Democratizar o conhecimento e socializar os saberes como ferramenta para transformação social e econômica. Democratizar e socializar para reduzir as desigualdades regionais. Democratizar e socializar para dar oportunidades. Democratizar e socializar para dar esperanças e certezas de um futuro melhor. O poder transformador do conhecimento, monopolizado e retido nas melhores Universidades Públicas, tem que ser disseminado, gratuitamente, para toda a sociedade.

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27/06/2008

A ONU e as drogas
A posição da ONU, a favor da repressão e proibição das drogas, é um grave erro e um grande entrave para a solução desse problema. Sabemos perfeitamente que somente a descriminalização dos entorpecentes é capaz de quebrar junção drogas + armas + violência. Isto é um fato, uma verdade. Não há outro caminho para resolver o problema. Mesmo assim, o interesse de quem ganha com a desgraça e com a violência continua alimentando a proibição e a repressão...

A ONU deveria buscar uma solução para o problema e não disseminar, para todo o planeta, a repressão e a proibição, ou seja, disseminar uma guerra que ceifa milhares, talvez milhões, de vidas humanas. Mas, como é interesse dos EUA continuar proibindo, a ONU assimila a posição e continua disseminando, em suas resoluções, a estupidez da repressão e da proibição...

E o efeito colateral desta posição é imediato: perda de legitimidade das Nações Unidas, ampliação da violência em todo o planeta, aquecimento das indústrias globais de armas, fonte de recursos para os grupos radicais e para o terrorismo.

Isto é fato. Quem quer criar um grupo radical, um grupo terrorista, vê no narcotráfico a primeira grande fonte obter financiamento. Não só isto, onde há drogas há armas. Onde há armas há drogas. Os dois negócios andam juntos, de mãos dadas... Isto aparece na necessidade de equipar as forças de segurança para combater o narcotráfico. E também na necessidade dos traficantes de se armarem para defender o negócio. Resumindo: as drogas alimentam o mercado negro de armas de todos os tipos...

Inclusive, no livro "QUIEN BENEFICIA LA COCAINA ?" de MYLÉNE SAULOY E YVES LE BONNIEC há uma passagem interesse sobre a compra de armas pelo governo colombiano para combater o narcotráfico. O navio de armas veio lotado. A metade foi entregue para os laranjas de narcotraficantes colombianos que estavam no Caribe e a outra metade foi entregue para o governo colombiano. Ambos, governo e narcotraficantes, adquiriam armas da mesma fonte, para se enfrentarem na guerra das drogas.

Quem defende a repressão e proibição das drogas e o acirramento da guerra tem que se afastado imediatamente das funções públicas que exerce. Este tipo de gente tem que se acusado formalmente de serem lobistas da indústria de armas, do terrorismo, do autoritarismo e do controle direto pelo Estado da vida alheia. Também podem ser acusados de terem baixo QI, ou seja, pouca inteligência para ocuparem cargos públicos.

Nós não temos que aceitar esta guerra que promovem contra todos e que mata a tiros quem não tem nada a ver com a história. Se eles querem guerra contra as drogas, deveriam ir para o front trocar tiros com os narcotraficantes. Enquanto estiverem mandando os outros irem para a guerra, não vão parar com ela...

Mais uma coisa... a ONU esteve no Rio e constatou as execuções sumárias da Polícia. Execuções sumárias ligadas diretamente à repressão e proibição das drogas... Execuções que são violações aos Direitos Humanos promovida pela luta contra as drogas. Logo, quando a ONU sugere a intensificação da guerra contra o narcotráfico, também está sugerindo a violação de Direitos Humanos e tudo o mais que esta guerra estúpida ocasiona...

Além disso, a verdade tem que ser dita, a maioria das drogas apreendidas continuam em circulação. Ao invés de drogas, tem muito pó de serra e farinha de trigo sendo queimados por aí. A lógica é simples, se o quilo da cocaína vale tanto quanto o quilo do ouro, por que queimar cocaína ? Logo, a máfia que está infiltrada em todas as polícias, policiais narcotraficantes, substitui os carregamentos por pó de serra, farinha de trigo, etc... e vai vender a verdadeira droga bem longe do local da apreensão... E os idiotas ficam felizes vendo a fumaça subir...

Outra coisa que não perceberam é que: a maioria da droga apreendida vem de denúncia anônima. Isto tem uma razão e se chama boi de piranha... Enquanto todas as piranhas, a polícia, corre atrás do boi que foi jogado nas águas, a boiada está passando em outro ponto do rio...
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A quem beneficia o narcotráfico ?

