Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

27/06/2006

Docentes da USP criticam novo vestibular


As caixas postais da Universidade de São Paulo amanheceram ontem lotadas de e-mails --mais de cem deles comentando o manifesto lançado por um grupo de professores contrários à forma encontrada pela instituição para mudar o seu vestibular.

Figurões da vida acadêmica, como os docentes Henrique Fleming, do Instituto de Física, Eunice Ribeiro Durhan, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e Sylvio Ferraz Mello, do Instituto Astronômico e Geofísico, uniram-se a (até ontem à noite) 87 colegas na subscrição de um texto que critica a "falta de definição clara das regras do vestibular": "Em qualquer concurso público, o formato dos exames deve ser conhecido pelos candidatos com antecedência".

O próximo vestibular, que escolherá os ingressantes de 2007 na USP, será o 30º da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular). Uma das alterações previstas é a redução do número de questões da primeira fase.

Os cem testes deverão ser reduzidos a 90, e as perguntas deverão ter "caráter interdisciplinar", ou seja, deverão relacionar disciplinas --como acontece no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), considerado mais fácil.

A discussão entre os professores da USP já vinha acalorada desde que o Conselho Universitário aprovou "premiar" com um bônus de 3% na nota final do vestibular todos os candidatos que cursaram o ensino médio em escolas públicas --medida considerada "populista" por muitos docentes.

O tom elevou-se após a pró-reitora de graduação (que tem assento no conselho curador da Fuvest), Selma Garrido Pimenta, dizer em entrevista não saber se será feita a divulgação prévia do número de questões por matéria, como vem ocorrendo há anos.

Dirigentes de cursinhos e vestibulandos criticaram a resposta, dizendo que gerava incertezas que aumentavam ainda mais a tensão do candidato.

Apesar disso, ontem, o professor José Coelho Sobrinho, coordenador de Comunicação da Fuvest e docente da Escola de Comunicações e Artes, reafirmou que o manual do próximo vestibular, a ser ultimado "em meados de julho", não deverá conter informações sobre o número de questões de cada disciplina. "Segundo as informações de que disponho, constará apenas o número total de questões: 90", disse.

Os 90 signatários do manifesto são ainda poucos, se comparados ao total de docentes da USP (5.000). Mas resolveram fazer barulho porque acham que as "mudanças bruscas nos métodos de avaliação [dos candidatos a ingressar na universidade] feitas sem estudos e discussões mais aprofundadas podem levar a resultados indesejados, colocando em risco a qualidade do ensino na USP".

A matriz das mudanças em curso no vestibular da USP atende pelo nome de Inclusp, programa de inclusão social da USP. A idéia-força do Inclusp é aumentar a presença na universidade de estudantes provenientes da escola pública --hoje, apenas 23,6% do total de ingressantes na USP.

Por intermédio da assessoria de imprensa, a reitoria disse "que as mudanças no vestibular estão sendo analisadas há quatro, cinco anos pelos conselhos de todas as unidades e que, mesmo não tendo recebido oficialmente o texto do manifesto, pedirá aos órgãos técnicos da instituição que o analisem para eventual aproveitamento".

Gates: doação de Buffett pode ajudar a curar as piores doenças do mundo


Em uma carta com data desta segunda-feira, Buffett informou a Bill e a Melinda Gates que a primeira doação de sua empresa, a Berkshire Hathaway, seria para a fundação dirigida por eles

Renato Martins e AP


AP
Warren Buffett (primeiro à direita) ao lado de Melinda e de Bill Gates

NOVA YORK - A doação de Warren Buffett de cerca de US$ 1,5 bilhão por ano para a Fundação Bill e Melinda Gates será usada para buscar curas para as piores doenças do mundo e para melhorar a educação americana, disse nesta segunda-feira Bill Gates. "Não há razões para que nós não possamos curar as 20 maiores doenças", afirmou o dono da Microsoft ao lado de Buffett em uma cerimônia na Biblioteca Pública de nova York.

"Estamos surpresos com a decisão de nosso amigo Warren Buffett de usar sua fortuna para tratar das desigualdades mais desafiantes do mundo", disse Bill Gates, que, além de chairman da Microsoft, é um dos diretores da Berkshire Hathaway. Buffett também anunciou doações para outras instituições de caridade: a Susan Thompson Buffett Foundation (batizada em homenagem à sua mulher, já falecida), à Howard G. Buffett Foundation, comandada por seu filho mais velho, à Susan A. Buffett Foundation, comandada por sua filha, e à NoVo Foundation, chefiada por seu filho mais novo, Peter; cada uma dessas instituições receberá 5% das ações neste ano e 5% do que sobrar a cada ano até a morte de Warren Buffett, ou até que determinadas condições já não se apliquem. No caso da Bill & Melinda Gates Foundation, uma condição é a de que ou Bill Gates ou sua mulher, Melinda, estejam vivos e continuem a administrar sua fundação.

Em uma carta com data desta segunda-feira, Buffett informou a Bill e a Melinda Gates que a primeira doação de sua empresa, a Berkshire Hathaway, seria para a fundação dirigida por eles.

A Fundação Bill e Melinda Gates, cujos ativos são de US$ 29,1 bilhões, utiliza o dinheiro em programas de saúde mundial, com o combate à pobreza e com o aprimoramento do acesso à tecnologia em países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, a fundação centra-se na educação e na tecnologia nas bibliotecas públicas.

Segundo a carta enviada por Buffett, todo o dinheiro doado deve ser distribuído no ano em que foi doado, e não adicionado ao patrimônio da fundação para futuras ações.

Ao incorporar a doação de Warren Buffett, a Bill & Melinda Gates Foundation passará a ter um patrimônio de mais de US$ 60 bilhões, consolidando-se ainda mais como a maior entidade filantrópica do mundo (a Ford Foundation tem US$ 11 bilhões, a Lilly Endowment US$ 8,3 bilhões e a Andrew W. Mellon Foundation tem US$ 5,5 bilhões). Em comparação, a ONU e todas as suas agências têm um orçamento anual de US$ 12 bilhões. As informações são da Dow Jones.

Warren Buffett é presidente da empresa de investimentos Berkshire Hathaway e é considerado o segundo homem mais rico do mundo, atrás apenas de Bill Gates. Dono de uma fortuna estimada em US$ 44 bilhões, Buffett acumulou tal quantia através de investimentos inteligentes, principalmente por meio da Berkshire Hathaway.

14/06/2006

Técnicos do CCE-USP e alguns moradores estão sabotando a internet sem fio do CRUSP
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De repente as redes piratas desapareceram...
14/06/2006 08:04
Subitamente as redes piratas que apareciam no profile do programa de acesso à rede sem fio desapareceram e o problema de falta de conectividade acabou. Por que será ? Onde estão se escondendo os filhotes de hackers ? Estão com medo do quê ? Por que não mostram a cara agor
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Há fortes indícios de que o acesso a internet sem fio do CRUSP, para a graduação, esteja sendo sabotado por técnicos do CCE e por alguns moradores do CRUSP. É muito esquisito, esquisitíssimo, que no prédio da pós-graduação, bloco C, que fica no meio dos prédios da graduação, a internet funcione quase que normalmente (o único problema é o excesso de usuários), enquanto que em alguns prédios da graduação a coisa não funcione.
Além disso, o erro de conectividade limitada ou nula é uma restrição do servidor e não problema na antena, ou seja, o servidor de acesso impede que o computador obtenha um endereço IP para a máquina.

Outro problema que se verifica ainda é que algumas antenas simplesmente são desligada ou desconectadas, transferindo-se todo o tráfego para as outras que ficam ligadas, sobrecarregando e impedindo o acesso de alguns, talvez dezenas, de computadores.

Os relatórios que o CCE está apresentando tem grandes possibilidades de serem forjados e descreverem erros, que até podem existir, mas que são criados intencionalmente. Problemas como, por exemplo, antenas quebradas, desalinhadas, desconectadas, etc, ou seja, as antenas dos prédios da graduação quebram, viram para o lado errado, desconectam-se, etc, mas as da pós-graduação permanecem firmes e imbatíveis, resistindo aos ventos e às tempestades.

Assinalo ainda que um dos golpes típicos dado pela criminalidade organizada contra a administração pública, principalmente na área de informática onde existem equipamentos caríssimos, é a troca de coisas compradas novas nas licitações por coisas velhas e usadas. As coisas novas são trocadas, ou vendidas, nas empresas que trabalham com este tipo de equipamentos e o funcionário corrupto embolsa uma parte do valor do negócio. Resumindo, o povo fica com um equipamento velho e defeituoso, enquanto que a empresa privada corruptora fica com a coisa novinha em folha, adquirida com o dinheiro público, e o funcionário corrupto embolsou o seu.

Lembro que a única forma de controle da Universidade é uma plaquinha com o número do equipamento. Plaquinha esta que pode ser retirada por qualquer um e colocada em outra coisa parecida, quem vai notar a diferença ? Não sei se isto está acontecendo aqui dentro da USP, mas defeitos em antenas novas de internet via rádio me deixam com a "pulga atrás da orelha".

Outra questão séria refere-se ao fato de alguns moradores estarem criando redes particulares, privadas, dentro da rede principal da USP. Estas redes particulares enganam a maioria dos computadores que, ao invés de se conectar na rede principal, conectam-se nestas redes particulares, abrindo o computador para o indivíduo que controla o servidor pirata. São filhotes de hackear que estão usando este truque para invadir e copiar dados dos computadores dos alunos, principalmente trabalhos, monografias, dissertação e teses dos alunos de pós-graduação.

Copiam estes trabalhos, mudam de nome e vendem a preço de ouro para os boyzinhos das faculdades particulares localizadas no interior do Brasil. Além disso, podem copiar senhas, bisbilhotar os seus emails e monitorar os sites que você visita, a sua conta bancária, etc. Podem fazer tudo aquilo que os ladrões da internet fazem, inclusive invadir e roubar o seu dinheiro que está no banco. Suspeito que mais de uma dezena de moradores estejam fazendo isso e sei, mais ou menos quem são e onde moram. Em outras palavras, tem uma quadrilha de piratas da internet se desenvolvendo e procriando dentro do CRUSP.

A Universidade e a polícia devem tomar medida rápidas para detectar e pegar estes vagabundos, antes que eles roubem dados de pesquisas importantes, assim como acessam informações de gente graúda da Universidade, principalmente dos professores desavisados que usam notebook nas proximidades do CRUSP. Não sei se a rede destes piratas consegue chegar à Reitoria, mas é importante estar atento. Sei disso porque invadiram o meu computador foi invadido, por estes vagabundos, várias vezes e eles sempre prejudicam a minha conexão.

Por exemplo, assim que comecei a digitar este texto a minha conexão caiu e começou a aparecer o erro de conectividade nula ou limitada, ou seja, acabaram de colocar um bloqueio no servidor para tentarem me impedir de publicar este texto. Além disso, na minha lista de redes ativas aparecem mais de seis redes rodando dentro do CRUSP. Se a Universidade não tomar providências para acabar com estes filhotes de hacker ou para impedir os sabotadores do CCE tem gente que vai tomar medida drásticas: os picaretas serão identificados e levados para dentro dos matos da USP, o que vai acontecer lá somente os pistoleiros da São Remo sabem dizer. Se a justiça pública não funciona a privada assume o serviço.

Quanto ao CCE a AMORCRUSP deveria pedir uma auditoria externa na rede sem fio, assim desmascaramos os técnicos picaretas que estão danificando os equipamentos para prejudicar o acesso dos alunos da graduação à internet e, certamente, após a confirmação das picaretagens, pedir a abertura de processos administrativos na Reitoria e a exoneração do Diretor do Centro de Computação eletrônica.

