indivíduo, de forma diferente e em graus diferentes. O anti-semitismo tinha uma grande relevância na cabeça de Wagner e de Hitler e ele generalizou isto para a sociedade. O anti-semitismo é uma patologia social e não um elemento da sociedade. Os nazistas transformaram o anti-semitismo em uma política do Estado.

Com estas deturpações, a consciência, como sistema analítico, foi contaminada e passou a operar com dados falsos e a considerar aberrações sociais como comportamento comum e necessário. Com isto, o sistema totalitário começou a entrar na cabeça das pessoas e a dissolver as consciências naturais que possuíam e que não consideravam o anti-semitismo importante. A partir disso, são implantados mecanismos de uniformização das consciências.

Portanto, ocorreu uma violação da liberdade, através da violação da responsabilidade, que é inerente à consciência. Esta violação ocorreu, primeiramente, na generalização/imposição para toda a sociedade das aberrações sociais que existiam na cabeça dos líderes nazistas, idéias anti-semita foram espalhadas e disseminadas na sociedade através da mídia e da propaganda. Idéias que por si sós, já constituíam violação da liberdade do outro. Com isto, os operadores nazistas, violaram os princípios básicos da consciência. E esta violação foi dirigida inicialmente, não contra os judeus, mas contra o próprio povo alemão.

Lembre-se que primeiro o nazismo dominou os alemães, tornando-os instrumentos do totalitarismo. Depois usou estes instrumentos para exterminar os inimigos nas fábricas da morte. Logo, o extermínio dos Judeus é a última e a mais monstruosa das violações que promoveram. Este extermínio começa a se concretizar quando o sistema totalitário já está no domínio completo da maioria das consciência e as pessoas atuam como zumbis, movidas por desejos totalitários, ou seja, os indivíduos já são instrumentos totalitários de dominação e destruição.

Além disso, é válido dizer que a única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é retirando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem retirar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Retirar a consciência do indivíduo significa contaminar o funcionamento natural da consciência, modificando a base de análise. É uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa. Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último banco de dados que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade viciada e contaminada não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

Eichmann tinha vontade, ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida a informações e conhecimentos introjetados pela mídia e propaganda nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens originadas.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

"Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)"

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam a indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema.

Um outro ponto interessante desta Teoria é que o totalitarismo entra pela consciência política. Ele domina e modifica as regras da consciência política. Em seguida ele vai para a consciência social. Ele modifica e domina as regras do direito. E o próximo passo é entrar na consciência coletiva, na moral, na ética, nas relações de amizade e na família. E por último, quando já tem o domínio desses subsistemas da consciência, ele ataca e contamina a consciência individual.

04/01/2008

Eichmann, Hitler e São Francisco
Em um dos últimos posts deste blog, eu escrevi o seguinte: "A percepção é uma coisa surpreendente. Você percebe Deus e as coisas divinas, mas também percebe o diabo e os seus ardis... E a consciência escolhe o lado que quer ficar, o lado que quer atuar. É o livre-arbítrio da consciência. Não há diferença entre a consciência de Hitler e a consciência de São Francisco. Há apenas escolha... caminhos completamente diferentes."

Depois que escrevi isto fiquei pensando na questão da diferença, ou seja, na frase: "Não há diferença entre a consciência de Hitler e de São Francisco". Fiquei refletindo para ver se não tinha cometido algum excesso ou erro. E toda a reflexão girava em torno de: a questão da consciência está bem colocada ? Se eu inserir Eichmann no parágrafo anterior, muda alguma coisa ?

Eu disse que entre Hitler e São Francisco não há diferença na consciência, somente escolha. Em outras palavras, as consciência de Hitler e de São Francisco se desenvolveram naturalmente, sem nenhum tipo de interferência significativa externa. Hitler e São Francisco acessaram os conhecimentos que queriam e viveram da forma que queriam, seguindo o caminho que queriam.

Portanto, Hitler e São Francisco eram livres, agiam livremente, pois expressavam livremente suas consciências. Mas e Eichmann ?

Se inserirmos Eichmann na história, a coisa muda. Entre a consciência de Eichmann e São Francisco há diferenças. Entre a consciência de Eichmann e Hitler há diferenças. Após a instalação do nazismo e após a disseminação em massa dos seus ideais, através da mídia e da propaganda, operou-se, na Alemanha, uma verdadeira lavagem cerebral nos seguidores do regime. O sistema totalitário assimilou as consciências individuais, substituindo-as pela consciência do sistema.