Em 1983 os EUA pediram a extradição de um dos primeiros e maiores narcotraficantes da Colômbia - Carlos Lehder. Após análise do pedido, a Suprema Corte do país aprovou a extradição de seu nacional.

Do seu refúgio nos Llanos Orientales Lehder declarou que a cocaína era a bomba atômica da América Latina e propôs a todos os rebeldes da Colômbia a formação de um exército de 500.000 homens, financiados com o dinheiro do tráfico, contra os americanos:

"Em nossa luta contra o imperialismo norte-americano e a oligarquia colombiana, o fim justifica os meios. Se a coca se encontra na América Latina para ajudar-nos a acelerar nossa revolução, bem-vinda seja. Se os Ianques levam nossos melhores produtos e também querem coca, que paguem o preço que a América Latina exige. Nós necessitamos de dólares para nos modernizarmos. E agora que somos quinze milhões de latino-americanos nos EUA, o poder latino do imperialismo é insuplantável..... E vamos reforçá-lo."

"Nosso objetivo é anti-imperialista e anti-oligárquico. A revolução da América Latina poderia fazer-se graças a cocaína, porque acredito que a cocaína é a bomba atômica da América Latina."

Carlos Lehder - Narcotraficante colombiano preso -e extraditado para os EUA
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"As políticas antidrogas no âmbito mundial derivam do modelo repressivo adotado pelos EUA e que foi imposto aos demais países por intermédio da pressão americana nos organismos transnacionais e da implantação dos procedimentos de certificação criado pelos americanos.

A idéia dos gringos se baseia numa fé inquebrantável na lei da oferta e da procura. Afirmam que: reduzindo o fluxo de drogas por meio da repressão fazem baixar a oferta global do produto e subir o preço de venda ao consumidor. Desgostoso, este abandonaria um vício que se tornou demasiadamente custoso.

A lógica elementar do raciocínio só omitia um detalhe: o custo de produção de um produto incide de maneira importante no seu preço final.

O preço do quilo da cocaína se multiplica por mil entre o produtor e o consumidor graças, justamente, a proibição.

Isso pode ser verificado pela simples observação, nas ruas de Nova York, de que o preço do grama da cocaína farmacêutica, com uma pureza de 99%, gira em torno de $ 3 dólares, enquanto o preço desta mesma droga nas ruas, com uma pureza de 25%, vale 30 ou 40 vezes mais, dependo do período."
A QUIEN BENEFICIA LA COCAINA ? - MYLÉNE SAULOY E YVES LE BONNIEC

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"Quanto produz anualmente, para os países, a exportação de cocaína ? A gama de estimativas é bem ampla e vai de 500 milhões de dólares até 3 bilhões de dólares.

Se alguém se atém a uma avaliação mais detalhada dos bilhões de dólares verificará que as entradas de divisas devidas ao tráfico representaram 18% da soma das exportações legais da Colômbia em 1987. Proporção enorme que parece mais razoável quando comparada com o Peru onde o índice alcança a marca de 25 a 30% ou com a Bolívia que gira em torno de 50 a 100%. (...)

No Peru e também na Colômbia, os cultivos ilícitos são as únicas atividades que reverteram o irresistível movimento de êxodo rural que afeta aos países andinos, assim como a totalidade da América Latina."
A QUIEN BENEFICIA LA COCAINA ? - MYLÉNE SAULOY E YVES LE BONNIEC

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"O tráfico de drogas é parte de um mecanismo de autodefesa dos colombianos. (...) Se trata de uma situação em que cada um se defende como pode, na qual cada um está decidido a não morrer de fome. Alguns escrevem, alguns traficam drogas, alguns fazem películas, alguns são Presidentes da República, porém ninguém se deixa morrer de fome. (...) Quem sabe onde estaria nosso país sem as drogas ? Quem sabe o nível de delinqüência comum que teríamos se não fosse o espaço para respirar que o tráfico de drogas proporciona ? Algum dia tudo isto terá que ser contemplado objetivamente; é uma realidade na qual uns podem estar contra e outros a favor, porém de qualquer maneira é uma realidade."

