Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

29/04/2007

HTML clipboard

Artigo sobre Ségolène e Hillary

Publicada em 28/04/2007 às 20h00m - O Globo Online

Por Mônica Leite Lessa

Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista francês à presidência da república, pode tornar-se a primeira mulher presidente da França - país onde o direito ao voto/eleição de candidatas do sexo feminino entrou em vigor apenas após a Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945. Para além da expectativa de uma candidatura feminina com chances reais de vitória, soma-se o fato de que essa é também a possibilidade para o Partido Socialista de voltar à cena política após a humilhante derrota de 2002.

Do outro lado do Atlântico, Hillary Clinton vive atualmente o que Ségolène Royal vivenciou meses atrás: a luta dentro de seu próprio partido (Partido Democrata) para ser indicada como candidata à presidência da República em 2008. Observe-se que nos Estados Unidos o voto/eleição das mulheres entrou em vigor após a Primeira Guerra Mundial, em junho de 1919. Entretanto, com um quadro político bem mais conservador do que o francês, a "maior democracia do mundo" se destaca pelo bipartidarismo do resultado de suas eleições nas quais sempre se alternam o Partido Republicano e o Partido Democrata. Sem que isso incomode os analistas especializados ou suscite alguma crise no cenário politico norte-americano, a dobradinha entre o Elefante e o Burro tem agora um elemento novo: a primeira candidatura de uma mulher à Casa Branca.

O tabu de uma candidatura feminina ao posto máximo da nação será finalmente quebrado na França e/ou nos Estados Unidos ? Ambos os países estão bastante atrasados em relação à questão de gênero na política. Contudo, deve ser destacado, o governo socialista de François Mitterrand inovou ao nomear pela primeira vez na história da nação uma mulher como primeira-ministra, mas o governo de Edith Cresson foi também o mais curto da V República: durou apenas 11 meses. Outros países, tanto no Ocidente quanto no Oriente, há muito romperam com a primazia masculina na política. Por exemplo: Indira Ganhdi (Partido do Congresso) exerceu o cargo de primeira-ministra da Índia de 1966 a 1977 e de 1980 a 1984; Golda Meir foi eleita em Israel entre 1969 e 1974; de 1979 a 1990 Margareth Tatcher (Partido Conservador) esteve à frente da Inglaterra; Benazir Bhutto (Partido Socialista) foi eleita primeira-ministra do Pakistão em 1988; em 2000, Tarja Halonen (Partido Social Democrático) foi eleita presidente da Finlandia; Angela Merkel (Partido Democrata Cristão) foi eleita chanceler da Alemanha em 2005; Michelle Bachelet (Partido Socialista) foi eleita presidente do Chile em 2006. Se as mulheres já demonstraram que liderança política não é monopólio do sexo masculino, mas questão de competência e oportunidade política, porque a pátria dos Direitos do Homem e a "maior democracia do mundo" ainda não elegeram mulheres para a presidência da República é um mistério.

Talvez esse quadro mude em breve. Quem apostou na derrota do Partido Socialista francês desde o primeiro turno não levou em consideração o trauma de 2002, quando o Front National, partido de extrema-direita, chegou ao segundo turno derrotando o Partido Socialista, nem o descontentamento dos franceses com dois mandatos presidenciais da direita. A vontade da alternância ideológica, explicitada no primeiro turno das eleições 2007, é a única resposta para o Partido Socialista ir para o segundo turno ? Para muitos analistas sim porque consideram que a candidata socialista é dúbia em suas opiniões, assina um programa de governo incoerente com a ideologia que representa e, sobretudo, pouco factível. Para outros, ao contrário, Ségolène Royal faz a diferença enquanto candidata porque é tão preparada quanto seus concorrentes, representa os ideais socialistas renovados pragmaticamente à luz da realidade contemporânea e mostrou coragem ao enfrentar dentro do PS correligionários como Laurent Fabius e Dominique Strauss-Khan, ambos candidatos à indicação partidária para as eleições presidenciais. E ganhou.

