Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

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23/05/2008

Livros do Leonildo
Meu primeiro livro (80% pronto) é "Teoria da Consciência e Liberdade". O segundo livro (60% pronto) é "O Direito de Ocupação: a coletividade contra o Estado".

A minha meta, com estas obras, é romper o excesso de mesmice e mediocridade que predominam na atualidade. Mesmice e mediocridade que não derivam de ignorância dos intelectuais dos grupos dominantes. Não é falta de informação ou de conhecimento, mas sim um ardil, um artifício de dominação. Este método dos grupos dominantes é conhecido como "mudar tudo sem mudar nada".

Eles conhecem cristalinamente as soluções para os problemas sociais, porém, descartam estes caminhos, desviando as atenções para coisas irrelevantes e insignificantes. Perpetuando, desta forma, os interesses que geram e alimentam as desgraças sociais.

Alguns agem dolosamente a favor do sistema. Outros agem por omissão. Para estes últimos vale a pergunta do Osmair Camargo Cândido: “do que têm medo muitos que se dizem ‘- solidários’ e ‘cristãos’, mas não fazem o que eu, que creio pouco, faço por consciência do dever?” (Texto completo aqui)

Mais do que isto... com estas obras busco estabelecer, definitivamente, a supremacia da maioria na sociedade. Governo da maioria, direito das minorias. O poder emana do Povo e por ele deverá ser exercido. E o Povo somente pode exercer diretamente o poder em uma Democracia Direta. 513 deputados não são o Povo. Não representam os interesses e a vontade de 185.000.000 de pessoas. A Democracia Representativa é um engodo que tem que ser extinto.

Inclusive, lendo o livro primeiro da obra "República" de Cícero, percebi, claramente, que a idéia de Cipião, apresentada no texto, é corretíssima. Ele considera que o melhor governo para a sociedade tinha que ser uma mistura das três formas de governo: monarquia, aristocracia e democracia.

Inegavelmente, esta idéia de Cipião é o caminho que seguimos quando falamos em República com Democracia Direta. Um executivo usando regras da monarquia, um legislativo exercido diretamente pelo Povo e um judiciário com regras da aristocracia. Porém, as regras para o judiciário devem ser calcadas no mérito, na garantia de igualdade de acesso e na aprovação dos nomes pelo Povo.

12/05/2008

Teoria da Consciência e Liberdade em livro
Como já escrevi a maior parte da Teoria da Consciência e Liberdade, estou considerando, neste momento, a possibilidade de publicá-la em livro de papel, principalmente, para distribuição em bibliotecas públicas.

Além disso, o livro de papel facilita a vida de quem pretende estudar esta idéia mais detalhadamente.

Eu pretendia manter a Teoria somente na internet, mas as barreiras e as filtragens que estão sendo impostas ao meu site e blog, levam-me a buscar outras alternativas para burlar o controle do sistema.

Certamente, este livro entrará, automaticamente, no "index librorum proibitorum" de algumas organizações. Mas isto será inútil, pois a Teoria da Consciência e Liberdade tem força suficiente sobreviver e imortalizar-se. Apesar de tudo e de todos. Que assim seja !!!

16/02/2008

A Teoria da Consciência e Liberdade
Através da Teoria da Consciência e Liberdade é possível explicar a maioria das ações, para não dizer todas, realizadas pelo Homem. Começando na Filosofia, Política, Direito, Religião, etc. É possível reescrever todos os conceitos de diversas áreas a partir da perspectiva da Consciência e Liberdade...

Isto porque toda a ação humana deriva de um decisão, de uma sentença emitida pela consciência daqueles que estão envolvidos na ação, inclusive todos os antigos conceitos de liberdade podem ser explicados por meio da atribuição de relevância a determinados fatores escolhidos pela consciência individual ou coletiva...
Inegavelmente, o que eu estou dizendo é que, até hoje, pensávamos que era o homem que construia toda a História, porém, o que não percebíamos é que por trás do Homem há a Consciência (individual, coletiva, política, social) determinando como tudo deverá ser feito. 

Consciência que é movida por informações e conhecimentos. Consciência que é um sistema e dentro do qual existem processos mentais analíticos de informações e conhecimentos, processos mentais que conhecemos como pensamentos.

Eu vou fazer isto. Vou reescrever tudo da perspectiva da Consciência e da Liberdade. Consciência e Liberdade que dependem, portanto, de informação, conhecimento. Dependem da educação e do acesso ao conhecimento. Por isso, quando democratizamos e socializamos o conhecimento, novos caminhos e novas portas se abrem, e revoluções acontecem...

Para refutar esta Teoria terão que provar que o Homem não é regido por sua Consciência e que é possível separá-lo dela. Como isto não é possível... a Consciência se faz presente em todas as ações e construções humanas. 

01/02/2008

Só me faltava esta...
Depois dessa, como gostam de me culpar por aí, só falta me acusarem de ter promovido o apocalipse, ou seja, ter acelerado o fim do mundo... 

Contudo, eu não me arrependo e não volto atrás.  A Teoria da Consciência Liberdade faz a Humanidade avançar. E o apocalipse faz parte do percurso. Não há como fugir. Para se chegar ao novo Céu e à nova Terra é necessário que o velho Céu e a velha Terra não existam mais.
Há um propósito em minha vida e ele será cumprindo até o fim. 
 
Seja no papel de João Batista, seja no papel de Judas Escariotes. É isto que diz a minha Consciência. 
Para que uns se salvem, outros terão que se sacrificar. E eu sempre estou no lado do sacrifício.
Enfim, preciso consultar os religiosos sobre estas questões.

Só falta jogarem água benta na minha pessoa...

Estou paralisado...
Eu estava escrevendo a Teoria da Consciência e Liberdade para explicar a escravidão totalitária e preveni-la. Não havia uma razão religiosa nesta Teoria. Como eu já disse, eu sempre fugi de religião e das interpretações que fazem das religiões. Porém, Deus sempre está comigo, assim como está com todos que tem fé Nele.

Então surgiu um elemento religioso na Teoria. Um elemento religioso fortíssimo que pode precipitar uma série de eventos e fazer cumprir profecias em várias religiões.

A consciência pode unir todos os seres humanos. È o que há de comum entre os Homens. A Consciência movimenta energia. E Deus é energia Consciente. Pela Consciência o Homem se aproxima de Deus. Através da Consciência, Deus se manifesta entre os Homens, assume um corpo material ou inspira seus Profetas. A energia da consciência é a chama divina que Deus deu aos Homens. É o que há de divino no Homem. Vida, todos os animais têm. Consciência, só os seres feito à imagem e semelhança de Deus.

O mecanismo da consciência e Deus como energia consciente explica tudo em todas as religiões. Logo, pode unir tudo. E este "unir tudo" é que pode precipitar as profecias messiânicas que existem na maioria das religiões...

Porém, eu não estava atento às conseqüencias desse aspecto religioso. Estava escrevendo as coisas como elas são produzidas/sugeridas em minha Consciência. E, inegavelmente, empolgado com tudo, pois as coisas, os aspectos da Teoria, se mostram de uma forma tão lógica e evidente que a grande pergunta que eu fazia era: como não viram isto antes ? Por que não escreveram isto antes ?

Contudo, a resposta sempre estava em minha consciência: "Para tudo há um tempo determinado. E há um tempo para todo propósito embaixo do Céu." Há algo escapando à minha percepção. Ouvia certas frases, certas referências... Enfim, resumindo a história toda, se a minha Teoria vai ajudar a precipitar o apocalipse, quero saber de todos os detalhes e de todas as versões...

Portanto, quero saber de tudo... de todas as profeciais que falam de um Messias, que falam do fim dos tempos, da união das religiões, etc...Poderíamos começar pela Cabala e pelos Rabinos Hassídicos, pela profecia do Retorno do "Imame Mahdi", sobre o anticristo, etc.

O que eu sei, até agora, sobre o assunto é o que li na Bíblia e o que li em:

1- http://www.espada.eti.br/n2108.asp

2- http://www.espada.eti.br/rv133.asp

3- http://www.espada.eti.br/n1516.asp

Que Deus me dê entendimento e sabedoria para saber diferenciar o joio do trigo...

28/01/2008

Um pedaço da minha Liberdade
As coisas que eu estou escrevendo poderão ser corrigidas em alguns pontos. Contudo, isto será feito quando houver um erro ou uma contradição oriundos de dados errados que utilizei. Estamos sujeitos a utilizar dados errados, principalmente, nas traduções, interpretações equivocadas, etc. Eu escrevo as coisas como elas se revelam para a minha consciência, não de acordo com vontades ou interesses alheios.