Gabriel Garcia Márquez
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"O problema da cocaína é que ao se aprovar nos EUA, em 1970, durante o governo de Richard Nixon, uma lei que transformava o seu tráfico em um delito de máxima gravidade, o preço da droga passou de $ 3.000 dólares para $ 30.000 o quilo. Então traficar cocaína se converteu em um grande negócio que trouxe a violência, a intranquilidade, as armas e a máfia."
Carlos Lehder - Narcotraficante colombiano preso e extraditado para os EUA
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"Os comunistas não atravessaram nossas fronteiras. A droga sim. O objetivo político dos narcotraficantes é tornar a todos nós usuários de drogas."

"Enviamos ajuda econômica a países que matam nossos filhos. Estamos pagando para nos lincharem."

Ed Koch, ex-prefeito de Nova York
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"O povo norte-americano deve compreender muito bem, como o fez no passado, que nossa segurança e a de nossos filhos está ameaçada pelos complôs latinos da droga que, tragicamente, tem mais êxito subversivo nos EUA do que tudo o que vem de Moscou."
Declaração do General Norte-americano Paul Gorman na década de 80

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O que se chama o problema da droga é uma invenção de cabo a rabo. Se trata de algo criado artificialmente pelos diversos governos norte-americanos em parte por razões de princípios moralistas que existem dentro da política e da sociedade daquele país.

Os governantes norte-americanos tem utilizado o moralismo da população de um ponto de vista hipócrita e para manter um negócio magnífico, pois é conveniente a estes governantes o controle de seus próprios cidadãos.

As drogas sempre existiram, pelo menos desde que existem as sociedades humanas, e as sociedades sempre souberam controlá-las.

Porém no início do século XX o governo norte-americano decidiu, cedendo a razões moralistas e também racistas - pois diziam que as drogas provinham dos negros, chineses ou mexicanos -, que sua limpa juventude não poderia ser submetida a tais coisas sujas. Então começaram a criar leis para proibir o uso de drogas. E como tudo o que é proibido é incontrolável, perderam o controle sobre as drogas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, década de sessenta, quando seu poder havia aumentado desmesuradamente os Estados Unidos começaram a impor suas políticas antidrogas a outros países.(...)

O que fizeram foi converter em incontrolável um problema que até então havia sido controlado em todas as partes.

Veja: antes dos governantes da Grã-Bretanha proibirem a droga em todo o país havia, segundo o censo, algo em torno de mil e quinhentos usuários de heroína e cocaína. Compravam a droga em farmácias com receitas médicas. Porém, quando proibiram a droga, o número de usuários passou para casa do milhão e meio. Nada demonstra de maneira mais eloqüente a imbecilidade das políticas contra as drogas.

Agora, imbecilidade se pensada do ponto de vista da saúde pública, porém astúcia se analisada do ponto de vista do negócio.

O que faz com que as drogas sejam o segundo dinheiro mais volumoso do mundo, somente superado pelo que produz o negócio das armas, é a proibição. Se não fossem proibidas seriam tão baratas quanto o chá ou o café.

Mas onde vai parar 95% do que se lucra com as drogas? Onde está depositado 95% do dinheiro movimentado? No sistema bancário dos Estados Unidos. O resto, que é uma pequeníssima porcentagem, termina nos países produtores de droga que estão sendo destruídos por essa guerra tonta, como é o caso do Afeganistão, Laos ou Colômbia.

Os Estados Unidos, em sua qualidade de império cada vez mais universal, necessitam ter inimigos. Desaparecida a ameaça do comunismo internacional inventaram a guerra contra as drogas para controlar os governos dos demais países. E agora declararam guerra ao terrorismo internacional: outra fantasmagoria. Há dezenas ou centenas de terrorismos em todo o universo. Porém não há um terrorismo universal.

Patadas de Ahorcado - Antonio Caballero - Jornalista Colombiano
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"Digamos que se queira fundar um movimento de resistência armada ou empreender uma ação armada com qualquer fim, o lugar propício para encontrar dinheiro e fuzis é o mundo das drogas."
General Paul Gorman, ex-comandante do Comando Sul no Panamá

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"Equivocam-se aqueles que querem explicar algo opondo a máfia ao Estado: eles nunca estão em rivalidade. A teoria verifica com facilidade o que os rumores da vida prática havia mostrado demasiado facilmente. A máfia não é estranha neste mundo; está perfeitamente acomodada nele. No momento da espetacular integração ela reina como o modelo de empresas comerciais mais avançadas."
Guy Debord

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"A diferença entre o cartel de Cali e de Medellin é que Cali é o governo e Medellin o povo. Desde a presidência de Belisario Betancur, a gente de Cali sempre tiveram um ou vários ministros no governo. O DAS (Polícia Federal Colombiana) não ajuda a gente de Cali. O Das é um escritório de Cali. Toda a velha burguesia tradicional da cidade está no negócio.