13/06/2006

Hawking: humanidade deve migrar ao espaço para sobreviver

Segundo ele, o risco crescente de um desastre na Terra faz com que tenhamos que procurar um novo lugar para viver

AP


AP
O astrofísico Stephen Hawking

HONG KONG - A sobrevivência da raça humana depende de sua habilidade de encontrar novos lares em qualquer lugar no universo, já que há um risco crescente de um desastre destruir a Terra, disse nesta terça-feira o renomado cientista Stephen Hawking.

O astrofísico britânico disse, em uma conferência em Hong Kong, que os humanos poderiam ter uma base permanente na Lua em 20 anos e uma colônia em Marte nos próximos 40.

"Não encontraremos nenhum lugar tão bom quanto a Terra a não ser que viajemos para outro sistema estelar", acrescentou Hawking.

Segundo ele, se os humanos puderem evitar se matar entre si mesmos nos próximos cem anos, eles deverão ter instalações espaciais que poderão continuar sem o suporte da Terra.

"É importante para a raça humano se disseminar pelo espaço, pela sobrevivência das espécies", disse Hawking. " A vida na Terra está em risco crescente de ser exterminada por um desastre, como o aquecimento global, guerra nuclear, um vírus geneticamente modificado ou outros perigos que ainda não pensamos".

O cientista de 64 anos - autor do best-seller Uma Breve História do Tempo - anda de cadeira de rodas e se comunica com a ajuda de um computador pois sofre de um distúrbio neurológico chamado esclerose lateral amiotrófica, ou ELA.

12/06/2006

A COSEAS está desviando recursos destinados a Assistência Estudantil

A Senhora Marisa Luppi, Chefe do Serviço de Promoção Social da Coseas, disse-me, nesta data (12/06/2006), que as bolsas assistenciais (bolsa alimentação, moradia, trabalho, etc) são liberalidades da Universidade para os alunos, ou seja, de acordo com esta senhora a Coseas faz liberalidades com os recursos públicos e por isto as assistentes dão as bolsas para quem elas quiserem. Ela disse isto tentando justificar o fato de alunos aprovados nos primeiros lugares da seleção sócio-econômica não terem recebido a bolsa trabalho, enquanto que alunos piores classificados, ou nem classificados, receberam a bolsa.

Para você compreender melhor este fato façamos analogia com o vestibular. Você faz a prova, passa no processo em primeiro lugar, mas não entra na Faculdade, pois a sua vaga foi ocupada por uma pessoa que ficou no último lugar no processo. Isso é legal ? Isso está certo ? Não está, mas isto está acontecendo hoje dentro da USP, ou seja, os recursos destinados a bolsa trabalho estão beneficiando pessoas que não precisam e gente realmente necessitada está sendo excluída do benefício.

Isso acontece porque funcionários com mentalidade estreita e obtusa ocupam cargos importantes dentro da Universidade. "As bolsas assistenciais são liberalidades", diz a Chefe do Serviço Social da Coseas, Marisa Luppi. Eu pergunto, desde quando se faz liberalidades com recursos públicos ?

De acordo com o Artigo 2º da Portaria Gr-2612, de 29.8.90, da Universidade de São Paulo – “A Bolsa-Trabalho destina-se a auxiliar o estudante que, em virtude de condições sócio-econômicas desfavoráveis, encontre dificuldades no custeio de seus estudos.”

Além disso, o Artigo 5º, deste mesmo documento estabelece que: “São condições para que o aluno possa obter a Bolsa-Trabalho:

I. estar regulamente matriculado em curso de graduação da USP;

II. inscrever-se em projeto de trabalho previamente aprovado pela Comissão de Acompanhamento do Programa;

III. ser classificado em seleção sócio-econômica realizada pela Divisão de Promoção Social da Coseas;

IV. ser aprovado, em avaliação de caráter técnico/acadêmico, a ser realizado pelos docentes/técnicos responsáveis pelo projeto de trabalho, para o qual o aluno foi classificado na seleção sócio-econômica.”

Assim, da análise destes dois dispositivos legais que regulamentam a concessão das bolsas trabalho se depreende que este benefício foi criado para auxiliar alunos que, em virtude de condições sócio-econômicas desfavoráveis, encontre dificuldades no custeio de seus estudos. Portanto, o espírito, a finalidade da bolsa trabalho, é auxiliar alunos que precisam de ajuda e que foram aprovados em seleção sócio-econômica.

Contudo, na prática o que tem sido feito é a aplicação exclusiva do inc. IV do art. 5o, ou seja, a qualificação técnica suplanta a finalidade sócio-econômica. Assim, a bolsa vai para um aluno qualificado que não precisa da bolsa para viver e continuar estudando. Em outras palavras, o inc IV derroga o art. 1o, transformando a bolsa assistência em meio do supervisor/professor conseguir mão-de-obra qualificada para os seus projetos de extensão.

Além disso, o artigo 5o estabelece o rol de exigências necessárias para que o aluno ingresse no projeto, ou seja, o aluno tem que passar por duas avaliações, a primeira é a sócio-econômica e a segunda é a avaliação técnica/acadêmica do professor. Fora isto a norma citada não estabelece nenhum outro requisito. Portanto, quaisquer outras imposições criadas pelos supervisores ou professores são ilegais e constituem abuso de autoridade de quem as impõem, pois está exigindo mais do que a lei exige.

No meu caso fui aprovado em segundo lugar na seleção sócio-econômica, em um projeto que tinha quatro bolsas, não fui chamado para a entrevista e a minha vaga foi ocupada por outra pessoa. Fui investigar o ocorrido e disseram-me (a assistente Carla –supervisora do projeto) que não fui aprovado porque não era morador do CRUSP, etc. Uma desculpa completamente estúpida e ilegal, pois exige algo não previsto na lei.

Este é o meio utilizado pela assistentes sociais para retirar do processo os alunos que não são seus protegidos e que questionam as ações opressivas e tirânicas da COSEAS, ou seja, as assistentes constroem um edital adequado ao perfil de seus protegidos e que exclui todas as demais pessoas que queiram participar do processo. Em outras palavras manipulam e desvirtuam o processo construindo um edital viciado e fraudulento, mas tudo com aparência de legalidade.

Isso era comum, não sei se ainda é, nos concursos para docentes da USP, assim como nos processos seletivos para contratação de funcionários. No concurso docente o edital exigia um especialista em: "título da tese de doutorado do candidato escolhido", enquanto que na seleção de funcionários só passava o currículo que tinha o nome da pessoa previamente determinada. Teses são trabalhos inéditos e originais, logo há apenas um especialista naquele assunto. Resultado: todos os demais candidatos à docência eram excluídos da competição ou nem participavam dela. Análise curricular eliminatória ou classificatória elimina todos os candidatos desconhecidos, permanecendo na seleção apenas os amigos e os indicados. A legalidade foi respeitada e o edital viciado e tendencioso foi cumprido integralmente. É assim que pessoas obtusas e estúpidas assumem cargos importantes dentro de uma Universidade como a USP, ou seja, a máfia universitária cria editais personalizados e específicos para seus protegidos.

Se investigarem a USP a fundo vão descobrir muitas coisas interessantes, assim como truques engenhosos para desviar recursos públicos, fraudar processos seletivos e licitações, desviar dinheiro de pesquisa para empresas particulares, entrar na pós-graduação, receber bolsas assistenciais, etc. O caso dos diplomas na Faculdade de Direito não é uma exceção e nem é um caso isolado, mas apenas a ponta de um iceberg gigantesco.

Resumindo, vários alunos que participaram da seleção de bolsas-trabalho na USP não foram chamados, inclusive pessoas que foram classificadas nos primeiros lugares na seleção econômica, portanto classificadas para a entrevista, não foram chamadas e os supervisores/professores, donos dos projetos, preencheram as vagas com amigos íntimos, puxa-sacos, amantes, etc, ou então, com alunos ligados às assistentes da COSEAS - gente pré-escolhida, gente da laia deles. Enfim, as seleções de bolsas-trabalho em vários projetos foram fraudadas. Enganaram e roubaram as vagas dos alunos classificados nas seleções sócio-econômica e deram as bolsas para seus protegidos.

Um amigo - Daniel Câmara foi aprovado em quarto lugar em um projeto do curso de Física que tinha 12 vagas. Não o chamaram para a entrevista e deram a vaga para outra pessoa. Ele foi investigar o caso e descobriu que tinham trocado o endereço dele na ficha de contato para a entrevista. Logo, não contataram ele e substituíram-no por outro indivíduo. A desculpa foi que erraram. Contudo, certamente, foi um erro intencional que tinha por finalidade tirar a bolsa de um para dar ao outro. A rapinagem e as picaretagens estão correndo soltas dentro da COSEAS - USP. Se ele tivesse ficado quieto o golpe teria se concretizado.

Certamente, estes fatos constituem diversos crimes tipificados no Código Penal, desde abuso de poder, passando por corrupção, desvio de recursos públicos, prevaricação, omissão, etc, tanto das assistentes sociais, quanto dos supervisores/professores envolvidos, justificando, portanto, pedidos de abertura de sindicância e processo administrativo na Reitoria, assim como denúncia ao Ministério Público e Ação Popular contra a Universidade, visando a recuperação dos recursos desviados. Sem contar as ações pessoais de reparação de danos, materiais e morais, que os alunos enganados e prejudicados podem mover contra a USP.

Além disso, é possível questionar também a qualidade e as características de alguns projetos que estão sendo financiado com dinheiro público. Concentro-me nos projetos apresentados pelas assistentes sociais, ou seja, além do cargo de assistentes sociais algumas delas também acumulam a função de supervisoras de projeto de bolsa trabalho. Se atuando como assistentes elas já desvirtuam as bolsas, desviando as para seus protegidos, imagina agora controlando o processo inteiro de concessão do benefício.

Por exemplo, a assistente Carla tem em suas mãos mais de uma dezena de bolsas (trabalho e monitoria da sala Pró-aluno) que ela dá para quem bem entende. Certamente, estas bolsas vão para os seus protegidos e aliados, para gente da laia dela. Os demais alunos são excluídos do processo de seleção, tanto por meio de editais viciados e tendenciosos, construídos sob medida para seus protegidos, quanto por meio de entrevistas parciais e fraudulentas. Tudo é subjetivo e a única coisa que predomina é a vontade ilícita desta assistente. Lembre-se estou falando da USP, uma Universidade Pública, regida, supostamente, pelo Direito Administrativo.

Por exemplo, tem bolsa trabalho na COSEAS para plantar e zelar de uma horta do CRUSP. Horta esta que produz alimentos para o bolsista e seus amigos. Como é possível que a Universidade dê bolsa para o aluno cuidar de uma horta. Qual é a relevância disso para a USP ? Lembre-se estamos em São Paulo e não em Piracicaba, na Esalq. Além disso, como é que a assistente social Carla controla este projeto ? Ela tem formação nesta área ? Certamente, não. É um daqueles projetos feito para enganar os bobos e para dar dinheiro para os protegidos desta assistente. Mas a minha maior dúvida é, como é que os sábios professores da USP autorizam uma coisa como esta ? A Pró-reitoria de graduação sabe disso ?

Outro projeto não menos curioso, e também dominado pela assistente Carla, consiste em duas bolsas trabalho para os bolsistas passarem filmes nos finais de semana no CRUSP, ou seja, a bolsa consiste nas atividades: o bolsista vai até a locadora e pega um filme, em seguida vai na internet e pega a sinopse do filme, imprime algumas folhas desta sinopse e vai até os blocos de moradia colando as folhas nas portarias. No sábado (primeiro bolsista) vai até a sala de vídeo do bloco E e passa dois filmes. No domingo (bolsista dois) faz a mesma coisa. Recebem R$ 300,00, cada um deles, para fazer isto quatro vezes no mês, ou seja, enquanto alguns alunos se matam em projetos que poderiam ser considerados "trabalhos forçados", outros simplesmente não fazem nada. Porém, todos ganham a mesma quantia.