Portanto, se gostam ou se não gostam, a Teoria será escrita até o fim e se fechará em um sistema que explica o Homem, a Consciência, a Vida e a Liberdade. Uma Teoria que aproximará o Homem de seu Criador: Deus, pelo caminho que foi dado: a consciência.

Eu não estou preocupado com o que pensa os pseudo-intelectuais que estão ao meu redor e que usam a ciência para destruir a essência do Homem e até mesmo para destruir o próprio Homem. Também não me interessa as críticas dos falsos profetas que usam a religião como instrumento de dominação, poder e negócio para ganhar dinheiro.

O que esta Teoria busca é libertar o Homem de todas as amarras que o impedem de ser livre e de se aproximar de seu Criador. É uma Teoria da Consciência e Liberdade. Teoria que separa o joio do trigo. Para cada Homem foi dada uma Consciência Individual. Cada um tem a sua. Cada um dará conta dos seus atos. Dos atos que praticou no exercício de sua Liberdade. Aqui não há espaço para o domínio de uns sobre os outros. Não há espaço para imposições.

Há espaço para diálogos e busca do melhor caminho. Mas este diálogo e esta busca dependem de cada um, de cada consciência. Inclusive, Deus não obriga o Homem a nada, deu lhe livre-arbítrio para escolher e decidir...

Inclusive, esta Teoria nasceu de minhas percepções da opressão totalitária. É uma Teoria que nasceu da dor que senti ao ver os extermínios, as perseguições e a banalidade do mal. Ela não nasceu para explicar coisas religiosas. A religião surgiu como corolário de alguns pontos...

Inegavelmente, esta Teoria é uma revelação. É uma epifania. O que é epifania ?
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Wikipedia: "Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante acontece, que parece ser divino em natureza (este é o uso em língua inglesa, principalmente, como na expressão I just had an epiphany, o que indica que ocorreu um pensamento, naquele instante, que foi considerado único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural).

Epifania também possui o significado de manifestação ou aparição divina. Diversos personagens históricos, na maioria líderes religiosos, filósofos, cientistas, místicos, escritores, teriam tido experiências epifânicas."
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Enfim, é uma Teoria da Consciência e Liberdade. E Liberdade é o poder do indivíduo de expressar a própria consciência. Esta Teoria, portanto, é a manifestação da minha consciência. Logo, é um pedaço da minha Liberdade.

Papa diz que ciência não pode ser único critério do bem
Para o papa, é mais do que nunca importante 'educar as consciências de nossos contemporâneos'

ROMA - Em audiência aos participantes do convênio acadêmico "A identidade mutável do indivíduo", o papa Bento XVI advertiu para a importância de, nesta época em que "o desenvolvimento das ciências fascina e seduz pelas possibilidades oferecidas", evitar que o homem se torne "o objeto de manipulações ideológicas, de decisões arbitrárias ou de abuso do mais forte sobre o mais fraco".

Vaticano lança turnê mundial contra o aborto

O convênio acadêmico foi realizado nos dias 24 e 25 de janeiro em Paris, por iniciativa da Academia de Ciências Morais e Políticas e da Academia de Ciências da França, junto com a Pontifícia Academia de Ciências.

Para o papa, é mais do que nunca importante "educar as consciências de nossos contemporâneos para que a ciência não se torne o critério do bem e para que o homem seja respeitado como o centro da criação". Bento XVI procurou prevenir contra os "perigos dos quais nós pudemos conhecer as manifestações no curso da história humana e em particular no curso do século 20".

"Todo o caminho científico deve ser também um caminho de amor, criado para colocar-se a serviço do homem e da humanidade, e para dar sua contribuição à construção da identidade das pessoas", disse o papa. "O homem não é fruto de um acaso, nem de uma série de coincidências, nem de determinismos, nem de interações fisico-químicas; é um ser que goza de uma liberdade que, tendo consciência de sua natureza, transcende esta última e aquilo que é o sinal do mistério da alteridade que a habita", declarou Bento XVI.

Segundo o pontífice, "essa liberdade, que é própria do ser humano, faz com que este possa orientar sua vida até um final, que possa, através de seus atos, caminhar em direção à felicidade à qual é chamado pela eternidade".

"Essa liberdade faz parecer que a existência do homem tem um senso. No exercício de sua autêntica liberdade, a pessoa realiza sua vocação; completa-se; dá forma à sua identidade profunda. A dignidade particular do ser humano é ao mesmo tempo um dom de Deus e a promessa de um futuro", acrescentou.

Bento XVI declarou ainda que "o homem leva em si uma capacidade específica: discernir o que é bom e o bem, em uma capacidade que o incentiva a fazer o bem". "Movido por isso, o homem é chamado a desenvolver sua consciência através da formação e do exercício, para guiar-se livremente na existência, baseando-se nas leis existenciais que são a lei natural e a lei moral".

19/01/2008

Consciência, Liberdade e Direito Natural
Inicialmente, este texto tinha o nome de "Consciência, Liberdade e Responsabilidade", mas o termo "responsabilidade" não definiu exatamente a realidade que eu expressei. O termo correto para tal realidade é "Direito Natural". Certamente, terei que fazer alguns ajustes na definição tradicional deste termo. Contudo, ele se enquadra como uma luva na realidade descrita. Por isso, o texto foi reescrito.
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Uma questão importante que surge nesta Teoria da Consciência e Liberdade é: qual é a relação entre a consciência, a Liberdade e o Direito Natural ? Agir com consciência significa agir com responsabilidade? Ter liberdade significa ter responsabilidade?

Esta questão fica ainda mais interessante quando eu penso nos nazistas que construíram e operavam o sistema totalitário. Eles agiam de acordo com a própria consciência ? Agiam. Logo, eles eram livres. Além disso, eles tinham informação e conhecimento. Eram pessoas de extensa cultura, amantes da artes e conhecedores dos clássicos do pensamento. Inclusive, Eichmann lia Kant. Portanto, como se enquadra a ação dos nazistas que construíram e operavam o sistema totalitário nesta Teoria da Consciência ?

Vamos pensar, gafanhoto !!! A Teoria da Consciência e Liberdade define a Liberdade como poder de agir de acordo com a própria consciência. Agir de acordo com a própria consciência implica, necessariamente, em respeitar o outro, em respeitar a liberdade do outro, em respeitar a consciência do outro. Caso contrário, a Liberdade não é possível. Não é possível porque o agir de acordo com a própria consciência exige que os outros me deixem agir de acordo com a minha consciência. Se eles não deixarem que eu aja de acordo com a minha própria consciência, a minha Liberdade não é possível. A contrapartida é que eu deixe os outros agirem de acordo com suas próprias consciência.

O mecanismo encontrado pela consciência individual, para impedir os outros de interferirem na minha Liberdade, ou seja, impedir que eles interfiram no meu poder de agir de acordo com a minha consciência, assim como para obrigar-me a respeitar a Liberdade dos outros, respeitar a expressão da consciência dos outros, é o Direito Natural que dissemina normas, a partir da consciência individual, para todas os demais subsistemas, principalmente para a consciência coletiva (no âmbito familiar ou de grupos próximos - normas tácitas e costumeiras - moral, etc) e para a consciência social (no âmbito da sociedade, do país ou da comunidade internacional - normas tácitas e cogentes - Direito, etc).

Portanto, o mecanismo do Direito Natural é um conjunto de normas localizadas fora dos subsistemas, das demais consciências. São normas de rotina da consciência individual que inicializam a própria consciência e a mantém em funcionamento. A melhor ilustração é pensar no Direito Natural como um sistema operacional. Um sistema fundamental que permite o funcionamento de todos os subsistemas. Sem sistema operacional o computador não funciona. Sem Direito Natural, a consciência não tem estabilidade e nem proteção. Logo, o próprio indivíduo é transformado em coisa, perde a sua identidade e a sua individualidade, pois o Direito Natural é a garantia e a proteção da consciência, da identidade e da individualidade.

Inclusive, é válido ressaltar ilustrativamente, que os sistema totalitários quando removem a consciência natural dos indivíduos, substituindo-as pela consciência do sistema, eliminam o Direito Natural e inserem, em seu lugar, normas fundamentais de proteção e funcionamento do totalitarismo.

Hannah Arendt evidencia isto na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism":

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o fato espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

Portanto, o Direito Natural engloba normas essenciais que estão presentes em todas as consciências individuais. Normas que se referem e protegem a consciência e o indivíduo como um todo. E sem estas normas a consciência fica comprometida em seu funcionamento regular. Inclusive a norma fundamental que estabelece: "agir de acordo com a própria consciência" é uma norma do Direito Natural que está na consciência individual de toda pessoa, assim como as normas que protegem a vida.

