Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

14/10/2007

Socializam os prejuízos e privatizam os lucros

Notícia do Estadão Online:

Expansão da ciência e tecnologia é maior no interior paulista

Concentração de mestres e doutores, produção de artigos e geração de empresas indicam vitalidade da região

Eduardo Nunomura, enviado especial
http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid64548,0.htm


RIBEIRÃO PRETO - São Carlos, Campinas, Piracicaba, Bauru e Ribeirão Preto têm sozinhas mais mestres e doutores a cada 100 mil habitantes se comparados aos da capital. Nas cidades do entorno de Araraquara, há quatro vezes mais cientistas. O interior é responsável por um quarto da produção científica nacional e abocanha mais da metade dos financiamentos federais destinados ao Estado. Das universidades e dos institutos nesta região, sai o conhecimento que abastece e cria empresas tecnológicas. Três em cada quatro projetos de inovação aprovados pela Fapesp são de fábricas com sotaque caipira. Graças a esses números, São Paulo publica hoje tanto quanto Espanha, Austrália, Irlanda ou Canadá.

"A aprovação dos projetos é em função da demanda, o que indica uma vitalidade intensa do interior", diz o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz. "O interior está bem articulado e competitivo em relação à capital", acrescenta Marco Antonio Zago, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os dois são cientistas, um de Campinas e o outro de Ribeirão Preto.

Inovação é a palavra da vez nas pesquisas acadêmicas do interior. Inventos práticos, necessários e alguns com cheiro de revolução. No Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica, do Instituto de Física da USP São Carlos, um novo equipamento diagnostica tumores sem precisar de biópsia (o exame tradicional é doloroso e o resultado só sai em semanas). Um feixe de luz em contato com o órgão ou a pele diferencia um tecido normal de um doente. O aparelho já está em teste no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Conhecimento

Com o mesmo princípio, surgem outros produtos de fototerapia dinâmica, como os semáforos à prova da falta de energia e o aparelho para detectar e tratar o HPV e alguns tipos de câncer. Por trás das invenções, está o dinâmico e versátil físico Vanderlei Salvador Bagnato e uma equipe de cem pesquisadores. Foram eles os primeiros latino-americanos a realizarem a condensação de Bose-Einstein. Um gás é esfriado, próximo do zero absoluto (0 Kelvin ou -273,15 graus Celsius), quando ocorre a condensação. Entender o que se passa nesse momento permitirá desvendar a natureza quântica da matéria.

"A sociedade me dá dinheiro para ver o átomo e tenho que mostrar para que serve isso. Serve para curar o câncer", explica Bagnato. Nos últimos seis anos, seu laboratório produziu 28 patentes e destas, 12 viraram produtos. Qualquer experimento tem de mirar em educação ou saúde, mesmo que leve tempo. Os LEDs usados no semáforo antiblecaute ficaram prontos após seis anos. Outros projetos iam sendo tocados juntos para satisfazer à demanda por publicação de artigos, um dos fatores de avaliação dos pesquisadores. "O País tem de dar valor ao risco científico, senão vamos estudar só o conhecido e seremos apêndices dos outros."

O físico Luís Alberto Vieira de Carvalho, de 37 anos, formado em São Carlos, com doutorado em Berkeley e pós-doutorado em Rochester, segue a linha do coordenador. Quer inovar naquilo que o Brasil não inova. Criou o campímetro portátil para exames de glaucoma nos rincões. O aparelho estrangeiro sai por R$ 80 mil. O nacional custa um décimo desse valor. Quando estudava no exterior, Carvalho trabalhou na produção de uma lente de contato customizada para a Bausch-Lomb (a empresa investia US$ 3 milhões por ano). No Brasil, faltam verbas. Assim, concentra-se na fabricação do Wave Front, aparelho para diagnosticar em alta resolução defeitos da visão. Será o primeiro da América Latina.

O Centro de Terapia Celular (CTC) de Ribeirão Preto, coordenado pelo médico Marco Antonio Zago, entrou na corrida mundial para deter o domínio das técnicas de manipulação das células-tronco. Quanto mais se souber como elas se diferenciam em órgãos do corpo humano e como são ativadas, maiores as chances de inúmeras doenças serem tratadas. Ou evitadas. As células-tronco mesenquimais, por exemplo, têm capacidade imunológica. Saber como agem pode evitar a rejeição de transplantes.

Em abril, o imunologista Júlio Cesar Voltarelli, do CTC, encheu de esperanças pacientes de diabete tipo 1 que são obrigados a injetar altas doses de insulina. Pela técnica, uma quimioterapia desliga o sistema imune do paciente, que por algum motivo ataca as células do pâncreas, produtoras de insulina. Células-tronco do próprio paciente são então reinseridas nele para recompor o sistema de defesa. O tratamento, já realizado com sucesso em uma dezena de adultos, deverá ser feito com adolescentes e para outras enfermidades, como a esclerose múltipla. Voltarelli, contudo, já reiterou que é cedo para afirmar que se trata da cura.

Mas não é só de futurologia, riscos e esperanças que vive a ciência e tecnologia do interior paulista. A bióloga Aparecida Maria Fortes lidera uma pesquisa em Ribeirão Preto para produzir o fator 8 e o 9 recombinantes, utilizados no tratamento de mais de 7 mil hemofílicos. Hoje, o Brasil tem de exportar o plasma sanguíneo para a França, onde é purificado e liofilizado (seco) para ser então importado. O problema, além do custo de R$ 100 milhões, é que vai e volta sangue contaminado. Por engenharia genética, o fator 8 e o 9 são livres desse risco.