Outro projeto esquizofrênico é o Jornal BOCA DO CRUSP que consiste em copiar textos sobre drogas da internet, formatar no WORD com uma letra bem esquisita, imprimir uma cópia, tirar um monte cópias do original e jogar um monte em cada bloco do CRUSP. E a USP paga, neste caso não sei quantas bolsas, para que isto seja feito. É um jornal ilegível, sem coerência e sem nenhuma relevância prática. Alguns lêem, outros usam para fazer fogueira, mas a maioria acaba indo para a lata do lixo. Se os textos estão na internet e todo mundo tem acesso a WEB, por que imprimir os textos ?

Eu pergunto, quanto do dinheiro público esta sendo jogado fora em projetos estúpidos como estes ? Quem atribuiu competência para as assistentes sociais fazerem e controlarem projetos e bolsas ? Qual é a resolução que autorizou isto ? As assistentes não tem competência nem para zelar direito por suas funções, quanto mais para montarem e orientarem projetos de bolsa trabalho. Elas são assistentes sociais, são funcionárias da Universidade, logo não possuem competência acadêmica para orientar projetos e nem bolsistas. Mas, como disse a chefe das assistentes sociais, Marisa Luppi, as bolsas são liberalidades da Universidade, elas fazem o que quiserem com estes recursos públicos, inclusive podem jogar o dinheiro fora, se quiserem.

Funcionário não tem competência e nem conhecimento para auxiliar os alunos bolsistas no desenvolvimentos de suas atividades. A bolsa trabalho serve para auxiliar os alunos necessitados, mas isso não significa que o dinheiro público deva ser jogado em projetos sem nenhuma relevância prática para a Universidade e para a coletividade. Por isso os projetos devem ser orientados e tutelados por professores capacitados e dentro da área de conhecimento e domínio de cada um. O projeto tem que servir tanto ao bolsista necessitado, quanto à coletividade que paga por ele.

Certamente, a Reitoria e o Ministério Público devem investigar profundamente estes fatos e punir os responsáveis por estas ilegalidades, arbitrariedades e irregularidades, pois o dinheiro público não é liberalidade e não pode ser tratado com este desleixo, esta falta de responsabilidade.

Mas o que mais me irritou na conversa com a Chefe do Serviço Social foi o fato dela ter tido que já me derrotou uma vez e vai fazê-lo de novo, ou seja, ela sabe que nós temos razão em reclamar nossos direitos, sabe que nós fomos enganados e desclassificados ilicitamente e, ao invés de corrigir a ilegalidade, ela diz que vai nos derrotar de novo na Reitoria e na justiça.

Eu não me lembro dela ter me derrotado alguma vez, mas a audácia desta senhora em dizer isto atraiu para ela todo o ódio que sinto pela opressão e tirania institucionalizada pela Coseas. As assistentes praticam estas ilegalidades porque possuem certeza absoluta de que nada será feito contra elas, de que os processos administrativos serão arquivados, as ações no MP serão anuladas e os processos judiciais serão extintos sem julgamento do mérito.

Como disse-me um amigo, a Reitoria não fará absolutamente, pois o dinheiro é da coletividade e não dela. E o MP vai ler a petição e não vai se interessar pelos fatos, pois não envolve nenhum político importante, gente graúda. E o Juiz vai olhar para a ação popular e pensar: "Se eu receber esta ação, nunca mais poderei realizar o meu sonho de ser professor do Largo São Francisco. É melhor arquivar este negócio a prejudicar minha futura carreira docente."

Então, eu respondi ao meu amigo, não há outro modo. Teremos que encontrar um meio para acabar com estas ilegalidade, retribuindo em dobro o mal que estas pessoas estão nos causando com suas ações ilícitas. Não foi apenas uma ou duas pessoas prejudicadas, mas dezenas, talvez centenas, de alunos que foram enganados e desclassificados dos processos seletivos por funcionários mal intencionados e corruptos. Recursos para as bolsas estão sendo desviados para outras coisas e a tendência é piorar, pois o ano que vem a USP receberá muito mais alunos pobres e necessitados.

Os estudantes e imigrantes da França podem nos servir de inspiração. Lá no país da Revolução Francesa os protestos consistiam em queimar carros. Talvez se começarmos a protestar incendiando carros nos estacionamentos da Universidade, principalmente daqueles que nos causam mal (Assistentes, professores, etc), eles irão nos levar a sério e nos tratar com mais respeito, mais imparcialidade e mais justiça.

O que não podemos fazer é calar e assimilar o prejuízo, convencendo-nos de que os opressores tem razão em exercer a tirania e de que nós somos fracos para enfrentá-los.

Mais Crimes, ilegalidades e arbitrariedades na USP

11/06/2006

Faculdade de Direito da USP apura fraude em diploma

LUÍS FERRARI - da Folha de S.Paulo

Escola que se orgulha de ter tido em seus bancos nove ex-presidentes da República, a Faculdade de Direito da USP foi abalada nas últimas semanas por uma acusação de fraude. O formando Jefferson Siqueira de Brito Alvarez, 26, que pagou pelo serviço de caligrafia em seu diploma, notou que o documento entregue veio impresso, e não manuscrito.

"Desconfiei da exigência de depósito de R$ 85 em uma conta corrente de pessoa física pelo serviço de caligrafia, além da taxa da tesouraria da faculdade, de R$ 30. Quando recebi o diploma, no fim de abril, ficou claro que não era caligrafado."

Ele pediu esclarecimentos à direção da escola, que determinou a abertura de uma sindicância para investigar o funcionário Mario Paulino da Silva Sobrinho, apontado como a pessoa responsável por essa cobrança dos formandos e que ocupava o cargo comissionado de assistente acadêmico --posto que só vem atrás do diretor e do vice-diretor da faculdade.

Eduardo Cesar Silveira Vita Marchi, diretor da faculdade e professor titular de direito romano, disse à Folha de S.Paulo ter ficado surpreso com a denúncia. "Quando o indiquei, não tinha nenhuma notícia de processo administrativo ou de sindicância contra ele", narrou Marchi, que, após o caso ter se tornado público, afirmou ter ouvido de outro professor que o funcionário, contratado sem concurso público, em 1973, "talvez tenha tido problemas na pós-graduação".

Outros envolvidos

O diretor afirmou ainda que não descarta a participação de outros funcionários na fraude da caligrafia e que isso será verificado pela comissão de sindicância, instaurada em 12 de maio e que tem prazo de 60 dias para ser concluída.

Outro ponto que a comissão investigará é se Paulino indicou como calígrafa sua mulher. Apesar de a USP permitir ao formando a livre contratação de calígrafos, na Faculdade de Direito, até o ano passado, o formulário para requisição do diploma trazia o número da conta corrente de uma só calígrafa, para que o aluno depositasse R$ 85 pelo serviço. Após a denúncia, Marchi determinou uma tomada de preços pela impressão de diplomas e constatou que a média cobrada pelo serviço é de R$ 30.

Na conversa que teve com a reportagem, o diretor, apesar de repetir a importância de garantir o direito de ampla defesa, mostrou quase certeza de que os diplomas não foram manuscritos e de que outras pessoas foram prejudicadas.

"Todo mundo viu que é impresso", afirmou Marchi sobre os diplomas. A seguir, o diretor apontou que os lesados podem tomar medidas judiciais contra a USP. Ele afirmou que os estudantes poderão ser indenizados. "Se ficar comprovada a fraude e os prejuízos dos alunos, isso é de responsabilidade objetiva da autarquia. O Estado tem que ressarcir, mas tem ação de regresso sobre o funcionário."

04/06/2006

A nova fronteira liberal


Propor a substituição das políticas públicas por caridade plutocrática, e sugerir a dissolução definitiva do Estado Social, pode ser a quimera radical dos neoliberais.

A mensagem essencial do anúncio é: o Estado está renunciando a suas responsabilidades, ou tornou-se financeiramente incapaz. As empresas são cidadãs, têm no lucro seu meio de agir

Um anúncio recente, entre vários outros, dizia: a restauração da primeira parte da Galeria dos Espelhos, em Versalhes, foi concluída. Devemos o feito à generosidade da empresa Vinci, da área de construção civil. Com tocante ingenuidade, o diretor de comunicação da empresa explicou ao canal de televisão France 2 [1] que a Vinci não só está muito orgulhosa de ter "oferecido" à nação a manutenção de seu patrimônio, como também de ter mobilizado "todo o conhecimento" de suas próprias equipes através das filiais do grupo especializadas em restauração. Entende-se por isso que a Vinci, a título de mecenato desinteressado, financiou uma operação da própria Vinci; graças a ela, a obra cultural generosa foi decididamente uma boa operação - monetária e simbólica.

Na verdade, a mensagem essencial é outra. Nada foi dito mas todo mundo compreende: o Estado está renunciando a suas responsabilidades, ou tornou-se financeiramente incapaz. As empresas são cidadãs, têm no lucro seu meio de agir; os capitalistas não são movidos apenas por dividendos, mas também pela cultura.

Há muitas maneiras de se enxergar esta tendência generosa do capital - que não é tão recente assim, mas está crescendo em amplitude. Podemos perceber nela as competições de filantropia ostentatórias ou as manobras de legitimação de fortunas feitas em condições mais ou menos lícitas. Estas operações, ainda que eventuais na França, desenham um horizonte bem mais geral, uma nova fronteira liberal cuja coerência se anuncia ainda mais radical do que tudo o que o liberalismo pode mostrar até agora. Como sempre, basta voltarmo-nos para o outro lado do Atlântico para vermos uma configuração mais expressiva, tão recente que, mesmo lá, o modelo ainda está no estado prático e será preciso ainda passar ao "estado doutrinal" para ganhar o impulso necessário para sua completa realização. É possível que haja uma vantagem em anteciparmo-nos aos doutrinários liberais. Diremos antes deles o que eles próprios não tardarão em formular menos para lhes prestar assistência, mais para diluir por antecipação o efeito de sua "surpresa" intelectual.

A intenção deste esforço doutrinário é fazer pensar a ordem pública da ação coletiva segundo o mesmo modelo da ordem econômica do mercado - ou seja, como ordem descentralizada
Dos múltiplos pontinhos, surge a imagem

As disciplinas da universidade levam o nome dos industriais que as financiam. O banco patrocina as exposições. As fortunas privadas apoiam a pesquisa médica... É preciso compreender a coerência do desenho que surge a partir do conjunto de pontinhos que são estas múltiplas iniciativas isoladas. Todos os espaços da ação pública são potencialmente candidatos à invasão da caridade privada. Mas se é assim, qual razão de ser resta ao Estado? Formular a questão, diante deste cenário de caridade generalizada, é o mesmo que respondê-la. É o que dirão os liberais: o Estado não é apenas importuno e ineficaz: é inútil.

É aqui que começará o esforço doutrinário. Sua intenção é fazer pensar a ordem pública da ação coletiva segundo o mesmo modelo da ordem econômica do mercado - ou seja, como ordem descentralizada. A derrota histórico do socialismo difundiu a idéia de que uma economia não pode ser organizada a partir de um centro único. A força do mercado, repete há muito tempo o dogma neoclássico, consiste em não requerer nenhuma instância de coordenação central e em deixar os agentes responsáveis por suas próprias ações, sem por isso ter como resultado o caos. O mecanismo impessoal dos preços se encarrega de ajustar a miríade de ofertas e demandas individuais. A ignorância dos liberais em relação a todas as construções sociais que coordenam de fato os agentes econômicos - o direito, a moeda, as regras, as convenções... o Estado - e sem as quais o capitalismo não saberia funcionar, não os impede em nenhum momento de acreditar no mercado como a um relógio auto-regulado, pura coleção de indivíduos propensos à harmonia mercantil espontânea, contanto que ninguém se intrometa "do alto" em seus pequenos negócios.