Nesta perspectiva, de acordo com a Enciclopédia Jurídica Leib Soibelman, verbete "Direito Natural":

A idéia de que acima das leis positivas existe um direito que serve de modelo às leis humanas, vem desde a Grécia. Atravessou a história humana e não vai desaparecer nunca, porque ela se confunde com a própria noção de justiça.

O homem nunca se conformou em reconhecer que a lei tem um caráter puramente estatal, independente de um conteúdo ético.

O direito natural teve a sua concepção apoiada sobre as mais diversas bases: originário de Deus (direito natural teológico), de um contrato social em que os homens convencionaram formar uma sociedade justa, nenhum dos contratantes, enunciando ao direito de resistência à injustiça (direito natural racional) e outras variantes.

Opondo-se aos que alegam o relativismo histórico da moral e das idéias, criou-se um "direito natural de conteúdo variável". Gény falou do "irredutível direito natural", outros falam do "renascimento do direito natural".

O julgamento de Nuremberg foi uma inequívoca vitória do direito natural, pois pelas leis positivas não havia base legal para processar vencidos numa guerra. Em suma, o direito natural é idéia e é sentimento. Não há revolução que não apele para ele. Apoiou revoluções e reações. Nem sempre foi democrático. Mas, seja como for, o dia em que ele desaparecer, morre a filosofia do direito, e talvez não haja mais razão de continuar vivendo como ser humano. É um direito que brilha quando mais se precisa dele: em épocas de crise. É o direito da crise contra a crise do direito.

Inclusive Cícero, no terceiro livro de sua "República" fala do Direito Natural:

"Existe, pois, uma verdadeira lei, a reta razão congruente com a natureza, que se estende a todos os homens e é constante e eterna; seus mandamentos chamam ao dever e suas proibições afastam do mal. E não ordena nem proíbe em vão aos homens bons nem influi nos maus. Não é lícito tratar de modificar esta lei, nem permitido revogá-la parcialmente, e é impossível anulá-la por inteiro.

Nem o senado nem o povo podem excluir-nos do cumprimento desta lei, nem se requer ninguém que a explique ou interprete. Não é uma em Roma e outra em Atenas, uma agora e outra depois, senão uma lei única, eterna e imutável, que obriga a todos os homens e para todos os tempos: e existe um mestre e governante comum de todos, Deus, que é o autor, intérprete e juiz dessa lei e que impõe seu cumprimento. Quem não obedece foge de si mesmo e de sua natureza de homem, e por isso se faz merecedor das penas máximas, embora escape aos diversos suplícios comumente considerados como tais".

Cícero considerava ainda que era uma insensatez acreditar que tudo o que está regulado pelas leis é justo, pois as maiorias podem aprovar leis injustas, como acontece nos regimes tirânicos. A única lei justa é a que segue a natureza das coisas, a lei natural. A vontade dos povos não faz a lei justa, pois os povos podem aprovar atos ilícitos ou criminosos. A natureza das coisas tem uma tendência para seguir a justiça. A única regra para distinguir uma lei boa de outra má é a natureza.

Esta visão de Cícero é reforçada pela visão do fenômeno totalitário, principalmente pelo direito criminoso aprovado e utilizado pelo nazismo e pelo stalinismo.

É importante diferenciar o Direito Natural, nesta concepção da Teoria da Consciência e Liberdade, do Direito Positivo. O Direito Natural reúne normas que estão presente e coladas na consciência individual. Normas de rotina que regulam o funcionamento da própria consciência e dos seus subsistemas, ou seja, as demais consciências (política, social, coletiva, etc) estão abaixo do Direito Natural.

O Direito Positivo engloba normas que estão dentro da consciência social, são normas e regras reunidas em um subsistema que passou pelo crivo e foi criado pela reunião de consciências individuais. Como a consciência social depende da sociedade em que está, do país em que se vive, etc. As normas do Direito Positivo pode variar de sociedade para sociedade e de Estado para Estado. Logo, o Direito Positivo, o que é fato, é variável e passageiro. Muda conforme o vento.

Contudo, as normas e regras do Direito Natural não variam e nem mudam de acordo com o vento, pois são normas fundamentais de funcionamento e proteção da consciência. Onde há consciência individual, há Direito Natural. Onde há seres humanos, não consciência individual. Logo, há Direito Natural. São normas relacionadas à consciência individual, ao funcionamento dessa consciência, ao funcionamento do próprio indivíduo como pessoa e como ser humano. Portanto, onde há uma pessoa, onde há um ser humano, aí estão presentes as normas e regras do Direito Natural. Direito Natural, portanto, que é universal e que está acima do Direito Positivo.

Eu posso tirar o Direito Positivo, posso modificá-lo, refazê-lo, etc, e o indivíduo continua funcionando normalmente, sem grandes modificações ou avarias. Contudo, quando afeto, modifico ou elimino o Direito Natural atinjo o indivíduo diretamente no seu âmago, arranco um pedaço dele, corto uma fatia do seu ser, ou então, extermino-o. Um dos Direitos Naturais básicos é o Direito a vida e quando ataco e elimino este Direito, ataco e elimino o próprio indivíduo, elimino o ser humano. Se não há vida, não há pessoa. O segundo Direito Natural básico é o que garante o funcionamento da consciência, logo, determina a Liberdade do indivíduo. Se não há o funcionamento livre da consciência, não há Liberdade.

Portanto, nesta concepção, o Direito Natural engloba regras e normas que garantem o funcionamento natural do homem como ser humano, o funcionamento natural da própria consciência. Por exemplo, que garantem a vida, a saúde, a integridade da consciência e o seu regular desenvolvimento e funcionamento, etc.

A consciência individual de todos os homens necessita do Direito Natural para sobreviver e manter o ser humano vivo e em ação. Esta identidade existente na consciência individual levou à reunião das normas básicas do Direito Natural e à implantação dessas normas, como uma forma de proteção do ser humano, na consciência coletiva. Assim, o Direito Natural se tornou parte da Moral, da ética e dos costumes. O grupo próximo assumiu regras que o obriga a respeitar o Direito Natural. Direito este que é igual para todos e que coloca todos no mesmo nível, ninguém tem mais do que o outro. Com isto, o Direito Natural passou a ser uma norma ou uma regra de contenção da voracidade do grupo em atentar contra a identidade de um dos membros.

O mesmo ocorreu com a consciência social que adotou as normas e regras do Direito Natural, inserindo-as em seu grupo de normas comuns. Assim, o Direito Natural se tornou parte do Direito Positivo e passou a ser protegido com sanção. Quem viola o Direito Natural de um dos membros da sociedade é punido com penas previamente estabelecidas.

Certamente, a entrada do Direito Natural nas demais consciências não foi uma coisa simultânea e nem aconteceu da noite para o dia. É um construção de milênios e milênios. Também não era uniforme. Dependia das convenções e das definições humanas daquilo que era igual e daquilo que era diferente. Assim, em certas sociedade um grupo tinha este Direito, enquanto outros grupos, por exemplo os escravos, não o tinham, pois eram considerados coisas e não gente. Por exemplo, durante o Império Roma.

Agora vamos ver como o Direito Natural opera dentro das consciências. A consciência coletiva e a consciência social, subsistemas da consciência individual, possuem um conjunto de normas, regras e valores que emitem sentenças prontas, em determinados casos ou diante de certas ações, para a consciência individual, inibindo comportamentos, ações e vontades que contrariem os interesses da coletividade, ou interesses da sociedade, ou que violem a liberdade do outro (Direito Natural). Este mecanismo de auto-proteção são regras do Direito Natural.

Além disso, as regras de proteção do grupo, por afetarem a vida do indivíduo, também podem ser consideradas regras de Direito Natural. Violando as regras da família, dissolve-se o grupo familiar. E a dissolução do grupo familiar implica em menos proteção, em menos alimento, em menor possibilidade de sobrevivência do indivíduo. Se todas as famílias abandonarem ou abortarem os bebês, a espécie humana se extingue. Portanto, o Direito Natural também protege o grupo.

O costume do Direito Natural, inegavelmente, é cultural. Porém, a regra cultural foi potencializada pela ação biológica. Mas como isso pode ter acontecido ? Biologicamente falando, quem atua contra o grupo tende a se isolar, a viver separado. Vivendo sozinho e separado tende a ser atacado e exterminado mais rapidamente, não passando adiante os genes que o induziu ao isolamento. Já quem vive em grupo tem uma maior chance de sobrevivência e de passar seus genes adiante. Há uma propensão genética nisso. E esta propensão genética, biológica, é potencializada pela propensão cultural. Basta lembrar que foi a sobrevivência em grupo, o trabalho em conjunto e a troca de informações que salvou os cerca de mil humanos (variedade genética existente) que sobreviveram ao cataclisma do vulcão Toba da Ilha de Sumatra, a cerca de setenta e cinco mil anos atrás. Você podem ver isto no documentário da BBC de Londres - "Aventura da Vida" - sobre o desenvolvimento e a evolução da vida na Terra (http://www.guba.com/user/pfilosofia).