"Já produzimos em plaquinhas, na cultura in vitro, mas queremos pensar no nível de biorreatores e depois no de escala industrial", afirma Aparecida. A previsão é de que em um ou dois anos o Brasil fabrique o produto. Já há interesse da indústria farmacêutica. A pesquisa, que recebe apoio da Finep, permitiu à equipe do CTC dominar a técnica que pode ser usada em outras moléculas para fins terapêuticos, como o fator de crescimento.

Quebra-cabeças

No Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME), também na USP São Carlos, uma equipe multidisciplinar luta contra doenças tropicais, como leishmaniose, malária e esquistossomose. Ao isolarem a enzima GAPDH do Trypanosoma cruzi, o vetor da doença de Chagas, os pesquisadores detectaram a estrutura da proteína e, a partir dela, poderão procurar pequenas moléculas (potenciais remédios) que se encaixarão nela. Como num quebra-cabeça. "Cinco ou seis anos atrás, saíamos do nada. Hoje, um laboratório como o nosso realiza um forte desenvolvimento comparável aos melhores do mundo", diz Adriano Andricopulo, de 35 anos, que fez pós-doutorado em Michigan.

O Instituto de Física da USP São Carlos capta R$ 10 milhões por ano, 40% desse total vindo de indústrias. Foi crescendo na base do puxadinho, com corredores virando salas para acomodar mais pesquisas. "Nosso grande salto ocorreu nos anos 80, com a expansão do quadro de professores, cuja regra era que todos fossem para o exterior fazer doutorado", explica o diretor Glaucius Oliva, também coordenador do CBME.

Os três laboratórios acima fazem parte do programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fapesp. São 11 no total, 5 no interior paulista. Criados em 2000, eles desenvolvem pesquisas na chamada fronteira do conhecimento, viabilizam parcerias com empresas e governos para aplicação das tecnologias e, o que é raro na academia, dividem as descobertas com a população. Este último envolve desde a criação de jornais e programas de TV até a inclusão de jovens estudantes no desenvolvimento científico. É a ciência semeando ciência.

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Comentário do Leonildo

Na matéria acima eu grifo as palavras: Empresa, produto, patente e pesquisa de risco.

Para comentar eu diria: a sociedade investe em pesquisa de risco. Se perder, a coletividade perde. Se ganhar, a pesquisa vira um produto, registram uma patente e é vendida por uma empresa. Isso é privatização de recursos públicos.

Para entender por que eu estou dizendo isso leia o texto:

Projeto OCW-USP: democratizar o conhecimento e socializar os saberes http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/10/398001.shtml

Os projetos que beneficiam toda a coletividade sem cobrar nada por isso não são de interesse das Universidades Públicas que querem apenas desenvolver pesquisas que terminam em produtos e serviços patenteados pelas empresas que criam...

Isso tem que acabar... Esse não é um caminho de desenvolvimento, mas sim de privatização e concentração de renda oriunda de recursos públicos... Socializam os prejuízos e privatizam os lucros.

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Potência da patente
Lucas Mendes -- BB-Brasil -- 11/10/2007 13/10/2007 23:01
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071011_lucasmendes_fp.shtml

Na década de oitenta, um grupo de moradores da cidade de Acton, em Massachusetts, procurou a universidade Tufts e pediu ajuda aos estudantes para examinar a qualidade da água que suspeitavam contaminada por uma fábrica de químicos.

O professor Sheldon Krimsky foi escalado para supervisionar os estudantes.

Antes do resultado ser publicado, o vice-presidente da companhia W. R. Grace procurou o presidente da universidade para impedir a divulgação do resultado que confirmava a contaminação.

O presidente da universidade mandou os poluidores às favas e os moradores foram compensados.

Mas, e se a universidade, naquela época, estivesse recebendo algum dinheiro da fábrica para pesquisas, será que o presidente publicaria o resultado ou se submeteria à pressão da companhia?

Desde então, Sheldon Krimsky dedicou sua vida a pesquisar e denunciar as relações promíscuas entre indústrias, universidades, agências do governo e publicações.

Escreveu quase 200 ensaios e oito livros sobre o assunto, entre eles o best-seller Science in the Private Interest.

Passei uma manhã com o professor no seu escritório da Tufts numa entrevista para o programa Millenio. Até a década de 60 poucos cientistas e pesquisadores faturavam em cima de suas descobertas, contou Krimsky.

Quando Jonas Salk descobriu a vacina contra pólio perguntaram a ele por que não patenteava a descoberta.

Ele respondeu: é possível patentear o sol?

O sol ainda não patentearam, mas hoje dão patentes a genes e um quinto do meu corpo - e do seu também - já tem outros donos, garante o escritor Michael Crichton.

Em 1965 as universidades americanas receberam 95 patentes. Em 2006 foram quase 4 mil.

A mudança aconteceu na década de oitenta, quando o Supremo Tribunal decidiu que era permitido patentear coisas sui generis e o Escritório de Patentes dos Estados Unidos - USPO -, para perplexidade até dos pesquisadores do genoma, interpretaram que um gene era patenteável.

A decisão provocou uma corrida de ouro na biotecnologia. Noventa e dois por cento das verbas de pesquisas saem do governo federal, mas nas melhores universidades americanas um terço da verba vem de empresas privadas.

Os três vencedores do prêmio Nobel de medicina deste ano foram pioneiros em pesquisas genéticas em ratos de laboratório na década de 80.

Mostraram como um gene modificado altera a saúde do animal e a pesquisa pode ajudar na cura de alzaimer, câncer, parkison e outras doenças. Não foram os únicos premiados por avanços genéticos.

Sheldom Krimsky, o escritor Michael Crichton e muitos outros inlfuentes cientistas americanos têm sérias restrições sobre patentes, mas onde estaríamos sem os potentes royalties das patentes?