Há muitos jovens narcos de Cali que estudaram em LONDON SCHOOL OF ECONOMICS ou em OXFORD. A máfia de Medellín se formou na parte mais podre da cidade. O melhor que tiveram foram os Ochoa, que vinham da classe média e Pablo Escobar, cuja mãe era professora do primário. Jorge Luis Ochoa foi até o ensino médio e Escobar até o bacharelado."

A QUIEN BENEFICIA LA COCAINA ? - MYLÉNE SAULOY E YVES LE BONNIEC
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"O inimigo dos traficantes não é o Estado Colombiano, senão a elite colombiana, que controla o Estado, e isso não é a mesma coisa. Uma elite decadente que envelhece corrupta, que já não tem nenhuma legitimidade para a classe média, pois seus membros expatriaram seus patrimônios. O que sucede é que não há nenhuma alternativa de poder. Esta é a tragédia da Colômbia.

Os traficantes quiseram ser uma elite substitutiva. Porém não tiveram uma visão política do país, nem um projeto de sociedade.

Todos enriquecem na Colômbia. A classe média tem trabalhado para o setor financeiro - cabo de transmissão da máfia - e para o setor alimentício do crime organizado; em todo o setor imobiliário, por todas as partes, existem vínculos. E todo mundo sabe que a fuga de capitais organizada pela elite é compensada pelo dinheiro da droga. Porém ninguém confessa."

Jorge Gaitán Villegas

17/04/2008

Para quebrar a proibição e a repressão das drogas
A única forma de acabar, definitivamente, com a política de proibição e repressão das drogas, é iniciar uma série de movimentos sociais contra o sistema dominante. Não são as drogas que matam. O que mata é a proibição, é a repressão.

Para se ver isto claramente é só verificar o número de pessoas que sofrem overdose anualmente. Quantas pessoas morreram de overdose no último ano? E cruzar este número com as pessoas que foram mortas pela polícia no combate às drogas. Estes números mostram cristalinamente que quem mata é a polícia, enquanto as drogas matam, por overdose, um número inexpressivo de pessoas.

Além disso, a política de proibição e repressão é inútil, completamente inúltil. Quem quer usar drogas usa e compra em qualquer esquina ou em qualquer festa. Sempre tem gente vendendo.

Contudo, o narcotráfico virou uma indústria que movimenta mais de um trilhão de dólares por ano, seja em verbas, seja em armas, seja em equipamentos para detectar drogas, etc. Logo, os interesses na proibição estão enraizados dentro da classe dominante e dentro do capitalismo. Por isso, a descriminalização deve ser promovida pela sociedade, por movimentos sociais e ser empurrada goela abaixo dos políticos e da classe dominante.

A minha idéia para fazer isto é reunir os usuários de drogas. Todos os usuários, todos os familiares que sofrem com a proibição, todos os simpatizantes que são contrário à proibição, ou seja, reunir milhões e milhões de pessoas.

Cada uma dessas pessoas deverá pegar um quilo de droga, seja qual for, e ir até a delegacia mais próxima e tentar vender a droga para o delegado ou declarar a ele que é usuário/simpatizante das drogas e que comercializa o produto. Logo, cada uma dessa pessoas, pela lei, deverá ser presa como traficante. Isto fará surgir, da noite para o dia, milhões e milhões de inquéritos e essa "gentarada" terá que ser presa, dando início a milhões de processos judiciais.

O sistema atual está no limite e milhões de inquérito, milhões de presos, milhões de processos, iniciados da noite para o dia, quebrará o sistema todo. Tanto o sistema policial, quanto o sistema presidiário e o sistema judicial. Não há espaço para tanto inquérito, não há espaço para tantos presos e o judiciário não conseguirá julgar tantos processos. A Lei terá de drogas terá que ser ignorada...

Isto deverá ser repetido continuamente, até que a Lei seja retirada do ordenamento jurídico e as drogas descriminalizadas pela quebra do sistema de proibição e repressão.

Esta é uma das poucas formas existentes para se acabar, definitivamente, com a guerra das drogas que está matando mais gente que a Guerra do Iraque. Uma guerra de baixo nível que mata moradores das periferias, geralmente, pessoas pobres. Uma guerra que serve para amedrontar a população, ampliar os poderes do Estado sobre os cidadãos e limitar a liberdade dos indivíduos.