Mas se a ordem descentralizada foi testada no domínio econômico sob a figura do "mercado", já dizem alguns liberais, porque não acabar com o Estado, "centro" necessariamente inoportuno numa filosofia social que só quer reconhecer os indivíduos isolados e suas livres interações? Porque a vida coletiva, as transferências financeiras deveriam passar por um executivo central, um imposto autoritário e espoliador? O Gosplan fracassou como operador econômico; o Estado estaria a caminho de fracassar como operador político, o que a sua "falência" econômica já atestaria.

Mas uma vez que o Estado tiver desaparecido e a ordem política for igual ao mercado, que motivo levará os agentes privados a se engajar no finaciamento das necessidades coletivas? A resposta norte-americana já está pronta: é a moral. A unidade totalitária do circuito financeiro do Estado fiscal será substituida pela proliferação de transferências caridosas privadas, cada uma bem melhor situada que o poder público para saber a quem e em favor de que causa ela deve mobilizar recursos - do mesmo modo que estaria melhor colocada para saber o que oferecer e demandar ao mercado. O gesto caridoso se encarregará daquilo que a coerção dos impostos obrigava a fazer de má vontade.

Mas, nesta nova configuração, quem pode assegurar que a variedade das necessidades coletivas estará satisfeita? A doutrina liberal responde que as escolhas de doação são freqüentemente o reflexo de uma sensibilidade particular do doador, contraída por ocasião de uma experiência pessoal: aqueles que sofreram acidentes rodoviários ajudariam na prevenção de acidentes; aquele que sofre de uma doença, dará recursos à pesquisa médica especializada, etc. Será então, prosseguirá a doutrina, a diversidade das experiências que garantirá a repartição harmoniosa do esforço caritativo global. A "diversidade de experiências" de quem, exatamente? Os doadores potenciais significativos - os mais afortunados. "Diversidade" bastante restrita, a bem dizer, esta de um setor social isolada que saberá sem dúvida se entusiasmar pela alta cultura ou deplorar os estragos de aparência anti-pessoais, mas que, tendo passado pelas grandes universidades, lembrará talvez com mais dificuldade de financiar as escolas de bairro, isso para não falar da assistência aos desempregados - responsáveis pelo seu destino.
Depois de aliança de séculos, o pensamento individualista do mercado desbancaria a filosofia política das Luzes. Ela tornou-se obstáculo, por se apegar à idéia da autodeterminação coletiva. O mercado só quer indivíduos
Fim de um longo casamento

É preciso estar atento: repassar assim aos agentes privados a responsabilidade das operações de ação coletiva é muito mais radical do que uma simples estratégia de privatizações e de concessões de serviços públicos. É a extinção pura e simples da idéia da ação pública, e talvez até da categoria do político, inteiramente dissolvido na moral da transferência caridosa. Deste ponto de vista, há qualquer coisa como uma fratura na unidade do projeto moderno entendido como visão simultânea da autonomia individual e da autonomia coletiva. Se a dinâmica histórica da modernidade trouxe um ideal de emancipação dos indivíduos em relação a seus laços com a tradição e implicações habituais, ela também formulou um projeto de domínio, pelos homens, de seu destino coletivo, o qual supõe um ponto central da deliberação política.

Ora, a idéia de uma ordem política descentralizada é a própria negação disto. A coletividade passa a existir apenas sob a forma inferior de agregação. O destino "coletivo" não é nem desejado nem discutido por ninguém. Ninguém previu o resultado do conjunto, ninguém pressionou por ele. É exatamente desta falta de intencionalidade que se felicitam os apóstolos do mercado puro e perfeito, sem perceber que sua extensão à ordem política destruiria ipso facto a idéia moderna de governo, não dos homens, mas do corpo político em si. Depois de uma aliança eficaz de muitos séculos, o pensamento econômico individualista do mercado desbancaria a filosofia política das Luzes, com a qual desfrutou de um longo tempo de companheirismo, mas que terminou por se tornar um obstáculo pela necessidade de se apegar à idéia da autodeterminação coletiva - e o mercado só quer indivíduos.

Tudo se sustenta: o desaparecimento da política como prática coletiva, que supõe a construção de um grau mínimo de centralização, abandona o terreno à moral individual, única forma de regulação social tolerada pelo liberalismo. Nenhuma lei, ética para todos! Podemos sem dúvida medir os progressos do liberalismo pelo progresso do moralismo generalizado, substituindo em proporções cada vez maiores a ação do Estado social julgado como totalitário, mesmo se por um paradoxo típico do liberalismo apenas o Estado policial-carcerário escapa desse deslize do terreno. Não há por que se inquietar; o núcleo duro do Estado, uma vez eliminado todo o resto, será este: se há uma coisa que os mais ricos aceitarão continuar financiando, esta coisa é a manutanção da ordem. Para o resto, a moral fará o trabalho. Fazer da política pública um moralismo plutocrático e pronunciar assim a dissolução definitiva do Estado social, será, talvez, a nova - e última - fronteira liberal.

(Trad. : Patrícia Andrade)

[1] Jornal das 13hs, de 19 de dezembro de 2005.

A ordem do avesso

Na insurgência emergiu uma sociedade dividida entre o lícito e o ilícito, entre carências e conveniências

José de Souza Martins*



O principal protagonista dos acontecimentos da semana trágica em São Paulo, líder do PCC, fez a um policial uma afirmação esclarecedora sobre as contradições em que estamos enredados: "Eu posso encontrar e matar vocês em qualquer lugar, mas vocês não podem me matar aqui". O advogado de um dos criminosos, presente a uma sessão da CPI do Tráfico de Armas, suspeito da compra da gravação do depoimento secreto do diretor do Departamento de Investigações Criminais de São Paulo, reagindo ao questionamento de sua atuação como advogado de criminoso, declarou que ninguém questiona o advogado que defendeu o tesoureiro do PT, envolvido na corrupção do mensalão.

Nessas duas afirmações o que temos é o crime invocando em proveito próprio a ordem formal, seguro do direito do criminoso de ser protegido pelas instituições; seguro de que sua delinqüência, dita do Mal, tem direito a tratamento igual à delinqüência de quem se diz do Bem. A carga de ambigüidade, duplo sentido e dupla intenção, que há nas nossas leis, nas nossas instituições, na nossa prática política e nos nossos costumes, é o ingrediente básico que viabiliza a duplicidade da ordem que está por trás dessas falas e dos fatos. A duplicidade foi gerada e mantida ao longo de uma história social e política que reuniu, no todo dos formalmente iguais, os socialmente desiguais para que desiguais continuassem. Apesar dos bons propósitos, o Brasil não conseguiu superar esse legado.

Os efeitos dessa duplicidade não são privativos do criminoso profissional e do crime organizado. Nem privativos dos políticos e privilegiados que se auto-inocentam, como vimos ao longo dos melancólicos últimos 12 meses. Todos nós também sofremos seus efeitos na miríade de pequenos delitos possíveis e não raro indispensáveis em nosso cotidiano quase vazio de institucionalidade e de legalidade efetivamente acessíveis a todos. Esta é uma sociedade de privilégios, os direitos do cidadão são puramente formais e raramente se materializam para a maioria. Não é estranho que as lutas sociais por direitos tenham sido nos últimos anos substituídas por lutas sociais pelos privilégios grupais e corporativos. Na aparente insurgência dos últimos dias, o que de fato assombrou a todos foi que o crime ganhasse a força simbólica da simultaneidade das ações. Foi como se o pacto tácito da duplicidade da ordem tivesse sido rompido e o crime estivesse impondo a todos a sua própria soberania. Levante, talvez, das classes perigosas. Sempre achamos que pobre e crime andam juntos.

Os governos e a sociedade ficaram chocados porque foram crimes cometidos por atacado, embora já conformados com os mesmos crimes praticados no varejo. O que vimos foi uma onda imensa de ações oportunistas de criminosos de várias categorias, e não necessariamente ligados às grandes organizações criminosas, agindo como se estivessem inseridos num sistema articulado de ações e decisões. Pois, feito o suposto acordo entre autoridades e o líder do PCC, as ações violentas continuaram, ainda que em declínio. Há criminosos que operam à sombra da ação de outros. Também nos casos destes dias, crimes normalmente tolhidos pelo medo da lei, da autoridade e da repressão foram praticados na certeza de que a autoria ficaria borrada na identificação dos autores em face do predomínio de um suposto autor grande e poderoso.

É o que se entende do declínio significativo nos números da violência nos últimos anos, em São Paulo, como mostrou Norman Gall, em artigo publicado pelo Instituto Fernando Braudel, que indicam a eficácia da ação policial preventiva e repressiva. Mas os acontecimentos de agora mostraram que essa eficácia incide mais sobre os pequenos atores e menos sobre os grandes atores. Boa parte da força aparente destes últimos vem menos de uma articulada organização poderosa e numerosa, do que do efeito cascata de ações criminosas maiores repercutindo na disposição para o delito e a violência em grupos independentes. O amedrontamento da sociedade a eles interessa porque aumenta a facilidade do crime cotidiano numa sociedade que já assimilou a violência e desenvolveu estratégias, não raro compreensivelmente cúmplices e autodefensivas, para lidar com ela.

A eficácia policial, porém, não tem incidido sobre o elo mais importante dessa criminalidade coincidente. Menos resultado de uma ordem precisa e orientada, de um sistema organizado, a violência se difunde não necessariamente ou não só a partir da sua produção intencional, mas também e provavelmente muito a partir da leitura que os pequenos grupos independentes fazem das vantagens psicológicas que podem auferir de sua reprodução e multiplicação.

Na sociedade cindida, a espontaneidade do encadeamento da ação criminosa beneficia também o crime organizado. O medo decorrente faz com que a lógica da criminalidade se dissemine e passe a organizar até mesmo a vida de quem nada tem a ver com ela. Por esse meio, o crime ganha espaço, impõe suas regras ao conjunto da sociedade. O crime organizado tem liames clandestinos com membros de todas as categorias sociais, do rico ao pobre. Seja através das drogas, seja através das mercadorias que chegam ao consumidor por meios ilegais: contrabandos, falsificações, roubos.

É impossível compreender a sociedade brasileira hoje sem considerar que é uma sociedade dividida, em que o lícito e o ilícito coexistem, o Bem e o Mal se compreendem, a justiça e a injustiça não se estranham. É essa rede de carências e conveniências que faz do crime organizado um co-gestor da ordem social e da ordem política, que manipula nos bastidores, não raro de dentro da própria cadeia como se viu, os cordéis decisivos da nossa existência. A ordem já não subsiste sem o seu avesso. Essa é a imensa e grave questão política que os partidos ignoram, o Estado dissimula, os cidadãos questionam apenas quando são pessoalmente vitimados pela violência e não percebem que, de muitos modos, impotentes, são cotidianamente cúmplices daquilo que os vitima.

*José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo

Abaixo a religião da Ciência



É hora de romper com o mito do Progresso herdado do Iluminismo. Ele impede de pensar que mesmo face à ciência e suas produções, os homens poderiam ser livres e iguais.

A história de Lysenko, na URSS, mostra que as religiões não são os únicos poderes que reivindicam o controle da ciência e de suas produções

As religiões marcaram amplamente a história das ciências, recusando as ousadias da mente que contradiziam os dogmas construídos por elas. No caso da religião católica, não foi apenas por que ela triunfava no momento da irrupçao da ciência moderna? Que outro poder além da Santa Inquisição teria tido os meios para amordaçar Galileu e queimar Giordano Bruno [1]? Felizmente o desenvolvimento científico foi acompanhado do desenvolvimento da democracia nos países industrializados e Charles Darwin foi poupado.

Todavia, se as religiões não têm mais o poder de eliminar os sábios ímpios e as teorias sacrílegas, elas se refugiam com freqüência na interdição imposta aos seus fiéis e até a populações inteiras. Em muitos estados dos Estados Unidos, a Igreja reformada ainda exige que o ensino da teoria da evolução não seja privilegiado em relação ao relato bíblico. O ensino da física é amputado da teoria do big bang em inúmeros países onde a religião muçulmana é oficial. A igreja católica continua a opor-se por toda a parte à contracepção e à procriação assistida. E não se pode ignorar o fato de que o islã e o judaísmo persistem em instituir normas obrigatórias, em particular alimentares, cujos fundamentos não têm justificação racional alguma.