A despeito de ser a 6ª nação mais rica do planeta (PIB-nominal) e a 7ª economia mundial (PIB-PPC), a França possui uma taxa de desemprego superior a 8%, a menor taxa de crescimento da União Européia (2%) e uma dívida interna em torno de 66% do PIB. Ao contrário de Nicolas Sarkozy, seu oponente de campanha nesse segundo turno das eleições, Ségolène Royal insiste que para reduzir os números negativos de sua economia a França não necessita abdicar de sua essência: solidariedade nacional ao invés da competitividade social; manutenção das 35 horas semanais de trabalho, conquista do governo Mitterrand; implantação de um salário mínimo europeu; manutenção do direito ao reagrupamento familiar dos imigrantes; reforma do FMI, do Banco Mundial e do Banco Central Europeu; referendo sobre novo texto que substitua a derrotada proposta da Constituição Européia. Ela também condenou repetidas vezes a postura "chauvinista" e "nacionalista" de Sarkozy, reafirmou que a União Européia é essencial para a França e defendeu o internacionalismo e a solidariedade como valores típicos da esquerda. Nesse sentido, ela atacou frontalmente a proposta de Sarkozy sobre a criação de um "Ministério da Imigração e da Identidade Nacional", bem como sobre a "imigração seletiva" e a "discriminação positiva" dos imigrantes.

Única candidata a lançar a proposta de uma iniciativa européia para a organização de uma conferência em prol da paz e da segurança no Oriente Médio, Ségolène Royal condenou a invasão do Iraque e afirmou seu distanciamento em relação à política norte-americana nessa região. A repercussão dessa posição foi grande e inegavelmente lhe creditou uma atitude de independência e autoridade que os franceses consideram indispensáveis a qualquer presidente da República. E, ao mesmo tempo, relembrou a criticada viagem do então ministro do Interior Nicolas Sarkozy ao presidente Bush, em setembro de 2006.

Por muitas razões Ségolène Royal está mais próxima de seu objetivo do que sua colega Hillary Cliton. Royal exerceu mais cargos na alta administração do Estado; recebeu o voto popular em mais mandatos; é diplomada por uma das mais prestigiosas instituições francesas, a École Nationale d'Administration, na qual é formada a elite política-administrativa do país; tem uma forte imagem de mulher independente porque permanece solteira, mas construiu uma família, composta de quatro filhos, com o mesmo companheiro com quem vive há mais de trinta anos; construiu sua carreira política sem a sombra de uma figura masculina; é conhecida pela defesa de suas posições dentro e fora do PS. Hillary Clinton, ao contrário, investiu mais na carreira política do marido; foi vitima de um escândalo pessoal impensável na França mas típico do puritanismo norte-americano; teve uma discreta atuação em seu primeiro mandato como senadora e, atualmente, é criticada por sua mudança de posição sobre a guerra no Iraque - ela votou pela invasão em 2003.

No próximo dia 6 de maio a França escolherá seu novo presidente. Apesar das sondagens serem favoráveis à Nicolas Sarkozy a candidata socialista continua crescendo nas pesquisas, multiplicando aparições e debates públicos e com isso demonstrando sua tenacidade e recursos políticos. Pode tornar-se a primeira mulher eleita presidente da França. Se isso acontecer ela promete que valores esquecidos serão ressucitados e um novo élan será dado à política francesa. E talvez sua eleição possa significar um grão de areia para a campanha da senadora Cliton. Tanto na França quanto nos Estados Unidos a representação feminina na política nacional tem aumentado decididamente indicando que o eleitorado é atualmente menos preconceituoso devido justamente à crescente presença das mulheres na sociedade civil. Esse último dado sem dúvida contribuiu para uma maior articulação e pressão das mulheres na arena política. Por fim, deve ser considerado que as forças políticas dos dois países devem inovar para, a longo prazo, não desaparecerem do horizonte político. E as mulheres podem representar o indispensável passaporte para o futuro.

Mônica Leite Lessa é professora de História da Uerj