A consciência natural desses indivíduos foi arrancada e em seu lugar introduzida a consciência do sistema totalitário. Crenças e idéias que não eram importantes, ou irrelevantes, para esses indivíduos, antes da instalação do nazismo, após o domínio totalitário tornaram-se a razão de ser de suas vidas. Crenças como o anti-semitismo, o extermínio do inimigo, a irrelevância da vida, etc entraram na ordem do dia. A banalização do mal se disseminou pela sociedade.

Esta mudança de consciência ocorreu em Eichmann, mas não ocorreu em Hitler e nos demais operadores do sistema do totalitário. Os operadores do sistema estavam imunes às mentiras, pois eles produziam e disseminavam as mentiras. Eles estavam imunes ao terror, pois eles eram o terror. Eles estavam imunes à propaganda, pois eles criavam as propagandas.

Portanto, Hitler e São Francisco eram livres, seguiam suas próprias consciências, expressavam suas próprias consciências. Mas Eichmann não era livre, pois ele perdeu a sua consciência natural e recebeu a consciência do sistema totalitário. Ele seguia esta consciência, ele expressava esta consciência e a liberdade que ele exercia tinha origem na consciência totalitária. Logo, era a liberdade do sistema, não a sua liberdade natural.

Inclusive, Hannah Arendt, na obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, nas páginas 152 e 153, conta que Eichmann, durante o seu interrogatório, narrou que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant e, particularmente, segundo a definição kantiana do dever. Não acreditando nisso, o Juiz Raveh insistiu na história e Eichmann, para a surpresa de todos, deu uma definição quase correta do imperativo categórico kantiano: “O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais”. O que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los, assinala Arendt. (p. 153).

Contudo, a maior evidência de que o sistema totalitário assimila a consciência das pessoas, toma conta de suas vontades e ações, utilizando-as como instrumento de seus desígnios aparecem no momento seguinte, quando Eichmann conta que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explica que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, “deixara de viver segundos os princípios kantianos”, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais “senhor de seus próprios atos”, de que era incapaz de “mudar qualquer coisa”. (p. 153).

Uma evidência de que há diferença entre a consciência de Eichmann e a consciência dos operadores do sistema totalitário aparece na página 155 de Eichmann em Jerusalém. Esta página conta o conflito entre Eichmann e seus superiores, durante o último ano da guerra:

"Cumprir seu "dever" acabou fazendo com entrasse em conflito aberto com as ordens de seus superiores. Durante o último ano da guerra, mais de dois anos depois da Conferência de Wannsee, ele experimentou sua última crise de consciência. Com a aproximação da derrota, ele se viu confrontado com homens de seu próprio escalão que lutavam mais e mais insistentemente por exceções e até pela cessação da Solução Final. Foi o momento em que sua cautela se rompeu e ele começou, mais uma vez, a tomar iniciativas - por exemplo, ele organizou as marchas a pé dos judeus de Budapeste até a fronteira da Áustria, depois que o bombardeio aliado arrasou com o sistema de transporte. Era o outono de 1944, e Eichmann sabia que Himmler havia ordenado o desmantelamento das instalações de extermínio em Auschwitz e que o jogo acabara. "

Marilde Loiola de Menezes (Professora da UNB) escreve no prefácio do livro de Nerione Cardoso, Hannah Arendt e o declínio da esfera pública, página 20, as seguintes considerações:

"Convidada pela revista The New Yorker para fazer a cobertura jornalística do evento, Arendt fez muito mais do que um relato. Refletiu sobre o terror, o extermínio das pessoas e, sobretudo, a razão pela qual o "mal" poderia ser banalizado ao ponto de ser aceito por uma grande maioria da população, incluindo os burocratas convictos de que "estavam cumprindo ordens". Eichmann era um deles. Obedeceu ao nazismo certo de estar cumprindo o dever de servidor do Estado; como bom soldado e cidadão, acatava, simplesmente, as ordens de seus superiores. Era, assim, um tipo comum: obediente, fiel às autoridades e cumpridor dos seus deveres. Graças à sua obstinação e zelo, chegara mesmo a um posto de relevância na burocracia do Estado. No julgamento, era acusado de participação direta na "solução final" que levou milhões de judeus aos campos de extermínio nazista. Não que tivesse nada de pessoal contra eles - "até tinha alguns amigos que eram judeus" -, mas aquela era a política do Estado sendo, portanto, o seu dever obedecê-la. Mesmo quando essa "política" feria o princípio mais elementar da tradição cristã - não matarás -, a obsessão pelo cumprimento do dever parecia que obliterava a sua condição de pensar.