Mas a história de Lysenko e da pseudo-hereditariedade dos caracteres adquiridos, na URSS [2], mostra que as religiões não são os únicos poderes que reivindicam o controle da ciência e de suas produções. Efetivamente, todo poder instituído procura ou negar ou instrumentalizar a ciência, tanto ela influencia a vida espiritual e material dos cidadãos. É assim com o "socialismo científico" e com as "comissões científicas" de que se serve a maior parte dos partidos políticos.

Os poderes políticos europeus optaram por reconhecer na ciência a fonte privilegiada das verdades e riquezas desde que a proclamação dos Estados leigos emancipou o conhecimento e o domínio do mundo da tutela opressiva das ideologias irracionais. Mas daí não decorre automaticamente que a ciência tenha-se tornadao neutra e universal. Disso é testemunha a psico- rigidez que os notáveis da instituição científica mostraram, nestes últimos anos, em relação às raras proposições revolucionárias vindas de pesquisadores. Como por exemplo, para a teoria de Jacques Benveniste, não demonstrada até agora, sobre a "memória da água [3]" ou para aquela, depois coroada por um prêmio Nobel, de Stanley B. Prusiner sobre os príons.

Não é por uma ideologia, mesmo uma ideologia religiosa, que se institucionalizam as verdades do momento como imutáveis? Que padres intocáveis, guardiães do Grande Livro da Ciência, as defendem? Que se rejeita violentamente qualquer idéia nova, quando obriga a corrigir os dogmas que constituem os velhos paradigmas? O economista Serge Latouche mostra que o progresso é uma representação "auto-evidente" e quem, por isso, "sua emergência só pode ser contada sob a forma do triunfo de uma verdade luminosa eterna, presente, mas escondida e bloqueada pelas trevas [4]".
Não é por uma ideologia que se rejeita violentamente qualquer idéia nova, quando obriga a corrigir os dogmas que constituem os velhos paradigmas?
A fé dos otimistas

O fato é que o estado da ciência em cada momento é insuficiente para explicar situações complexas e prever seu desfecho. A incerteza das previsões mais peremptórias é demonstrada pela análise dita "científica" de situações de risco, já que as conclusões dos especialistas são qualificadas de "otimistas" ou "pessimistas" e não "verdadeiras" ou "falsas". A volta do subjetivo vem assim encerrar a proclamada objetividade do método científico.

Os otimistas têm para si um argumento imbatível: o pior não estará demonstrado enquanto não acontecer (e se for mesmo o pior, não será demonstrável a posteriori, por falta de analistas...). Mas esta opção não deve autorizar, por exemplo, a negação do efeito que as atividades humanas têm sobre as alterações climáticas. O mesmo aplica-se à disseminação dos transgênicos na natureza ou à poluição radioativa a partir da indústria nuclear. Não são esses fenômenos, racionalmente inelutáveis, que deveria provocar debate, mas só o tempo para que se tornem insuportáveis. O que a discriminação entre otimismo e pessimismo dissimula é, afinal, a fé. A fé que faz os otimistas acreditarem que o pior não pode acontecer, porque se encontrará uma resposta ainda inimaginável.

Pois o cientista, submetido ao catecismo da tecnociência, escolhe com freqüência a profecia em vez do rigor. A mais alta instância francesa no assunto, a Academia de Ciências, há vinte anos vem-se enganando pelo otimismo em relação a todos os riscos para a saúde: em relação ao amianto, a dioxina, a vaca louca, sem falar das plantas transgênicas. A cada vez, a Academia exaltou a inovação e condenou o obscurantismo proclamando que não se pode parar o progresso da ciência.

Ora, o "progresso da ciência" não é necessariamente o do ser humano, a não ser que se aceite que nosso destino seja regulado pelos interesses da indústria e da Bolsa. Como resultado do escandaloso relatório sobre plantas transgênicas [5], um debate parlamentar sobre eventuais conflitos de interesse na Academia foi solicitado sem sucesso pela associação Attac, mas os sortilégios dos acadêmicos contra o "obscurantismo", na ausência de verdadeiros argumentos científicos, mostram que se trata também de conflitos ideológicos. Foi a mercantilização da ciência que provocou seu dogmatismo missionário ou o inverso? Quando a tecnociência torna-se impunemente a fonte de artifícios potencialmente perigosos, seu poder-fazer revela e consolida a dimensão ideológica da atividade científica: a crença é então erigida em conhecimento exato e profundo. Não é exagero, então, considerar que certos aspectos da ciência vêm de uma atitude religiosa, o que não combina coma a racionalidade que reivindica [6].
O "progresso da ciência" não é necessariamente o do ser humano - a não ser que se aceite que nosso destino seja regulado pelos interesses da indústria e da Bolsa
Ciência e religião, estranhas identidades

Segundo o credo da ciência oficial, que se pode qualificar de mágico ou até de místico, mais cedo ou mais tarde tudo será explicado e esta explicação cobrirá a realidade inteira. Será possível superar as zonas obscuras e as contradições. Deste ponto de vista, pode-se notar o lugar privilegiado que os cientistas que acreditam em Deus ocupam na crença numa ciência todo-poderosa. Esses estão entre o mais devotos aos cientificismo, como para redimir-se por sua intimidade com o irracional. Ou então é sua mentalidade inamovível de crente que os leva a adorar o religioso que adivinham ver na ciência, se a crêem todo-poderosa?

O próprio cientificismo pode vir em auxílio da religião, como quando o futuro papa Bento XVI declarava, em 2000, para "cientifizar" sua concepção de ser humano: "De acordo com meus conhecimentos de biologia, um ser carrega dentro de si, desde o começo, o programa completo do ser humano, que em seguida se desenvolve [7]...". Ao considerar o genoma como programa, em vez de informação, o cardeal Ratzinger avaliza a ciência genética mais obtusa, sem se preocupar com o lugar da liberdade... ou da alma.

Enquanto o circo pega fogo [8], pode-se continuar a piorar as coisas estigmatizando os "obscurantistas", aqueles que em nome de um princípio da precaução timorato desejam controlar os avanços da tecnociência. O domínio político de um pretenso campo técnico justifica-se pelo fato de que, como diz Paul Virilio, a tecnociência é um desvio de grande amplitude do saber. No mundo cada vez mais incerto que construímos, o otimismo não deveria ser considerado um valor positivo, apenas um ressaibo pueril da crença que permite justificar a política do avestruz para mascarar uma atitude suicida.

A cada vez que se faz observar os riscos induzidos pela tecnociência, uma afirmação encerra toda veleidade de inteligência: "Não temos escolha"... Essa afirmação faz supor que a humanidade não seria livre para decidir seu destino. Quando, em nome dos "interesses próprios da ciência", os mais altos dirigentes do setor da pesquisa se mostram hostis ao princípio da precaução, deixam crer que existem atividades humanas cuja importância seria maior que a dos próprios seres humanos. Aos que imaginam que o reator nuclear ITER ou os vegetais transgênicos demonstram que estamos na época do "controle", pode-se opor que tais artifícios, cujas promessas aindas estão por vir, se inscrevem, ao contrário, na velha utopia [9].

E é certamente a mística do progresso e a crença em uma "providência laica" que permite aos interessados continuar nesse caminho com a consciência tranqüila, e aos outros não resistir de verdade: as pessoas submetem-se ao absurdo das decisões, ou da ausência de decisão, porque querem crer que o progresso é forçosamente bom e benéfico, que nunca se terá certeza do pior, que se encontrarão soluções, que "a ciência sempre encontra a maneira de reparar seus erros", etc. Uma tal disposição para a fé só vale ainda para a ciência, trágica negação do anunciado triunfo do rigor graças ao conhecimento científico!
Ao considerar o genoma como programa, em vez de informação, o cardeal Ratzinger avaliza a ciência genética mais obtusa, sem se preocupar com o lugar da liberdade... ou da alma
Concepção mágica de evolução

Ao lado da preocupação criminosa de apoiar a competitividade (das empresas, dos laboratórios, da região, do Estado...), correndo mais depressa que o vizinho para o precipício comum, uma razão menos trivial mas igualmente mísera explica a passividade das populações: a humanidade não pode sair perdendo se fortalece o progresso tecnológico. Essa é uma concepção mágica da evolução, deixando crer que, entre as espécies animais, a nossa seria a única capaz de mudar o mundo (o que é um fato real), mas também de controlar as mudanças que induz (o que ainda não foi demonstrado). O ser humano não seria apenas o bicho mais sabido hoje em dia, seria a criatura completa, concepção religiosa do mundo, de suas criações e de seu suposto arquiteto.

É talvez no campo da genética que esta crença é mais manifesta. Segundo duas sociólogas norte-americanas, "Assim como a noção da alma dentro do cristianismo forneceu o conceito arquetípico que permite compreender a pessoa e a persistência do eu, o DNA tomou, na cultura de massa, a aparência de uma entidade semelhante à alma, ou um objeto de adoração, santo e imortal, ou então uma zona proibida [10]. " Disso resulta que os próprios campos de aplicação dos conhecimentos genéticos são locais de mistificação, tanto para a terapia gênica quanto para os vegetais transgênicos.

O Téléthon [11] pode arrecdar em um dia cem milhões de euros (equivalente ao orçamento anual de funcionamento da pesquisa médica na França), fazendo acreditar que a cura das miopatias é apenas uma questão de meios financeiros. Quanto às culturas de vegetais transgênicos, que apresentam riscos ainda mal analisados para o ambiente, para a saúde pública ou para a economia, e não trouxeram até agora vantagem alguma para os consumidores, são impostas às sociedades humanas sob o pretexto de que suas vantagens virão, inelutavelmente.

Essa aposta de que "vai dar certo" supõe uma atitude cuja conclusão, forçosamente otimista, precede a demonstração - isto é, uma atitude não científica. Em 2000, o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin declarava, a respeito das células-tronco embrionárias: "Graças às células da esperança (...) as crianças imóveis poderão enfim movimentar-se, os homens e mulheres partidos poderão afinal reerguer-se [12]..." E por que não multiplicar os pães? A crença em tais milagres justifica até que se crie o impasse sobre a demonstração prévia da exeqüibilidade e da inocuidade graças à experiência animal. Seria possível mostrar que os avanços da indústria nuclear ou das nanotecnologias, por exemplo, escapam também tanto ao rigor científico quanto à democratização das escolhas da sociedade.

Como justificar que em bioética não existam "princípios" (ou ao menos referências nos sonhos ou nos valores), contrariamente ao que acontece para os direitos humanos, por exemplo? Por que uma proibição definitiva da escravidão e somente medidas temporárias (ou nada) contra a artificialização do ser humano, ou contra a eugenia consensual? Se for admitido que qualquer regra bioética será revista pelo conhecimento técnico, a ética passa a ser uma moral do destino. Porque reza pelo credo de progressos milagrosos e ilimitados, a ética utilitarista acaba sempre por vencer as reticências.