É hora de quebrar o sistema de proibição e repressão de baixo para cima. É hora da sociedade impôr a sua vontade e bater na cara dos políticos que mantém a proibição e a repressão das drogas como uma forma de controle da sociedade, como um negócio para obtenção de verbas públicas.

As execuções da polícia do Rio de Janeiro
Desde o início do ano, até ontem, a dengue tinha matado mais de 50 pessoas no Rio de Janeiro. E, em dois dias, a polícia do Rio de Janeiro matou 16 pessoas. Acho que se contarmos as mortes pela Polícia desde o início do ano, os números da dengue perdem feio para a polícia.

Portanto, a maior epidemia no Rio de Janeiro, a doença que mata mais, é a Polícia Terrorista. Estou falando de Terrorismo de Estado. Polícia que mata 'supostamente' perseguindo traficantes ou em confronto com traficantes. Porém, esta história, como digo há vários anos, tem muita mentira e armação. A polícia mata muitos inocentes ou pessoas, envolvidas com o tráfico, porém desarmadas. São execuções sumárias.

A evidência lógica disso é o fato da polícia dizer que os morros estão tomados por traficantes armados com equipamentos de guerra (fuzis, metralhadores, granadas, lança-foguetes), etc. Inclusive, a polícia 'supostamente' captura algumas dessas armas e mostra para a imprensa.

Contudo, quando a polícia invade as favelas e 'supostamente' entra em confronto com os traficantes, raramente sai um policial ferido ou morto. Já os traficantes, 'supostamente' usando armamemnto de guerra, etc, morrem aos montes. Como nos últimos dias, 7 em um e 9 no outro. Já policial ferido ou morto, nenhum. Por que será ?

Entenderam o que estou dizendo ? Traficantes armados até os dentes e usando armamentos de guerra não acertam um único tiro nos policiais e são mortos facilmente pela Polícia. Além disso, os traficantes ocupam posições privilegiadas para tiro e são inimigos mortais da polícia. Mesmo assim erram os tiros e caem como maçãs podres nas garras da polícia. Será que quando a polícia chega, os traficantes ficam com tanto medo que, mesmo usando armamento de guerra, não conseguem acertar nenhum tiro nos policiais e, portanto, são mortos facilmente ? Será que os policiais tem corpo fechado para tiro de metralhadora .50 ? Ou será que os 'supostos' armamento dos traficantes são armas plantadas pela polícia, visando amedrontar e controlar a população, assim com invadir as periferias e justificar execuções sumárias ?

As drogas, pura e simples, não causam grande mal à sociedade. Quem causa grande mal é a polícia que invade as periferias para perseguir traficantes e matar pessoas. É a polícia que promove os confrontos em áreas abertas. É a polícia que mata mais do que qualquer epidemia.

Mas a mídia mostra os confrontos ? Errado. A mídia mostra barulhos de tiro. E, pelo som, não é possível saber quem está atirando. Tudo pode ser uma encenação da própria policia que entra na favela e ficando tanto tiros a esmo para culpar supostos traficantes. Isto porque, a maioria dos traficantes, quando vê a policia chegando, saem correndo. Fogem do local. Poucos são os que enfrentam.

Logo, para mostrar serviço, construir um inimigo poderoso e amedrontar a população, ou invadir a comunidade, a polícia mata quem encontra pela frente ou não conseguiu correr, ou ainda quem tem cara de traficante. Mata e joga em cima deles as armas de grosso calibre, simulando o tal confronto (tiros a esmo, etc). Por isso, raramente morrem policiais, enquanto traficantes, 'supostamente' armados até os dentes, morrem como gado no matadouro, 7 em um dia e 9 no outro.

O único caminho para acabar com esta guerra estúpida é a descriminalização. A descriminalização elimina a proibição, reduz o preço das drogas, acaba com o lucro e tira a polícia das favelas e periferias. Não haverá mais justificas para a polícia invadir as favelas e matar pessoas...

Contudo, a descriminalização não será aprovada pelos políticos ou pela classe dominante. Isto porque o narcotráfico virou um negócio importante para a economia. Um negócio que movimenta quase um trilhão de dólares, anualmente, em todo o mundo. A proibição virou uma indústria de verbas e equipamentos. Verbas para os Estados, Municípios e Países. Equipamentos e armas para tentar impor e fazer valer a proibição.

Portanto, não virá nenhuma lei que vise descriminalizar as drogas. Por isso, a sociedade e os movimentos sociais devem agir, iniciando uma série de movimentos para quebrar a proibição e a repressão de baixo para cima. Inclusive, eu já tenho idéias para se fazer isto.