Estarrecida diante dos fatos, mas, ao mesmo tempo, esquivando-se da paixão reinante, Hannah Arendt pôde ver Eichmann em toda a sua mediocridade: um arrivista de pouca inteligência, uma nulidade pronta a obedecer a qualquer voz imperativa, um funcionário incapaz de qualquer discriminação moral. Em suma: um homem sem consistência própria no qual os clichês e eufemismos burocráticos estavam profundamente internalizados. Longe da idéia de um monstro, psicopata, perverso, Eichmann era um tipo comum, tão banal quanto o próprio mal que internalizara como parte de seu caráter. Apenas dava a impressão de que a obstinação pelo cumprimento das ordens o impedira de pensar."

Este último parágrafo de Marilde Loiola de Menezes (Professora da UNB) descreve um homem que é um instrumento de um sistema. É uma ferramenta do sistema totalitário. Um homem desprovido da própria consciência, logo incapaz de pensar por si mesmo, mas movido pela vontade do sistema. Movido pela vontade inexóravel de cumprir as ordens do sistema. As ordens do sistema são a vontade do sistema. As ordens do sistema, vontade do sistema, se tornaram a própria vontade de Eichmann.

Uma outra consideração interessante de Marilde Loiola está no parágrafo seguinte que diz:

"A experiência do funcionário nazista se constitui numa das primeiras constatações da autora entre a suspensão do pensar e a banalização do mal. Não que tivesse a ingenuidade de acreditar que somente os que não possuem pensamento crítico possam cometer o mal. Não era essa a questão. O problema só se punha na medida em que esse mal era aceito por todos ou por uma expressiva maioria: a subserviência sem discussão. Esse era o sentido daquilo que a autora designava por banalização do mal. "

Portanto, o sistema totalitário assimila, domina, a consciência dos indivíduos. Inicialmente, a dominação começa com o controle da consciência política, ou seja, da liberdade política, um subsistema da consciência individual, da liberdade individual. A partir desse subsistema, o totalitarismo ataca, contamina e domina as demais consciências, que também são subsistemas, por exemplo, a consciência coletiva. E o controle total ocorre quando a consciência individual é completamente assimilada pelo sistema totalitário.

Neste ponto a capacidade de pensar por si mesmo, ou seja, o uso natural da consciência da pessoa, é paralisada. Os pensamentos (processos mentais) recebem uma nova-matéria para seus processos. A matéria-prima (informação e conhecimento) introjetada pelo totalitarismo. Forma-se assim uma consciência totalitária dentro do indivíduo.

Cansei de falar sobre isto....

02/01/2008

Um discurso possível
Eu poderia juntar as ações da USP contra o Projeto OCW + a ação dos tucanos e do PFL contra a CPMF + os assassinatos em massa nas periferias + as privatizações + a escravidão no Brasil e mostrar que há uma única classe, um grupo e suas sociedades secretas, por trás de tudo isto... e começar a falar na necessidade de destruição...

Começar a falar que a existência desse grupo implica na nossa eterna escravidão. Logo, a nossa liberdade só é possível se este grupo for extinto... Nós temos aqui as condições ideais para construir um discurso nazista, onde nós, os excluídos, somos os nazistas e eles, os grupos dominantes, são os judeus... Basta alguém começar a falar isto para que o fogo incendeie a palha seca.

O ódio está pronto para explodir. A bomba está armada. Basta o estopim ser aceso. Eu vejo isto claramente...
--------------
A percepção é uma coisa surpreendente. Você percebe Deus e as coisas divinas, mas também percebe o diabo e os seus ardis... E a consciência escolhe o lado que quer ficar, o lado que quer atuar. É o livre-arbítrio da consciência. Não há diferença entre a consciência de Hitler e a consciência de São Francisco. Há apenas escolha... caminhos completamente diferentes.