Além disso, na evolução cultural, assim como na evolução biológica,a s normas que facilitam e melhoram a vida, seja individual ou em grupo, tende a ser perpetuada. Enquanto que as normas que inibem ou prejudicam a vida individual ou do grupo, tendem a ser abandonadas pelas gerações.

Enfim, o Direito Natural é um dos fundamento da Teoria da Consciência e Liberdade, pois é este Direito que garante o funcionamento adequado da consciência e dos seres humanos. São normas e regras que inicializam e mantém o sistema funcionando, são normas e regras de auto-proteção, ou seja, somente terei liberdade se respeitar a liberdade do outro; somente expressarei a minha consciência, se respeitar a expressão da consciência do outro.

Evolutivamente, primeiro, o Direito Natural entrou na consciência coletiva e se tornou parte do costume e, a partir deste costume, na mesma consciência coletiva, passou a ser uma crença do grupo. Antigamente, o Direito Natural era uma crença.

De acordo com o Prof. Celso Lafer (A Reconstrução dos Direitos Humanos, 1991, p. 16-17):

"O Direito Natural se contrapõe ao Direito Positivo, localizado no tempo e no espaço, e funciona, neste paradigma, como um ponto de Arquimedes para a análise metajurídica: tem como pressuposto a idéia de imutabilidade de certos princípios, que escapam à História, e a universalidade destes princípios, que transcendem a Geografia.

A estes princípios, que são dados e não postos por convenção, os homens têm acesso através da razão comum a todos, e são estes princípios que permitem qualificar as condutas humanas como boas ou más - uma qualificação que promove uma contínua vinculação entre norma e valor e, portanto, entre Direito e Moral.

No mundo moderno o paradigma do Direito Natural foi capaz de lidar, até o século XVIII, com os problemas da crescente secularização, sistematização, positivação e historicização do Direito, mas a intensidade destes processos levou à sua erosão. Daí o aparecimento de um novo paradigma: o da Filosofia do Direito.

O novo paradigma da Filosofia do Direito é uma resposta ao processo da crescente positivação do Direito pelo Estado - um processo que realçou o papel do Direito como instrumento de gestão e comando da sociedade através da técnica das ordens e proibições, dos estímulos e desestímulos às condutas humanas.

Por isso, o Direito deixou de ser encarado como algo dado pela razão comum e que permite qualificar condutas como boas ou más. Passou a ser visto como algo posto e positivado, direta ou indiretamente, pelo poder que estabelece, para distintas sociedades, de maneira não-uniforme, a diferença entre o lícito e o ilícito, e que assegura a governabilidade por meio da efetividade desta diferença garantida através do mecanismo da sanção.

Daí a mutabilidade do Direito no tempo e o seu particularismo no espaço, situação que, ao ser generalizada, diluiu a relevância do paradigma do Direito Natural."

Contudo, adotando a concepção desta Teoria da Consciência e Liberdade, percebe-se que, inegavelmente, houve uma quebra de paradigma entre as consciências coletiva e social. As normas e regras que eram crenças (consciência coletiva) foram positivadas pelo Direito (consciência social). Entretanto, esta positivação foi um movimento que aconteceu no âmbito dos subsistemas da consciência individual. Foi uma ampliação das garantias, não uma redução do Direito Natural. Isto porque as raízes das normas e regras de Direito Natural estão situadas fora da consciência social. Estão na consciência individual, logo, acima do Direito positivo.

A positivação também foi uma ampliação porque ocorreu fora da consciência coletiva, onde está a crença no Direito Natural, ou seja, o Direito Natural não deixou de ser crença do grupo, ele continua existindo como crença, e, além de crença, também passou a fazer parte da consciência social, integrando as normas aplicadas por toda uma sociedade ou Estado. A positivação não elimina a crença, pois estão em consciência diferentes.

A minha crença pode ser positivada ou não. Uma coisa não exclui a outra, pois estão em subsistemas diferentes. E no caso do Direito Natural, ele não está só nos subsistemas, as suas raízes estão na consciência individual. Portanto, pode-se eliminar a consciência coletiva, ou seja, as crenças, os costumes, a moral, etc; pode-se eliminar a consciência social, o Direito Positivo, os costumes da sociedade/Estado, etc, que o Direito Natural continua existindo. Ele pode perder força em sua aplicação, pois não é crença e nem está positivado, mas continua permeando a consciência individual como norma de estrutura, pois são normas e regras que dizem respeito ao ser humano como pessoa e ao funcionamento de sua própria consciência. Normas e regras que estão introjetadas e coladas no sistema operacional da própria consciência individual. Logo, acompanham o indivíduo onde quer que ele esteja.

Certamente, as normas e regras do Direito Natural se revelam e se tornam mais evidente com a evolução cultural do indivíduo e da sociedade. Por isso, todas as sociedades humanas possuem, mesmo que seja em nível rudimentar ou elementar, normas e regras de Direito Natural. Nestas sociedades rudimentares estas normas e regras estão mais ligadas às crenças e menos à razão, porém existem e são observadas. E, conforme estas sociedades evoluem, a sua cultura evolui e a sua percepção do mundo também evolui, assim como a consciência individual. Nessa evolução surgem os subsistemas, as outras consciências. Por isso, caminhamos para uma consciência cosmopolita onde as normas e regras do Direito Natural serão uniformes, reconhecidas e aplicadas, para todas as pessoas em todas as sociedades.

Portanto, com o advento da Filosofia do Direito, ocorreu uma mudança de paradigma no âmbito da consciência coletiva e da consciência social. O Direito Natural foi positivado, porém, ele não deixou de ser crença, no âmbito da consciência coletiva, e nem teve sua força reduzida no âmbito da consciência individual, que está acima de todos os subsistemas da consciência. Isto porque se refere a normas e regras que tratam do funcionamento da consciência e do ser humano como pessoa. Logo, a positivação do Direito Natural apenas ampliou o campo de atuação deste Direito, tornando-o mais evidente e mais obrigatório.

E, mais recentemente, o Direito Natural entrou na consciência social, tornando parte do Direito Positivo. Na consciência social recebeu o nome de Direitos Humanos.

O Direito Natural insere na Teoria a característica da responsabilidade, pois a partir da consciência coletiva e da consciência social, expressar a própria liberdade, agir de acordo com a própria consciência, significa também agir com responsabilidade, respeitando o outro, para que o outro me respeite. E a violação dessa responsabilidade, significa violação do Direito Natural que acompanha todos os indivíduos por todos os lugares. Significa violação da consciência coletiva e social. Logo, é uma violação das regras da Consciência Individual. Portanto, uma forma de inibição da liberdade. Isto significa que violar a liberdade do outro significa violar a minha própria liberdade. Desrespeitar a liberdade do outro é desrespeitar a minha própria liberdade. Atingir a consciência do outro é atingir a minha própria consciência. Atingir o Direito Natural é atingir a minha própria pessoa.

Então, alguém dirá: este é o tal do contrato social ? Eu respondo: não. Não existe contrato social. Isto é um paradigma cultural. Qual é a diferença ? Bem, a diferença é que contrato começa com c e paradigma começa com p (brincadeirinha... disse isto só para o meu cérebro chato parar de fazer perguntas.). A diferença é que um contrato é um acordo de vontades, estabelecido com a aceitação da partes e uma paradigma é uma ação padronizada que se perpetua no tempo, neste caso é um comportamento cultural, que pode ter começado com apenas duas pessoas e, a partir daí, se espalhou para todas as demais, independentemente de aceitação ou de acordos. Você assinou, quando nasceu, algum contrato social que transferia parte de sua vontade/liberdade ao governante para criar normas para te proteger? Não, não e não... O teste do pezinho não era um contrato...

Contudo, aprendemos, desde criancinhas, as regras e o comportamento social. Aprendemos a respeitar o outro. A respeitar a Liberdade do outro, a consciência do outro. As normas e regras fundamentais do Direito Natural são passadas/ensinadas naturalmente, são paradigmas sociais que passam de geração para geração. Certamente, este paradigma cultural começou com o desenvolvimento da consciência coletiva, com o desenvolvimento das regras na família. Em seguida, vieram as regras de convivência em uma tribo. Da consciência coletiva desenvolveu-se a consciência social. A consciência social exigiu o surgimento da consciência política. Esta levará ao desenvolvimento de uma consciência cosmopolita. Há uma evolução cultural da consciência. As regras vão sendo construída e aprimoradas ao longo dos séculos e milênios. E o Direito Natural passa de geração para geração, algumas vezes relativizado, outras mais duro e conservador.