Michel Onfray, filósofo auto-instituído porta-voz do ateísmo, acha que deve apoiar "tudo o que, de perto ou de longe, contribui para construir técnicas indispensáveis à medicina pós-moderna: ectogênese, clonagem, seleção do sexo, transgenia [13]". Opõe-se, assim, ao que chama de "opção tecnófoba", argumentado que "a ciência como tal é neutra". Para chegar a essa certeza, ele precisou, no entanto, afirmar inverdades ("a energia nuclear jamais causou mortes...", a não ser Hiroxima e outros excessos que só se pode atribuir ao "delírio militar") e fazer passar gato por lebre como na sucessão das duas proposições seguintes, em que a hipótese se torna certeza: "A revolução transgênica permite pensar em novas formas de curar: elas evitarão, graças às medicinas preventivas, a irrupção das doenças..."
Assim como a noção da alma no cristianismo, o DNA tomou, na cultura de massa, a aparência de um objeto de adoração, santo e imortal - ou então, uma zona proibida

O fascínio tecnófilo pode fornecer substitutos fáceis aos mitos que se pensa combater. Então, cada vez mais, uma bioética de inspiração cientificista elimina a etapa de elaboração de princípios, porque eles trariam o risco de imobilizar uma situação contrária à dinâmica competitiva. A bioética dissolve-se no tempo como já se dissolveu no espaço ("daí o turismo médico") e na casuística (cede-se progressivamente, a partir de uma concessão justificada até à generalização de uma prática). A crença de que um mundo forçosamente melhor vai chegar graças à ciência impede interrogar para definir esse humanismo laico que falta à bioética. Dizer que "a ciência anda mais rápido do que a ética" quer dizer na verdade que a tecnociência passa à frente e domina as escolhas da sociedade.
Ciência, construção puramente racional?

A ciência não é esta construção apenas racional que idealizamos, imagem que a abriga das incursões da crítica. Instrumento forjado pelo homem, a tecnociência testemunha seu conhecimento e suas carências, e só opera pela libertação da espécie se soubermos conter sua falta de limites. Durante a Conferência Nacional da Pesquisa em janeiro de 1982, o então ministro da Pesquisa, Jean-Pierre Chevènement, sugeriu "fazer recuar certos preconceitos contra a ciência e a tecnologia, manter à distância os movimentos anti-ciência"... E englobava sob este último termo tanto as cartomantes quanto os ecologistas. Ora, vinte anos depois, as preocupações dos ecologistas mostram-se válidas e são objeto de relatórios alarmantes por parte da ciência oficial. No entanto, o cientificismo resiste: durante a Cúpula do Rio (1992) sobre o desenvolvimento sustentável, cientistas eminentes, entre os quais vários prêmios Nobel, lançaram o "Chamado de Heidelberg", contra "a emergência de uma ideologia irracional que se opõe ao progresso científico e industrial e prejudica o desenvolvimento econômico e social"...

O interesse dos industriais e de muitos pesquisadores é criar e divulgar inovações capazes de ocupar nichos de mercado. Esta motivação competitiva explica amplamente a mutação da ciência em tecnociência. Mas poderíamos ter esperado uma resistência dos cidadãos quando a ciência, força de emancipação, desvia-se para a produção de artefatos, muitos dos quais criam mais problemas do que os que resolvem.

Como demonstrou o historiador e sociólogo Jacques Ellul, "as leis da ciência e da técnica são colocadas acima das do Estado, e o povo e seus representantes ficam muito desprovidos de seu poder [14]". O cientificismo não é privilégio dos cientistas, é uma ideologia amplamente compartilhada pela sociedade, principalmente desde que à necessidade de crença faltam propostas críveis no campo da religião ou da política. A promessa mística do paraíso e a militante dos amanhãs que cantam perderam o fôlego enquanto o Progresso avançava com a nova sotaina da racionalidade.
Dizer que "a ciência anda mais rápido do que a ética" quer dizer na verdade que a tecnociência passa à frente e domina as escolhas da sociedade
Laicizar a relação com o saber

Sem outros santos a quem recorrer, os cidadãos modernos ficaram à espera das produções da tecnociência, sem mesmo imaginar que poderiam exigir a escolha do que os pesquisadores vão criar em seu nome. Aí está o primeiro passo a dar: já que existe tecnociência, é preciso ousar pensar que se pode incluí-la na democracia, como toda atividade humana (transparência, debate público, contraprova, racionalidade das escolhas, etc...) [15]. Como diz o físico Jean-Marc Levy-Leblond, "se no passado a Igreja condenou Galileu, agora, só tem a temer de seus sucessores um pouco de concorrência... Convenhamos que uma nova laicização de nossa relação com o saber deveria permitir um certo distanciamento em relação a todos os dogmatismos de hoje". [16]

A laicidade é o "princípio da separação da sociedade civil da sociedade religiosa, sem que o Estado exerça poder religioso nem as Igrejas poder político" (é saboroso constatar que o dicionário Robert ilustra esta definição com uma citação de Ernest Renan, aspirante a padre que se tornou cientista extremista...). Se concordamos em identificar na ciência "um sistema de crenças e práticas que implicam relações com um princípio superior, e próprio de um grupo social" (definição, no Robert, da palavra "religião") compreendemos melhor a proposta de Levy-Leblond para uma "laicização de nossa relação com o saber".

Recentemente, Bertrand Hervieu, ex-presidente do Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (INRA), declarou que "o processo de dessacralização, o fim dos absolutos transcendentais e o caminho da reconstrução da ciência em uma sociedade democrática e laica não estão terminados [17]". Nesta direção, pode-se exigir dos pesquisadores uma atitude mais humilde e preocupada com o bem público. É o que havíamos proposto com o Manifesto "Controlar a Ciência" (Le Monde, 19 de março de 1988), e é também o sentido do "Juramento dos sábios" proposto por Michel Serres em 1997. Mas do mesmo modo que o laicismo não se impôs somente com o enquadramento dos eclesiásticos, não é somente da atitude dos pesquisadores que a dessacralização da ciência depende.

Aí, como em outros lugares, a palavra-chave é democracia. Jacques Ellul lembrava o totalitarismo da técnica que nos faz entrar em uma lógica "tecnófaga" da qual não podemos mais sair, e temia que uma ditadura mundial acabasse por constituir "o único meio para permitir à técnica seu pleno desabrochar e para resolver as prodigiosas dificuldades que ela acumula. Recentemente foram abertas pistas para que as escolhas científicas não escapem mais aos cidadãos e para que os desenvolvimentos tecnológicos sejam conformes às necessidades expressas pela sociedade [18] .

Resta ajudar a sociedade a romper com o mito do Progresso herdado do Iluminismo. Ele impede de pensar que mesmo face à ciência e suas produções, os homens poderiam ser livres e iguais.

(Trad. : Elisabete de Almeida)


[1] Padre, Giordano Bruno choca-se com a hierarquia por causa do dogma da Trindade. Abandona a batina dominicana quando é formado um processo contra ele, para declará-lo herege, em 1576.

[2] Biólogo soviético, Trofim Lysenko (1898-1976) multiplica os ataques contra a genética clássica e opõe "ciência burguesa" (que seria ligada às práticas do capitalismo) e "ciência proletária" (que se apoiaria no materialismo dialético).

[3] Michel Schiff, Un cas de censure dans la science, Albin Michel, Paris, 1994.

[4] Serge Latouche, La méga machine, La Découverte, Paris, 2004.

[5] Lire Bernard Cassen, "OGM, des académiciens juges et parties", Le Monde diplomatique, fevereiro de 2003.

[6] Lire André Bellon, "Des savants parfois schizophrènes", Le Monde diplomatique, junho de 2002.

[7] "Le cardinal et l’athée", Le Monde, 2 de maio de 2005.

[8] "La maison brûle et nous regardons ailleurs...", discurso de Jacques Chirac na Cúpula do Desenvolvimento Sustentável, Joanesburgo, 2002.

[9] "Les utopies technologiques: alibi politique, infantilisation du citoyen ou lendemains qui chantent", Global Chance 20, Suresnes, fevereiro de 2005.

[10] D. Nelkin et S. Lindee, La mystique de l’ADN, Belin, Paris, 1998.

[11] Programa da televisão francesa que recolhe donativos do público para financiar a pesquisa médica. O nome é formado pela contração das palavras télévision e marathon. Acontece no mês de dezembro e é comandado por artistas e personalidades famosas. Começou em 1987, arrecadando 29 milhões de euros e no ano passado recolheu mais de 100 milhões (N.T.).

[12] Jornadas anuais organizadas em Paris pelo Comité consultatif national d’éthique pour les sciences de la vie et de la santé, 29 de novembre de 2000.

[13] Michel Onfray, Fééries anatomiques, Grasset, Paris 2003.

[14] Jacques Ellul, Le système technicien, Calmann-Levy, Paris, 1977.

[15] Nota n° 2 da Fundação Ciências Cidadãs (FSC), Paris, outubro de 2004 - http://sciencescitoyennes.org.

[16] La Pierre de touche, Gallimard, "Folio-essais", Paris, 1996.

[17] Agrobiosciences, Castanet Tolosan (31), setembro de 2004.

[18] Note de la Fondation sciences citoyennes (FSC), octobre 2004: http://sciencescitoyennes.org

Encruzilhada chinesa



Um país cada vez mais próspero e poderoso; uma sociedade ameaçada pela desigualdade e pela cópia dos padrões ocidentais. As contradições da China multiplicam o número de pequenos protestos e levam a elite intelectual a se perguntar sobre o futuro

Uma fábrica ultra moderna. No entanto basta avançar algumas centenas de metros para ver trabalhadores manipulando sem proteção componentes muito tóxicos

Beijing. Entre a terceira e a quarta avenida marginal, a noroeste. Unidade 798. Um belo conjunto de prédios de tijolos à vista em estilo Bauhaus, onde disputam espaço galerias de arte vanguardistas, restaurantes da moda e lojas chiques. Antes de estar na moda, esta antiga "danwei" (grande estatal), espalhada por quase um quilômetro e projetada por especialistas da Alemanha Oriental do leste em 1957, em nome da "solidariedade socialista", acolhia quase 20 mil trabalhadores, que produziam armamentos para a China. Isso foi no tempo em que as grandes empresas tinham seus próprios alojamentos, escolas, postos de saúde, teatros... No tempo em que o complexo de Dashanzi, do qual faz parte a unidade 798, pretendia ser um modelo. Faz menos de quinze anos. Depois, a "reforma econômica" passou por ali varrendo a produção, os salários, as famílias.

As fábricas abandonadas enferrujavam tranqüilamente quando um punhado de artistas marginais decidiram refugiar-se ali. Não sem dificuldade (entraves administrativos, batidas policiais, cortes de eletricidade...) eles se instalaram e desempenharam um papel real na criação contemporânea. Os dirigentes comunistas acabaram deixando-os em paz e a partir de então apóiam esta comunidade de artistas ameaçada pelo... mercado: o grupo Qi Xing, que havia comprado Dashanzi, pretende construir um "parque tecnológico" mais rentável. Os censores do passado transformados em defensores da liberdade de criação: singular paradoxo para as autoridades que tentam regularmente impedir a livre circulação de idéias na internet e mandam para a cadeia qualquer sindicalista um pouco mais reivindicador. A verdade é que, para a sua imagem, mais vale um grupo de artistas ligeiramente agitados do que trabalhadores francamente contestatórios [1].
Orgulho e inferno

Há trezentos quilômetros dali, perto de Chengde e seu Palácio de Verão, a fábrica de aço de Cheng Gang (Chengde Iron and Steel group co.) não sucumbiu à tormenta. Os empregados que serviram de guia em nossa visita - para a qual fomos obrigados a pedir a autorização do secretário do Partido Comunista (PCC) - são muito orgulhosos dela: foi com o aço fabricado aqui que se construiu a "Pérola oriental", antena de televisão símbolo de Shanghai moderna, ou ainda a gigantesca barragem do Yangzi. Utilizando tecnologia italiana, a unidade visitada foi inteiramente automatizada. Fora alguns vigias nas plataformas, os empregados estão todos em cabines, atrás de seus computadores. Uma fábrica ultra moderna. No entanto basta avançar algumas centenas de metros para voltar ao século XIX, com equipamentos enferrujados e nada seguros no meio de uma poeira acinzentada. É impossível visitar esse inferno. - "Não seria bom para a sua saúde", assegura o empregado que nos guia - mas vimos trabalhadores manipulando sem proteção componentes muito tóxicos (manganês ou enxofre, provavelmente quentes...).
Em menos de cinco anos, um bairro foi erradicado do mapa. Nasceu um outro, povoado por ricos comerciantes e acadêmicos beneficiados pela política dita "de abertura"

Em suas duas versões, a siderurgia resume a história industrial do país. Até 1986, os 20,5 mil empregados viviam mais ou menos bem na pequena cidade de Cheg Gang, graças a esta usina que se encarregava de tudo (alojamentos, saúde, esporte, escola, aposentadoria...). As coisas começaram a se deteriorar com as reformas e o aumento da demanda nacional de aço. O Estado agora exigia resultados. Antes mesmo de modernizar, a direção dispensou os empregados mais velhos - pouco produtivos - e os substituiu por jovens, mais rápidos, às vezes mais qualificados. Depois importaram tecnologias ocidentais às quais adaptaram os homens. Os efetivos caíram para 17 mil, e a idade média para 35 anos.