Com isto, podemos retornar ao caso dos nazistas que operavam o sistema totalitário. Agora já temos as respostas para as indagações. Primeiro, há uma íntima relação entre consciência, liberdade e responsabilidade. Esta relação é permeada pelo Direito Natural que pertence à esfera da consciência individual dos seres humanos, pois são normas e regras de rotina que regem e regulam o próprio funcionamento da consciência e do indivíduo como sistema. Este Direito disseminou suas normas e regras pelas consciências coletiva e social, que são subsistemas da consciência individual. Logo, agir de acordo com a própria consciência significa, necessariamente, agir de acordo com o Direito Natural. E agir de acordo com o Direito Natural é agir com responsabilidade. Isto fica evidente quando se pensa que a consciência, para o seu funcionamento, exige informações e conhecimentos. E que o funcionamento da consciência consiste em processos analíticos. Processos analíticos são, pela própria natureza, lógicos, razoáveis e responsáveis.

Mas se os processos analíticos são lógicos, razoáveis e responsáveis, o que aconteceu no nazismo ? O primeiro acontecimento do nazismo foi a deturpação da informação e do conhecimento que atribuiu relevância social máxima a patologias/aberrações sociais. Lembre-se que no âmbito da consciência as informações e os conhecimentos são catalogados, por cada indivíduo, de forma diferente e em graus diferentes. O anti-semitismo tinha uma grande relevância na cabeça de Wagner e de Hitler e ele generalizou isto para a sociedade. O anti-semitismo é uma patologia social e não um elemento da sociedade. Os nazistas transformaram o anti-semitismo em uma política do Estado.

Portanto, neste primeiro ponto o Direito Natural foi violado, pois a generalização para toda a sociedade de visões particulares significa a violação da consciência individual do outro, violação da consciência alheia. É uma imposição anti-natural, imposição de mentiras e aberrações sociais como verdades absolutas.

Com estas deturpações, a consciência, como sistema analítico, foi contaminada e passou a operar com dados falsos e a considerar aberrações sociais como comportamento comum e necessário. Com isto, o sistema totalitário começou a entrar na cabeça das pessoas e a dissolver as consciências naturais que possuíam e que não consideravam o anti-semitismo importante. Os mecanismos de uniformização das consciências tratou de disseminar as regras do sistema totalitário para todas as demais consciências.

Portanto, ocorreu uma violação do Direito Natural, violação da consciência, logo violação da liberdade. Esta violação ocorreu, primeiramente, na generalização/imposição para toda a sociedade das aberrações sociais que existiam na cabeça dos líderes nazistas, por exemplo, as idéias anti-semitas foram espalhadas e disseminadas, na sociedade alemã, através da mídia e da propaganda, como verdades absolutas. Idéias que por si sós, já constituíam violação da liberdade do outro. Com isto, os operadores nazistas, violaram os princípios básicos da consciência, as normas e regras do Direito Natural. E esta violação foi dirigida inicialmente, não contra os judeus, mas contra o próprio povo alemão que foram bombardeados com informações e conhecimentos falsos e que tiverem suas consciências individuais invadidas pelas aberrações nazistas.

Lembre-se que primeiro o nazismo dominou os alemães, tornando-os instrumentos do totalitarismo. Depois usou estes instrumentos para exterminar os inimigos nas fábricas da morte. Logo, o extermínio dos Judeus é a última e a mais monstruosa das violações que os nazis promoveram. Este extermínio começa a se concretizar quando o sistema totalitário já está no domínio completo da maioria das consciência e as pessoas comuns atuam como zumbis, movidas por desejos totalitários, ou seja, os indivíduos já são instrumentos totalitários de dominação e destruição.

Além disso, é válido dizer que a única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é retirando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem retirar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Contudo, as normas e regras do Direito Natural podem remover a consciência do indivíduo, logo a sua liberdade, se forem removidas, pois são normas de auto-proteção da consciência e do ser humano. Normas e regras que o salvam do outro, do grupo coletivo, da ação da sociedade e do Estado. Portanto, retirar normas de Direito Natural atinge a consciência e a liberdade do indivíduo.

Retirar a consciência do indivíduo significa contaminar o funcionamento natural da consciência, modificando a base de análise. É uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente, é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa. Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último banco de dados que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade viciada e contaminada não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

É importante observar que a consciência introjetada pelo sistema totalitário no indivíduo não tem Direito Natural na rotina. As normas e regras de auto-proteção da consciência individual da pessoa e do ser humano são transformadas em normas e regras de proteção do sistema totalitário. Assim, o indivíduo se torna um zumbi cumpridor das leis do sistema, morre defendendo o sistema e o sistema se torna a coisa mais importante do mundo, mais importante do que a sua própria vida. Logo, há um Direito Natural do sistema totalitário que torna o indivíduo parte do sistema. Ele perde a sua identidade e a sua individualidade e passa a ser uma peça da grande máquina totalitária.

Eichmann tinha vontade, ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida a informações e conhecimentos introjetados pela doutrinação e propaganda nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, fórmulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos que tinha adquirido naturalmente. Apenas executava as ordens originadas nos altos escalões do Reich.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

"Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)"

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam a indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Contudo, o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a doutrinação, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema.

Um outro ponto interessante desta Teoria é que o totalitarismo entra pela consciência política, dominando e modificando as regras desta consciência. Em seguida ele vai para a consciência social. Ele modifica e domina as regras do Direito Positivo. E o próximo passo é entrar na consciência coletiva, na moral, na ética, nas relações de amizade e na família. E por último, quando já tem o domínio desses subsistemas da consciência, ele ataca e contamina a consciência individual, eliminado o Direito Natural e substituindo a consciência individual natural pela consciência do sistema.

18/01/2008

Fragmentos da Teoria Consciência e Liberdade
Teoria em construção (Clique aqui para ler o resto)
(...) E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

A retirada de consciência, assim como a substituição das consciência individuais é muito mais fácil onde existe massa. Isto porque, de acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de retirada de consciência dos indivíduos, acompanhados pela instalação da consciência dos sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa. A mão totalitária invisível ataca toda a sociedade de uma vez. E o registro mais preciso do uso desse método é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferentes e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, esta atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para eliminar a consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social.

Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. Ao mesmo que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural.

No rodapé da página 413 desta obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism", Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário eliminando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade de cada pessoa:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.
Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso ?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso ?" " Por que ?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida por informações e conhecimentos introjetados pelo movimento nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens originadas.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

Outra passagem de Hannah Arendt que evidencia a retirada de consciência individual está na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism" e diz:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

12/01/2008

Liberdade e Direito ao Sigilo
Seminário da Faculdade de Direito da USP - segundo semestre de 2005
Disciplina: Filosofia do Direito -- Professor Celso Lafer

I. Público e Privado: o direito à informação e o direito à intimidade (Prof. Celso Lafer):

A. Parte Geral:

1. Direitos Públicos e Privados:
- Distinção: concepção grega e duas acepções básicas
- Definição dos conceitos de direito à intimidade e direito à informação

2. Necessidade de preservação do espaço público comum:
- Conceito de mundo como espaço comum público, permanente e durável
- Problema da mentira e primazia da verdade factual
- Problema do segredo na esfera pública
- Problema do parecer autêntico e inautêntico

3. Diluição da distinção entre o público e o privado - a emergência do social
- A transformação da economia de caráter caseiro em atividade especializada
- A emancipação do trabalho como direito coletivo e público
- A propriedade privada com conotação pública

4. Necessidade de preservação do espaço privado
- A proteção da intimidade como reação ao "conformismo nivelador" da sociedade
- O princípio da exclusividade como limite ao direito de informação
- Os riscos de transposição do privado ao público - banalização do público e afastamento da realidade

B. Parte Especial

1. Garantia da possibilidade de pluralidade e diversidade
- Prevenção da ruptura totalitária através do exercício adequado "ex parte populi" dos direitos humanos

2. Totalitarismo: modo de operação
- Propaganda e ideologia instrumentalizada pelo terror
- Segredo: impacto na população
- Mentira: destruição da verdade factual
- Violência: exclusão da interação cooperativa

3. Conseqüências
- idiotice e desolação alienante: destruição da esfera pública através da eliminação da esfera privada;
- Anulação da liberdade de opinião: dissolução da verdade, força estabilizadora da esfera pública.

II. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado (Prof. Tércio Sampaio Ferraz Júnior)

1. Direito Público e Privado: evolução histórica
- Gregos x Romanos
- Dias atuais

2. Direito à privacidade, intimidade e sigilo
- Distinção
- Dispositivos constitucionais

3. O direito ao sigilo
- Os dados
- O sigilo da comunicação
- A autoridade fiscal

III. Liberdade de informação e privacidade ou o paradoxo da liberdade (Prof. Tércio Sampaio Ferraz Júnior)

1. Honra pessoal x Liberdade de imprensa e de opinião
- O standard da actual malice e a questão das relações públicas
- A comercialização da informação x a proteção de direitos fundamentais
2. Paradoxo da consciência livre: consciência x normas
3. Conceito de liberdade: aspectos positivos e negativos da liberdade; conceito vazio e seu preenchimento material

IV. Público/Privado - Suas configurações contemporâneas para a temática dos arquivos (Prof. Celso Lafer)

1. Público - comum x privado: não comum;
2. Democracia: direito à informação;
3. Segredo: elemento de poder (razão de Estado);
4.Arquivos públicos: preservação, pleno acesso x documentos sigilosos;
5. "Ficar preso ao segredo significa ter o dever de não revelá-lo; o dever de não revelá-lo implica o dever de mentir" (Bobbio);
6. Abuso do direito de sigilo: receio de escândalo.

V. A verdade republicana (Prof. Fábio Konder Comparato)

1. Princípio elementar: crimes cometidos por agentes públicos nunca podem ser subtraídos ao conhecimento público;
2. Princípio da dignidade da pessoa humana;
3.Legitimidade do sigilo: comprovação caso a caso;
4. Inovação da ditadura militar: não se pode abrir um processo-crime por homicídio sem a apresentação do corpo delito (cadáver) - desaparecimentos.
5. Lei da Anistia: somente o povo poderia tê-lo feito.

Alunos que fizeram este seminário: Leonardo Müller, Luana Yoko Vieira Komatsu, Luis Gustavo San Jorge, Marcos Pajolla Garrido, Mariana Magalhães Chapei, Mirella Maria Sakamoto, Princila Andrea Rocco Ignácio, Priscila Gurgel Menezes, Rafael Sacavone bellem de Lima, Roberto Sebastião Peternelli Neto.
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Quando aconteceu este seminário, na época, eu o considerei como mais um seminário de alunos. Logo, não atribui nenhuma relevância maior. Contudo, hoje, quando repasso as minhas papeladas e encontro as anotações deste seminário, percebo que ele não foi apenas mais uma apresentação superficial de aluno do terceiro ano. Foi, na verdade, uma reflexão profunda sobre a questão da Liberdade e Direito ao sigilo, a partir da visão de grandes filósofos do Direito Brasileiro: Prof. Celso Lafer, Prof. Tércio Sampaio e Prof. Comparato.

E digo isto não porque estou estudando a questão da Consciência e da Liberdade, mas porque este tema está na ordem do dia. É a questão da abertura dos arquivos militares, da operação Condor, da quebra do sigilo fiscal, etc...

Considero a reflexão do seminário muito importante para os nossos dias. Uma reflexão que deve ser refeita e isto não deve ser feito apenas por mim, mas sim por todos aqueles que estão pensando questões ligadas a estes temas. Logo, não posso monopolizar os dados transmitidos pelo seminário. Tenho que compartilhar o que encontrei. Por isso, digitei o texto e estou publicando-o.

A base da evolução cultural é o compartilhamento gratuito de conhecimentos, saberes e idéias. Precisamos tornar esta base um costume de nossas vidas, precisamos fomentá-la, disseminá-la. Esta base é a cultura OCW.

06/01/2008

Não é responsabilidade. É Direito Natural.
Resolvi a encrenca. O texto que, inicialmente, tinha o nome de "Consciência, Liberdade e Responsabilidade", passa, agora, a ter o nome de "Consciência, Liberdade e Direito Natural".

Isto porque o termo "responsabilidade" não definiu exatamente a realidade que eu expressei. O termo correto para tal realidade é "Direito Natural". Certamente, terei que fazer alguns ajustes na definição tradicional deste último termo. Contudo, ele se enquadra como uma luva na realidade descrita. Vou reescrever o texto.

04/01/2008

Eichmann, Hitler e São Francisco
Em um dos últimos posts deste blog, eu escrevi o seguinte: "A percepção é uma coisa surpreendente. Você percebe Deus e as coisas divinas, mas também percebe o diabo e os seus ardis... E a consciência escolhe o lado que quer ficar, o lado que quer atuar. É o livre-arbítrio da consciência. Não há diferença entre a consciência de Hitler e a consciência de São Francisco. Há apenas escolha... caminhos completamente diferentes."

Depois que escrevi isto fiquei pensando na questão da diferença, ou seja, na frase: "Não há diferença entre a consciência de Hitler e de São Francisco". Fiquei refletindo para ver se não tinha cometido algum excesso ou erro. E toda a reflexão girava em torno de: a questão da consciência está bem colocada ? Se eu inserir Eichmann no parágrafo anterior, muda alguma coisa ?

Eu disse que entre Hitler e São Francisco não há diferença na consciência, somente escolha. Em outras palavras, as consciência de Hitler e de São Francisco se desenvolveram naturalmente, sem nenhum tipo de interferência significativa externa. Hitler e São Francisco acessaram os conhecimentos que queriam e viveram da forma que queriam, seguindo o caminho que queriam.

Portanto, Hitler e São Francisco eram livres, agiam livremente, pois expressavam livremente suas consciências. Mas e Eichmann ?

Se inserirmos Eichmann na história, a coisa muda. Entre a consciência de Eichmann e São Francisco há diferenças. Entre a consciência de Eichmann e Hitler há diferenças. Após a instalação do nazismo e após a disseminação em massa dos seus ideais, através da mídia e da propaganda, operou-se, na Alemanha, uma verdadeira lavagem cerebral nos seguidores do regime. O sistema totalitário assimilou as consciências individuais, substituindo-as pela consciência do sistema.

A consciência natural desses indivíduos foi arrancada e em seu lugar introduzida a consciência do sistema totalitário. Crenças e idéias que não eram importantes, ou irrelevantes, para esses indivíduos, antes da instalação do nazismo, após o domínio totalitário tornaram-se a razão de ser de suas vidas. Crenças como o anti-semitismo, o extermínio do inimigo, a irrelevância da vida, etc entraram na ordem do dia. A banalização do mal se disseminou pela sociedade.

Esta mudança de consciência ocorreu em Eichmann, mas não ocorreu em Hitler e nos demais operadores do sistema do totalitário. Os operadores do sistema estavam imunes às mentiras, pois eles produziam e disseminavam as mentiras. Eles estavam imunes ao terror, pois eles eram o terror. Eles estavam imunes à propaganda, pois eles criavam as propagandas.

Portanto, Hitler e São Francisco eram livres, seguiam suas próprias consciências, expressavam suas próprias consciências. Mas Eichmann não era livre, pois ele perdeu a sua consciência natural e recebeu a consciência do sistema totalitário. Ele seguia esta consciência, ele expressava esta consciência e a liberdade que ele exercia tinha origem na consciência totalitária. Logo, era a liberdade do sistema, não a sua liberdade natural.

Inclusive, Hannah Arendt, na obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, nas páginas 152 e 153, conta que Eichmann, durante o seu interrogatório, narrou que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant e, particularmente, segundo a definição kantiana do dever. Não acreditando nisso, o Juiz Raveh insistiu na história e Eichmann, para a surpresa de todos, deu uma definição quase correta do imperativo categórico kantiano: “O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais”. O que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los, assinala Arendt. (p. 153).

Contudo, a maior evidência de que o sistema totalitário assimila a consciência das pessoas, toma conta de suas vontades e ações, utilizando-as como instrumento de seus desígnios aparecem no momento seguinte, quando Eichmann conta que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explica que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, “deixara de viver segundos os princípios kantianos”, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais “senhor de seus próprios atos”, de que era incapaz de “mudar qualquer coisa”. (p. 153).