No começo, os trabalhadores licenciados eram "aposentados do cargo" (xiagang zhigong) e não desempregados. Financeiramente a vantagem não é muito grande: um de nossos guias afirma ganhar 800 yuans por mês (80 euros [2]), enquanto recebia 2 mil, quando estando empregado. Mas o laço contratual com a empresa foi mantido, o que significa proteção social e reconhecimento. Afastada do trabalho aos 46 anos e depois aposentada, aos 50 anos, a Sra. Jing Zheiying [3] conserva o sentimento de fazer parte da danwei "ajudando" os pequenos empreendimentos que nascem na cidade. Com esse sistema D, um casal pode comprar seu apartamento e nele instalar um banheiro novinho em folha. No setor imobiliário, foram muitos os que realizaram um sonho inimaginável até aqui: o de se tornarem proprietários.

É claro que nem todos os xiagang zhigong vivem assim tão confortavelmente. Mas se a solidariedade familiar ajudar, o sistema funciona, tanto em Cheg Gang como no resto do país. Atualmente a cidade está em vias de extinção, porque nem os acionistas privados da indústria do aço, ainda minoritários, nem os proprietários públicos querem assumir os encargos sociais que oneram a rentabilidade. Além disso, a indústria do aço não escapará ao "plano de racionamento da siderurgia" anunciado por Beijing em 20 de julho de 2005. A miséria talvez esvazie a cidade - como aconteceu em algumas regiões industriais, no final dos anos 90.
A destruição da velha indústria

Tie Xi Qu. Um bairro de Shenyang, capital da província de Liaoning, na ex-Manchúria, há mais de uma hora de Beijing. O pulmão industrial da cidade com seus autofornos, fábricas de cimento, indústrias que cospem enxofre e outros resíduos, o suor e a sujeira incrustada nos corpos; as surpreendentes duchas num universo enegrecido, a alegria dos trabalhadores nas partidas de mah-jong, sua resignação... Desse universo, filmado à aurora do século XXI por Wang Bing num magnífico documentário [4], não resta mais nada: nem usinas, nem barracos, nem trabalhadores. Esse bairro, que até pouco tempo atrás era industrial, está agora dividido. De um lado grandes avenidas ladeadas por fábricas reformadas, que escaparam à limpeza da área ou que foram reimplantadas. De outro um alinhamento de parques de exposição de carros, de propriedade estrangeira. Em menos de cinco anos, um bairro foi erradicado do mapa. Nasceu um outro, povoado por ricos comerciantes e acadêmicos beneficiados pela política dita "de abertura". "Não gostaríamos de criar um mundo - explica Wang Bing - mas esse mundo acabou explodindo".
As primeiras vítimas são os empregados mais velhos, que "construíram toda a vida sobre o mesmo trabalho, muitas vezes sem grande qualificação"

Um ex-técnico que tinha o rosto marcado pela vida passada numa fábrica de cabos que fechou há quatro anos, conta a história à sua maneira: "Nós não ganhávamos muito, era duro, mas éramos levados em consideração". Sem cólera, apenas uma constatação. A industrialização da região, que remonta à dinastia Quing, no século XIX, e que viu a aparição da primeira estrada de ferro chinesa, não se reduzia unicamente à exploração. Ela era também símbolo de trabalho e orgulho para os trabalhadores. "O que fabricávamos era útil, esclarece o técnico, mas eles decidiram mandar vir os cabos de outro lugar". "Eles" são ao mesmo tempo os novos proprietários da empresa que comprou e desmontou a fábrica, e que ele ignora absolutamente; o governo que "nos deixou cair"; as autoridades locais que "não fazem muita coisa..." Este desempregado reflete perfeitamente o que sentem os excluídos do milagre chinês, inúmeros nesta região em plena reestruturação, uma "Lorraine à décima potência" segundo a expressão do sociólogo Antoine Kernen [5].

As primeiras vítimas são os empregados mais velhos, porque "eles construíram toda a vida sobre o mesmo trabalho, muitas vezes sem grande qualificação", ressalta Wang Zheng, pesquisador na academia de ciências sociais de Chenyang. "Eles não conseguem se adaptar. Alguns recusam o emprego que lhes é oferecido, porque acham que é desqualificado". É preciso dizer que os empregos públicos propostos são remunerados em 300 yuans por mês, enquanto que muitos deles ganhavam pelo menos 1000 yuans em suas empresas de origem. Os empregos oferecidos? Varredor de rua, auxiliar de jardinagem ou auxiliar de trânsito...

O ex-técnico da fábrica de cabos de Tie Xi Qu recusou esse tipo de trabalho? Impossível descobrir. Mas em todo caso, naquela manhã, como em todas as outras, ele está na esquina de uma rua com uma dezena de outros homens e mulheres, sentados sobre os calcanhares, telefone celular na cintura (a maioria), com um cartaz pendurado no pescoço, onde cada um descreve as suas competências: marcenaria, pintura, eletricidade, limpeza... Um "classificados de emprego" a céu aberto onde particulares e chefes de empresas vêm contratar, por alguns yuans, um trabalhador por um dia, uma semana, para sempre ou por um mês. Esse trabalho no mercado negro nem sempre permite que tenham um teto para dormir, o que é o cúmulo numa cidade completamente tomada por obras públicas.
Nem Mao escapou

Depois do XVI congresso do Partido Comunista, em outubro de 2003, a província e a capital foram classificadas como "zona de desenvolvimento prioritário". O dinheiro público circula em abundância, mas nenhuma assembléia democrática controla a sua utilização. Shenyang foi transformada em cidade-canteiro-de-obras, onde os prédios crescem como cogumelos, na maior anarquia, com fachadas douradas, pagodinhos e outras "dragonagens", segundo a expressão de um arquiteto chinês ultrajado por tanto mau gosto e... corrupção - este mal endêmico que permite construir o que bem se entende. Até mesmo Mao Zedong, no meio na praça Zhongshan, foi mobilizado pela longa marcha da comercialização, com o braço apontando não mais um futuro radiante, mas os outdoors das grandes marcas estrangeiras que o cercam.
O governo satisfez parte das reivindicações. O diretor corrupto foi condenado e o dirigente local do partido, substituído. Mas os líderes trabalhadores ainda estão presos e isolados

Zonas especiais de desenvolvimento econômico e tecnológico foram construídas. Para atrair o capital estrangeiro, a cidade tentou mobilizar sua diáspora [6], descobrindo ligações históricas com Hong Kkong, amizades especiais com Taiwan e, mais surpreendente ainda, com o Japão, tão detestado nessa região que esteve por tanto tempo ocupada. Os resultados ainda são frágeis, mas grandes empresas nipônicas, sul-coreanas, norte-americanas ou francesas foram implantadas (Canon, Toyota, Coca-Cola, LG Eletronics, Alcatel, Michelin, etc.).

Fábricas de montagem ladeiam as unidades de alta tecnologia, nas áreas de medicamentos ou de metais da nova geração -, como a Shenyang Kejin New Materials Development Co, do Instituto de Pesquisa de Metais. O universo está mais para Robocop que para Zola. Não podemos esquecer que se a China produz e exporta têxteis e brinquedos baratos, ela abastece também 55% do mercado mundial dos computadores portáteis, 30% dos televisores de tela plana, 20% do mercado dos microprocessadores... Ela faz a montagem de muitas das peças feitas em outros lugares, copia bastante, inventa pouco mas cada vez mais. Seus sucessos na indústria espacial ou nas nanotecnologias são apenas vitrines. Mesmo que se os orçamentos para pesquisa e desenvolvimento continuam modestos (1,4 do produto interno bruto em 2003), eles dobraram, desde depois de 1997.
Protesto e prisão

E assim, empregos foram criados, graças a uma mão de obra em geral muito qualificada e raramente reivindicativa. Tanto que o sindicato (All China Federation of Trade Unions, ACFTU) parece pouco inclinado ao protesto. Quanto aos jovens sem qualificação, recrutados em campanhas, amontoados em inacreditáveis dormitórios, dificilmente conseguem se revoltar. Essa região ficou marcada pelas grandes mobilizações de março de 2002, principalmente em Liaoyang, cidade de antigas indústrias química e mecânica. Depois de muitos dias de manifestação em massa, os líderes do movimento foram presos sem passarem por nenhum processo [7]. Depois disso, o governo satisfez uma parte das reivindicações, como o pagamento de seguro desemprego e aposentadorias. O diretor corrupto da empresa foi condenado e o dirigente local do partido, substituído. Mas os líderes trabalhadores ainda estão presos e isolados [8]. Desde então, em Liaoyang, quase ninguém fala no assunto.

De mais a mais, se os salários são escandalosamente baixos, representam com freqüência uma grande ajuda para a família que ficou na cidade: entre 800 e 1,2 mil yuans por mês para um operário que trabalhe dez horas por dia nas empresas da região. Para um técnico, o salário médio atinge 2,5 mil yuans... Segundo estatísticas oficiais, estes salários estariam sendo multiplicados por seis, em média, desde de 1990 [9].

Em Shenyang e mais ainda na costa da China, uma classe média constituiu-se progressivamente, pouco preocupada com a mão de obra pequena das "usinas de apertar botão". Eles se beneficiam de melhores salários, apreciam os primeiros feriados (11 em média, na China urbana) e preferem o consumo ao protesto. O governo bem sabe disso e teme por qualquer dificuldade no crescimento extremamente dependente do exterior -, já que o mercado interno, - potencialmente imenso, - não absorve sua próprias produções, por falta de poder de compra. Um outro paradoxo chinês: o modelo está assentado sobre salários baixos, mas esta exploração da mão de obra fragiliza o sistema.
O índice Gini da distribuição de riqueza na China está em 44,7. Menos que no Brasil (59,0), Chile (57,1) ou Nigéria (50,6), mas em crescimento acelerado: em 1981 era 28

De 1,3 bilhões de habitantes, cerca de 900 milhões não têm acesso ao templo do consumo, o objetivo supremo. Um responsável pela missão econômica francesa resume com esta imagem: "nós estamos em um sistema onde, num imóvel de 10 andares, apenas três estão ocupados". Resta saber se os outros andares serão ocupados, se alguns correm o risco de serem expulsos e se uma repentina erupção vulcânica não ameaçará as fundações do edifício.

A China, que conheceu muitos desastres (as invasões ocidentais, a ocupação japonesa, a loucura ditatorial do maoísmo...), pulou a fase da revolução industrial dos séculos XIX e XX [10]. Agora, ela deve vencer o desafio da revolução industrial do século XXI e o da revolução social. Tudo em tempo recorde.
Quando planificação era penúria

Classicamente, se assim podemos dizer - e na falta de um modelo alternativo - a China tomou para si as leis do mercado. Em 1987, depois do XIII congresso do PCC, Deng Xiaoping teorizou esta conversão da seguinte maneira: "A planificação e o mercado não constituem as diferenças essenciais entre o socialismo e o capitalismo. Uma economia planificada não define o socialismo porque também há planificação no capitalismo; a economia de mercado existe no socialismo. Planificação e mercado são, portanto, duas maneiras de controlar a atividade econômica [11]". A planificação (que conferia uma certa igualdade, mas na penúria) está desaparecendo. O mercado triunfou, permitindo uma acumulação de capital que fez com que o país decolasse. No entanto a China ainda não faz parte do grupo dos países desenvolvidos e seu produto interno bruto (PIB) equivale a menos da metade do PIB japonês, por exemplo.