Uma evidência de que há diferença entre a consciência de Eichmann e a consciência dos operadores do sistema totalitário aparece na página 155 de Eichmann em Jerusalém. Esta página conta o conflito entre Eichmann e seus superiores, durante o último ano da guerra:

"Cumprir seu "dever" acabou fazendo com entrasse em conflito aberto com as ordens de seus superiores. Durante o último ano da guerra, mais de dois anos depois da Conferência de Wannsee, ele experimentou sua última crise de consciência. Com a aproximação da derrota, ele se viu confrontado com homens de seu próprio escalão que lutavam mais e mais insistentemente por exceções e até pela cessação da Solução Final. Foi o momento em que sua cautela se rompeu e ele começou, mais uma vez, a tomar iniciativas - por exemplo, ele organizou as marchas a pé dos judeus de Budapeste até a fronteira da Áustria, depois que o bombardeio aliado arrasou com o sistema de transporte. Era o outono de 1944, e Eichmann sabia que Himmler havia ordenado o desmantelamento das instalações de extermínio em Auschwitz e que o jogo acabara. "

Marilde Loiola de Menezes (Professora da UNB) escreve no prefácio do livro de Nerione Cardoso, Hannah Arendt e o declínio da esfera pública, página 20, as seguintes considerações:

"Convidada pela revista The New Yorker para fazer a cobertura jornalística do evento, Arendt fez muito mais do que um relato. Refletiu sobre o terror, o extermínio das pessoas e, sobretudo, a razão pela qual o "mal" poderia ser banalizado ao ponto de ser aceito por uma grande maioria da população, incluindo os burocratas convictos de que "estavam cumprindo ordens". Eichmann era um deles. Obedeceu ao nazismo certo de estar cumprindo o dever de servidor do Estado; como bom soldado e cidadão, acatava, simplesmente, as ordens de seus superiores. Era, assim, um tipo comum: obediente, fiel às autoridades e cumpridor dos seus deveres. Graças à sua obstinação e zelo, chegara mesmo a um posto de relevância na burocracia do Estado. No julgamento, era acusado de participação direta na "solução final" que levou milhões de judeus aos campos de extermínio nazista. Não que tivesse nada de pessoal contra eles - "até tinha alguns amigos que eram judeus" -, mas aquela era a política do Estado sendo, portanto, o seu dever obedecê-la. Mesmo quando essa "política" feria o princípio mais elementar da tradição cristã - não matarás -, a obsessão pelo cumprimento do dever parecia que obliterava a sua condição de pensar.

Estarrecida diante dos fatos, mas, ao mesmo tempo, esquivando-se da paixão reinante, Hannah Arendt pôde ver Eichmann em toda a sua mediocridade: um arrivista de pouca inteligência, uma nulidade pronta a obedecer a qualquer voz imperativa, um funcionário incapaz de qualquer discriminação moral. Em suma: um homem sem consistência própria no qual os clichês e eufemismos burocráticos estavam profundamente internalizados. Longe da idéia de um monstro, psicopata, perverso, Eichmann era um tipo comum, tão banal quanto o próprio mal que internalizara como parte de seu caráter. Apenas dava a impressão de que a obstinação pelo cumprimento das ordens o impedira de pensar."

Este último parágrafo de Marilde Loiola de Menezes (Professora da UNB) descreve um homem que é um instrumento de um sistema. É uma ferramenta do sistema totalitário. Um homem desprovido da própria consciência, logo incapaz de pensar por si mesmo, mas movido pela vontade do sistema. Movido pela vontade inexóravel de cumprir as ordens do sistema. As ordens do sistema são a vontade do sistema. As ordens do sistema, vontade do sistema, se tornaram a própria vontade de Eichmann.

Uma outra consideração interessante de Marilde Loiola está no parágrafo seguinte que diz:

"A experiência do funcionário nazista se constitui numa das primeiras constatações da autora entre a suspensão do pensar e a banalização do mal. Não que tivesse a ingenuidade de acreditar que somente os que não possuem pensamento crítico possam cometer o mal. Não era essa a questão. O problema só se punha na medida em que esse mal era aceito por todos ou por uma expressiva maioria: a subserviência sem discussão. Esse era o sentido daquilo que a autora designava por banalização do mal. "

Portanto, o sistema totalitário assimila, domina, a consciência dos indivíduos. Inicialmente, a dominação começa com o controle da consciência política, ou seja, da liberdade política, um subsistema da consciência individual, da liberdade individual. A partir desse subsistema, o totalitarismo ataca, contamina e domina as demais consciências, que também são subsistemas, por exemplo, a consciência coletiva. E o controle total ocorre quando a consciência individual é completamente assimilada pelo sistema totalitário.

Neste ponto a capacidade de pensar por si mesmo, ou seja, o uso natural da consciência da pessoa, é paralisada. Os pensamentos (processos mentais) recebem uma nova-matéria para seus processos. A matéria-prima (informação e conhecimento) introjetada pelo totalitarismo. Forma-se assim uma consciência totalitária dentro do indivíduo.

Cansei de falar sobre isto....

31/12/2007

O sacrifício da liberdade pela igualdade
O sacrifício da liberdade pela igualdade não vale a pena. Não vale a pena porque sacrificar a liberdade significa sacrificar a consciência. E a igualdade, entendida como condição, é uma coisa fora do organismo humano. A liberdade integra a essência do humano, a igualdade não.

Mais do que isto, ambos, liberdade e igualdade, são criações da consciência. Contudo, a liberdade é a forma da consciência se expressar e respirar. Liberdade é o Poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou então, é o poder do indivíduo de executar as ordens da própria consciência. Logo, ela está ligada à essência. Quando colocamos a igualdade em cima da liberdade, a consciência para de se expressar e respirar.

A implantação da uniformidade, imposta pela igualdade, mata a liberdade e faz a consciência murchar. Murcha porque cada consciência é unica, é diferente, é desigual. Isto é natural. As coisas devem ser assim. Impôr uma uniformidade de cima para baixo atinge esta essência e a vida torna-se um fardo, um inferno.

A igualdade, entendida como uniformidade de características humanas, não deve ser buscada. Devemos buscar a redução das desigualdades sociais. Mas a igualdade entre os homens como seres humanos é uma aberração. Não existe humanos puros, raça pura, sangue azul. E se não existe, impôr isto na sociedade é ir diretamente contra a essência do humano que é diferente por natureza.

É trazer algo de fora (uma máscara de ferro) e colocá-la na cabeça. É isto que a igualdade, entendida como igualdade social, faz com a liberdade. Quando imposta, a igualdade é uma máscara de ferro colocada sobre a liberdade. Contudo, o corpo não suporta uma máscara de ferro por muito tempo, assim como a liberdade.

A liberdade não pode, também, correr livremente por aí. É preciso limitá-la ,em alguns aspectos, para que a vida em sociedade seja possível e harmoniosa. A igualdade entre humanos (características) não é desejável e nem deve ser almejada. Somos diferentes por natureza. Contudo, as desigualdades sociais devem ser reduzidas ao mínimo possível. Desigualdades sociais são condições e não características humanas.

10/10/2007

A importância dos EUA para o mundo

Eu sou um crítico feroz de algumas ações do Governo norte-americano. Contudo, reconheço, assim como qualquer pessoa sensata reconhece, que o desenvolvimento mundial atual e as tecnologias que temos e utilizamos hoje nasceram nos EUA. Logo, o planeta tem uma grande dívida com o povo norte-americano. E é justamente por isso que não podemos deixar essa grande nação regredir em suas conquistas e/ou trilhar caminhos que levem à destruição. Precisamos criticar as condutas nefastas do Governo dos EUA, mas também sugerir soluções que ajudem essa nação a se manter firme em seu propósito de promover as Democracias e a liberdade dos indivíduos no mundo, assim como a proteção dos Direitos Humanos.

Certamente, alguns indivíduos, ao lerem o parágrafo anterior, já torceram o nariz e começaram a pensar/vomitar besteiras, principalmente se forem chavistas. Para estes indivíduos peço coerência e sensatez. Se são contra os EUA e o Povo Norte-Americano, a primeira coisa que Vocês devem fazer é pegar o computador e jogar pela janela. Parem de usar a internet imediatamente e voltem a usar sinal de fumaça, pombo-correio, etc... Logo, a segunda coisa é arrancar o cabo de internet e de telefone no dente, pois também foram tecnologias criadas nos States. Além disso, liguem para a empresa de eletricidade e peça para ela desligar a energia elétrica, pois foi um gringo que desenvolveu o negócio, sem contar que vocês devem quebrar as lâmpadas (Thomas A. Edison que inventou), etc. Enfim, se não fossem os EUA, com seu investimento maciço em pesquisas científicas e a inteligência do Povo norte-americano, não teríamos o desenvolvimento tecnológico que temos hoje no planeta...

Isso é esquecido por muitos que só sabem falar mal dos norte-americanos. Não só esquecem, como vão falar mal dos gringos no McDonald, enquanto comem um Big Mac e tomam uma coca-cola, ou durante algum filme de HollyWood no Shopping mais próximo, ou então, via email do Google, Yahoo ou coisas parecidas. Eu não sei se esses indivíduos são burros ou o quê... Sei apenas que é gente que deve ser ignorada, pois entre suas palavras e suas ações há um abismo de contradição, incoerência e insensatez...

Isso não significa que temos que aceitar intervenções e guerras dos EUA em outras nações, etc... Significa que temos que criticar os erros e aplaudir os acertos dos EUA... Não só isso, significa que temos que auxiliar o Governo Americano na promoção da Democracia, das liberdades e dos Direitos Humanos no mundo. Precisamos dar efetividade a esses ideais. Certamente, respeitando as culturas e os costumes de cada povo, mas atacando a opressão, a tirania, as exclusões e as explorações...

E cito como exemplo o caso de Myanmar, Mianmar ou Mianmá (a antiga Birmânia ou Burma). Os EUA impuseram embargos ao País e os outros países, o que fizeram ? Muitos não fizeram nada, alegando a soberania interna daquele Estado Nacional. Contudo, é um Estado que subjuga seu povo, que mantém uma sangrenta repressão e um controle rígido sobre o pensamento... Isso é natural ? Gostaríamos de viver em um país assim ? Se estivéssemos em um país assim, não gostaríamos que uma outra nação mais poderosa fosse nos libertar ? Certamente que sim... Portanto, temos que apoiar a ação americana que busca libertar esse povo, assim como libertou o Iraque do Saddam.

Contudo, não podemos esquecer que muitos dos ditadores que andaram/andam por aí foram resultados de ações norte-americanas durante a guerra fria. Mas o próprio EUA sofreram as conseqüências de terem apoiado e treinado esses grupos. Um exemplo claro disso é o Bin Laden que é cria dos EUA, treinado pela CIA. Outro caso foi o próprio Saddam e seu regime sanguinário. Isso tem que ser lembrado para não se repetir, ou seja, os EUA devem apoiar a libertação de um Povo e não o domínio de uma classe, ou de um ditador, sobre a população. Logo, as ações devem ser dirigidas em favor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos da população.

Os demais países precisam sentar com o Governo norte-americano e discutir, planejar e auxiliar na promoção da democracia, das liberdades e dos direitos humanos pelo mundo. Devem fazer isso para não dizer depois que os EUA são um império, que forçam a implantação da democracia, da liberdade e dos direitos humanos pelo mundo... Se eles forçam isso, penso que estão no caminho certo, pois ninguém quer viver subjugado, embaixo de botas militares ou de governos ditatoriais.

O mundo acadêmico, assim como o mundo dos negócios, reconhecem a importância dos EUA para o planeta. Reconhecem que alguém deve liderar a disseminação da liberdade e o fim da escravidão política, pois cada povo deve ter o direito de escolher os seus governantes e o seu destino. E os EUA desempenham bem esse papel. Certamente, cometem alguns excessos que podem ser corrigidos, mas são bons líderes nessa área. Por isso, devem ser apoiados e aplaudidos.

No mundo dos negócios os EUA aparecem como um dos maiores consumidores de produtos importados do planeta. Inclusive o Professor Rubens Ricupero, no artigo "Os Estados Unidos e o comércio mundial: protecionistas ou campeões do livre-comércio?"
(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142002000300002&script=sci_arttext) da Revista de Estudos Avançados da USP de (vol.16 no.46 São Paulo Sept./Dec. 2002) faz a seguinte afirmação:

"Tive, sobretudo, receio de reduzir a uma simplificação distorcida da realidade que é extraordinariamente mais complexa. No ano em que o Congresso e o Executivo de Washington reafirmaram a disposição de proteger setores não-competitivos da economia com uma série encadeada de três graves medidas unilaterais - as salvaguardas para o aço, a nova lei agrícola e o mecanismo de consulta especial do Trade Promotion Authority ou fast track - seria absurdo negar a realidade do protecionismo que viceja às margens do Potomac.

Contudo, nesse mesmo ano e nos quatro ou cinco precedentes, o déficit em contas correntes aumentou constantemente até superar os 4% e aproximar-se dos 5% do PIB, devido ao insaciável apetite por importações de uma economia que é obviamente uma das mais abertas do mundo. É possível chamar de protecionista um país que se tornou, na segunda metade dos anos de 1990, a única fonte importante de demanda de importações, uma espécie de gigantesco "buraco negro" que vem engolindo parcela apreciável do excedente de mercadorias mundiais, dos calçados baratos chineses aos sofisticados supercondutores sul-coreanos? Quem ignora que hoje a China e o México, ontem (e ainda agora) todos os temíveis tigres asiáticos, desde o Supremo Dragão japonês até as Filipinas e a Indonésia, passando por Taiwan, Hong Kong, Cingapura, Malásia, Tailândia, devem, sem exceção, o essencial do seu êxito exportador aos vorazes mercados ianques? "

Além disso, muita gente diz que os EUA são um império, que escravizam os demais países, etc. Quem diz isto, não sabe o que está falando, pois se os EUA fossem um império, nós estaríamos perdidos, uma vez que o exército americano tem poder para intervir em qualquer ponto do planeta. Seria, certamente, o maior e mais poderoso império da terra e nós seríamos servos de Washington. Isso não acontece. Se há supremacia militar e econômica, essa supremacia é usada com moderação e com respeito às regras do jogo. Certamente, há ponto isolados, mas o todo mostra que os norte-americanos respeitam e cumprem as regras estabelecidas. Se fossem um império, isso jamais aconteceria. Não cumpririam nada, não negociariam nada e suas posições seriam impostas.

Além disso, eu pergunto: O que a China faz com os Noam Chomsky chineses ? O que Cuba faz com os Noam Chomsky cubanos ? O que o Chaves faz com os Noam Chomsky venezuelanos ? Contudo, o Noam Chomsky dos EUA vive tranquilamente em seu país... Isso é liberdade de expressão, de ação, de crítica, etc. E essa liberdade tem que estar presente em todos os países do mundo, pois o ser humano nasceu para ser livre e não para ser escravo.

E aqui entra um outro ponto importante. Não podemos permitir que os EUA trilhem caminhos que levem ao totalitarismo. Não podemos permitir a decadência da república norte-americana, pois se o poder norte-americano cair nas mãos de um agente totalitário, um Adolf Hitler da vida, estaremos perdidos e condenados.

Isso se aplica não só aos EUA, mas a todos os países. Contudo, a trilha do totalitarismo é, sem dúvida nenhuma, um caminho de fracasso. Foi seguida por inúmeras nações e todas elas chegaram no mesmo ponto: a queda do regime. Isso porque um regime totalitário carrega consigo o germe de auto-destruição. Mais cedo ou mais tarde, nesta geração ou na próxima, daqui a 10, 100 ou 1000 anos o germe de autodestruição é ativado e o regime desmorona. Por que isso acontece ? Acontece por uma razão simples: o totalitarismo tira dos homens a individualidade, a liberdade, a iniciativa, a capacidade de pensar, criar e ser feliz. E sem esses elementos o homem não se desenvolve e não evolui.

Quando os indivíduos, dentro do sistema totalitário, percebem isso, o germe é ativado e o regime cai. Cai porque o totalitarismo é um sistema. E são os homens que criam os sistemas e não os sistemas que criam os homens. Portanto, um sistema totalitário está fadado ao fracasso e à destruição. Contudo, enquanto sobrevive causa grande mal e sofrimento aos seres humanos.

Esta é uma outra razão pela qual temos que apoiar os EUA. As ações do Governo norte-americano, promovendo a democracia, as liberdades e os direitos humanos, inibem e sufocam as intenções totalitárias, matam o germe totalitário antes que ele nasça, pois totalitarismo e liberdade não combinam, assim como totalitarismo e direitos humanos são inimigos. Inclusive temos que lembrar que os norte-americanos salvaram o planeta das principais manifestações totalitárias que se levantaram: o nazismo de Hitler, o comunismo da URSS e outros regimes totalitários que estão sendo sufocados aos pouco...

E para terminar esse texto faço algumas sugestões, ao governo americano, na luta contra o terrorismo:

1) Atacar as causas e não os grupos... Um grupo terrorista só se mantém se existir uma causa alimentando-o, sem causa nenhum grupo se sustenta ou consegue apóio.

2) Lembrem ao mundo, aos países e às pessoas, as conquistas tecnológicas que os EUA obtiveram para a humanidade. Lembrem todas as conquistas e invenções e digam: "Isso aqui fomos nós que inventamos..." Isso dará aos indivíduos uma dimensão da importância dos EUA para a humanidade.

3) A imagem dos EUA está muito ligada a guerras, armas e violência... O Governo norte-americano deve fazer campanhas mostrando a importância da Democracia, das Liberdades e dos Direitos Humanos, principalmente, mostrando que as riquezas dos EUA, assim como a sua estabilidade política derivaram da união dessas características.

4) Os EUA devem evitar ao máximo ações que contrariem os princípios que pregam, principalmente, violações de direitos humanos (Guantánamo, invasão de privacidade, etc), quebra de princípios democráticos e ações unilaterais ou contrárias ao consenso universal. Se querem liderar, devem ser o exemplo e dar o exemplo.