Essa mercantilização do trabalho, sem precedentes, transformou completamente as relações sociais [12], Karthala, 1o trimestre de 2006.]]. Entre 1998 e 2003, entre 40 a 60 milhões de pessoas viram-se desempregadas, enquanto que até então o emprego estava garantido por toda a vida. Da noite para o dia foi preciso implantar um sistema que os países ocidentais levaram mais de um século para construir, muitas vezes às custas de lutas sociais e políticas violentas. Foi preciso transferir a unidade de trabalho para o Estado em um país onde, por tradição milenar, a burocracia local sempre se distanciou das diretivas do centro.

No Ministério do Trabalho e da Segurança Social, seu escritório em Beijing, Pi Dehai, o diretor geral, confirma a dificuldade da tarefa: "Nós precisamos inventar de tudo para atualizar o sistema público de proteção social". Segundo ele, atualmente a maioria dos empregados urbanos estão cobertos por um seguro saúde; um seguro-desemprego indenizações mínimas estão garantidas para as pessoas que já trabalharam; o Estado se encarrega progressivamente dos aposentados (por um terço deles) e por um sistema privado de fundos de pensão; e um salário mínimo (dibao) foi instituído (entre 100 e 800 yuans, dependendo da região).
Foram 74 mil protestos em 2004 (reunindo 3,76 milhões de pessoas) contra 10 mil em 1984. Será o começo de uma ebulição social e política? Ninguém pode prever
Luz laranja piscando

Mas o sistema ainda está em fase embrionária -, às vezes sem ser aplicado -, enquanto as reestruturações avançam se acumulam terrivelmente. Conclusão: a desigualdade explode. Até o erudito Study Times, jornal da escola do partido comunista, comoveu-se: "a luz alaranjada acendeu-se e o alerta vermelho pode ser ultrapassado nos próximos cinco anos [13]". Segundo o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, 20% dos chineses mais ricos detém 55% das riquezas do país, enquanto que os 20% mais pobres dividem entre si 4,7%. O índice Gini, estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para medir a desigualdade (com uma graduação que vai de zero e caso de igualdade perfeita a 100) situa a China no nível 44,7 em 2004. Menos do que o Brasil (59,0), o Chile (57,1) ou a Nigéria (50,6), mas em crescimento acelerado, em constante alta: em 1981 estava em 28.

No alto da pirâmide social, encontram-se chineses da diáspora que retornaram ao país, mas também antigos catedráticos do partido convertidos pelo business -, os mesmos que, segundo a expressão do sociólogo Lu Xueye [14], formavam já naquela época a "suprema camada social" de uma China que então se pretendia sem classes.

Uma nova estratificação do país operou-se em torno de quatro linhas de ruptura. A primeira opõe a população urbana à população rural; a segunda separa as regiões costeiras, desenvolvidas, da China do interior, há muito tempo abandonada. Na base da escala, os camponeses do oeste. É lá que vive a maioria dos 150 milhões de pessoas em extrema pobreza, recenseados por estatísticas oficiais bastante subestimadoras. Em 2003 o governo reduziu para 30% os encargos devidos pelos camponeses e em outubro de 2005 anunciou o aumento do salário mínimo, a supressão do imposto sobre a produção agrícola e ainda um programa de incentivo para a educação e a saúde [15]. Mas estas medidas foram insuficientes ou simplesmente ignoradas pelos poderes locais.

As outras linhas divisórias cortam as próprias cidades, primeiro, entre os empregados cuja qualificação é reconhecida e os outros; em seguida, entre aqueles que têm trabalho e aqueles que não o têm, incluindo os jovens qualificados que, pela primeira vez, foram atingidos pelo desemprego. Os mais indefesos são os mingong, trabalhadores camponeses exilados em seu próprio país, sem nenhum direito. Para poderem beneficiar-se dos sistemas públicos (escola, saúde, desemprego...), é preciso um certificado de residência, o famoso hukou, concebido nos anos 50 para evitar o êxodo rural. Nem sempre eles o têm. A hipocrisia é total, uma vez que os mingong "estão no coração da competitividade e da máquina produtiva chinesas", como o indica Geneviève Domenach-Chich, que dirige em Beijing o programa da Unesco dirigido aos migrantes [16]. Eles representam 79,8% dos empregados da produção eletrônica e, 58% do setor de alimentação...
A China está entrando numa fase muito delicada. Não por acaso, depois da última plenária do Comitê Central, Hu Jintao anunciou um plano quinquenal de luta contra as desigualdades
Mercado interno, necessidade adiada

O cuidado de evitar um amontoado de cortiços nas cidades satélites não tem nada de ilegítimo, mas além da brutalidade desse tipo de exploração, o sistema explode em todo lugar, como reconhece, em seu escritório na prestigiosa universidade de Fudan, em Shanghai, Lu Ming, jovem pesquisador do Centro de Estudos Econômicos. As medidas foram bem concebidas pelo governo central, em 2004, "para acabar com as discriminações. Mas localmente as autoridades as impedem com todas as forças. " Um erro tanto político quanto econômico: "Quer se aborde a questão pelo lado político - ’construir uma sociedade harmoniosa’ (palavra de ordem do poder) - quer pelo lado econômico, é preciso desenvolver o mercado interno e proteger os trabalhadores para assegurar a estabilidade e o desenvolvimento."

As injustiças são tantas que os trabalhadores opõem-se cada vez mais. Até o ministro da segurança pública, Zhou Yongkang, o reconheceu, ao tornar público o número das manifestações que habitualmente é guardado em segredo: 74 mil protestos em 2004 (reunindo 3,76 milhões de pessoas) contra 10 mil em 1984. Será este o começo de uma ebulição social e política? Ninguém pode prever. Diferentemente dos anos 80, que levaram às revoltas da praça Tiananmen e apesar da explosão da desigualdade, uma grande parte da população viu sua sorte melhorar. Paul Wolfowitz, novo presidente do Banco Mundial, que pouco provavelmente nutre simpatia pelo regime, lembra que recentemente 280 milhões de habitantes ultrapassaram o nível de pobreza, entre 1978 e 2003 [17].

No campo, os pais vivem com a idéia de que seus filhos, se puderem ir à escola, viverão melhor do que eles próprios. Na cidade, ressalta Lu Ming, "e pela primeira vez, os jovens diplomados com pouca experiência ganham mais que a geração de seus pais". Essa esperança permite que os chineses suportem o insuportável. Mas todo mundo sente que a China está entrando numa nova fase bastante delicada. E não é por acaso se, depois da última plenária do Comitê Central do PCC (de 8 a 11 de outubro de 2005), Hu Jintao anunciou um plano quinquenal de luta contra as desigualdades.

A China vai mergulhar no capitalismo selvagem? Ou conseguirá preservar sua originalidade? No seio da esquerda intelectual do país a questão é polêmica, mas não tem grande ressonância nas massas. Por muito tempo confiante na vivacidade da cultura de seu país, o escritor Xu Xing [18] é conhecido por seu discurso livre e sempre viveu num minúsculo apartamento de um bairro pobre no sudeste de Beijing. Hoje ele está bem mais preocupado que antes. Não poupa sua ira contra esse "capitalismo sem limites" que "sacrifica tanta gente" e engendra "violenta destruição das culturas regionais ou locais". Ele não é nada gentil para com os intelectuais que "se tornaram os cães de guarda do grande mercado globalizado" e aceitam o jugo do capitalismo. Outros intelectuais, desamparados diante do avanço da ocidentalização, retornam às ideologias do passado, principalmente a Confúcio, cujos escritos voltam à tona.
A China vai mergulhar no capitalismo selvagem? Ou conseguirá preservar sua originalidade? No seio da esquerda intelectual, a questão é polêmica
Difícil alquimia à vista

Ao mesmo tempo uma nova escola de sociologia procura aliar desenvolvimento econômico e progresso social. Para Dai Jian-Zhong, diretor adjunto do Instituto de Sociologia da Academia das Ciências Sociais de Beijing, que participou de todas as lutas contra o estrangulamento do pensamento, o problema não é a abertura ao mercado ocidental, mas a maneira como ela é feita e também a aceitação da lei do mais forte. "Os trabalhadores que se encontram face a face com o patrão não podem negociar. Também não lhes é permitido organizarem-se, e o sindicato está sempre ao lado da chefia. Tanto para a proteção social quanto para as condições de trabalho, jornada de 8 horas ou limitação de horas extras, existem leis, mas não são aplicadas". Para muitos, os obstáculos são antes de tudo políticos e institucionais e o poder público proíbe qualquer debate sobre estas questões.

Os entraves são também sociológicos: se as elites do PCC, das quais uma parte da nova geração foi formada no exterior, parecem pouco fascinadas pelo ocidente e afirmam um patriotismo às vezes restrito ao nacionalismo, suas referências são as mesmas das universidades ocidentais, não muito reconhecidas pela sua criatividade no domínio social.

Ora, como lembra Dai Jian-Zhong, ao longo dos séculos, a China sempre conseguiu transformar as contribuições exteriores para construir uma cultura original. Estará pronta para operar esta alquimia? Assim como outros, Dai Jian-Zhong sonha em conciliar justiça social, satisfação pessoal - noção que acaba de aparecer - e bem estar da sociedade, explorando assim uma via chinesa de desenvolvimento. Sempre utópico.

(Trad. : Patrícia Andrade)


[1] Em 25 de novembro de 2005, no entanto, as autoridades mandaram destruir o estúdio de um fotógrafo em outra comunidade de artistas, Suojiacun, a leste de Beijing.

[2] 1 yuan = 0,10 euro.

[3] Seu nome foi mudado

[4] Wang Bing, Tiexi Qu (A oeste dos trilhos), 2002, em DVD (9 horas), produzido por MK2. Ler Lu Xinju, "Ruins of the future", New Left Revue, Londres, n° 31 janeiro-fevereiro de 2005.

[5] Ler Antoine Kernen, La Chine vers l’économie de marché. Les privatisations à Shenyang, Karthala, Paris, 2004.

[6] Os 30 milhões de Chineses de além-mar, essencialmente na Ásia do Sul desempenharam um papel crucial no crescimento dos investimentos estrangeiros.

[7] Em 2005 Xiao Yunliang e Pang Qingxian ainda estão presos.

[8] Ler Cai Chongguo, Chine: l’envers de la puissance, Em clair Mango, Paris, 2005.

[9] National Bureau of statistic of China (NBS), www.stats.gov.cn/english/

[10] Philip Golub, "Retour de l’Asie sur la scène mondiale", Le Monde diplomatique, outubro de 2004.

[11] Citado por John Gittings, The Changing face of China, Oxford University Press, 2005.

[12] Jean-Louis Rooca, [[La Condition chinoise

[13] Citada por China Daily, em 10 outubro de 2005. Ler "Income gap in China reaches alert level", Xinhua, Beijing, 20 de setembro de 2005.

[14] Lu Xueyi, (organizador) La mobilité sociale dans la Chine contemporaine (Dangdai Zhongguo shehui liudong), Ed. Shehui Kexue Wenxian Chubanshe, Beijing, 2004.

[15] Sobre as desigualdades na educação, ler Teng Margaret Fu, Perspectives chinoises, n° 89, setembro de 2005, Hong Kong.

[16] "Les migrations internes en Chine", Connexions, Beijing, n° 27, junho de 2005.

[17] Visita de Wolfowitz, em 12 de outubro de 2005, ao site do Banco Mundial.

[18] Em 2005, Tout ce qui reste est pour toi, escrito 16 anos antes, foi publicado com algumas modificações. Ler "Les tribulations d’un paysan chinois" Le Monde diplomatique, agosto de 2002.