23/12/2007

Nota sobre a idéia de descriminalização das drogas
Eu estou considerando que as drogas terão um preço baixíssimo nas farmácias. Caso o preço seja alto e abusivo, o governo deverá subisidiá-lo ou deverá fornecer, gratuitamente, para os viciados pobres. Caso contrário, a violência continuará imperando, pois quem não tem dinheiro irá praticar crimes para obter recursos para adquirir os entorpecentes.

Esta proposta de descriminalização se baseia na idéia de redução máxima de danos, seja para o indivíduo, seja para a sociedade, pois, em último caso, é melhorar suportar mortes por overdose do que disseminar uma guerra civil pela sociedade.

A morte por overdose mata uma só pessoa que, conscientemente, decidiu usar drogas. A guerra civil da proibição pode matar qualquer um, principalmente quem não usa.

A overdose atinge uma pessoa individualmente. A guerra da proibição atinge toda a sociedade, disseminando uma infinidade de outros crimes relacionados com o narcotráfico.

22/12/2007

Idéias para a descriminalização das drogas
A única saída para acabar com a violência do narcotráfico é descriminalizar as drogas. Descriminalizar todas as drogas. Observem bem, eu disse descriminalizar e não legalizar. Descriminalizar é acabar com a figura típica que existe no código penal. Legalizar é o Estado transformar as drogas em um produto legal. Legalizar daria a idéia de que as drogas não causam mal e de que o Estado apóia/incentiva o uso. O que não é verdade.

A minha idéia é a seguinte. O Estado deve descriminalizar o uso para pessoas maiores de 18 anos. Contudo, os entorpecentes continuam proibidos para menores. Logo, quem vender drogas para menores ou usar drogas junto com menores vai em cana. E deve pegar cana braba. A pena tem que ser pesada neste caso. Isto porque o indivíduo dispõe de sua liberdade pessoal, mas não dispõe da liberdade do outro, principalmente de menores. Logo, deve existir a figura típica da sedução de menores para uso de drogas ou coisa parecida.

Segundo, o indivíduo adquire as drogas em famácia. Contudo, para adquirir terá que se cadastrar e toda a compra de drogas que efetuar será monitorada pelo Estado. Isto porque ele pode adquirir, só e somente só, para uso pessoal. Não pode adquirir no atacado e nem para uso coletivo. Além disso, terá que frequentar cursos informativos sobre os danos ocasionados pela drogas, assim como cursos que ensinam a usar adequadamente. Somente depois que fizer estes cursos poderá adquirir drogas. Isto evitará overdoses, assim como a transmissão de doenças pelo uso compartilhado de seringas, etc.

Além disso, o Estado deverá oferecer tratamento médico adequado para a desintoxicação das pessoas que não souberem usar drogas, ou seja, para os viciados inveterados, assim como para aqueles que querem parar de utilizar.

As drogas serão produzidas em laboratórios do governo e vendidas diretamente na farmácia. Somente o governo pode produzir e vender as drogas, pois estas deverão possuir certificado de qualidade e garantia de que não há outros produtos químicos misturados com os entorpecentes. Logo, produzir e vender drogas sem ser o governo continua crime.

os dependentes inveterados/descontrolados devem ser encaminhados para tratamento médico de desintoxicação, assim como os alcoolatras, etc.

Terceiro é terminantemente proibido usar drogas em locais públicos, assim como praticar atos, em locais públicos, sob o efeito de drogas, ou seja, dirigir, etc. Neste caso as condutas continuam típicas e as penas devem ser pesadas.

Quarto, o uso de drogas pode ser liberado em festas ou locais apropriados, porém estas festas e estes locais devem ser fechados para menores e devem possuir equipes médicas para socorrer possíveis vítimas de overdose. Além disso, estes locais devem ser monitorados pela polícia e pela vigilância sanitária, para que drogas não certificadas pelo governo sejam distribuídas.

As drogas novas que surgirem continuam proibidas, até que o governo faça os principais testes de danos e passe a produzir/recomendar a quantidade adequada que pode ser utilizada por cada pessoa, ou seja, a quantidade que o organismo tolere sem sofrer uma overdose.

Quinto, o Governo deverá investir pesado na conscientização (publicidade e propaganda) sobre os danos de uso de drogas, assim como sobre os tratamentos que o Estado oferece para atender os dependentes descontrolados e aqueles que querem abandonar o vício, etc.

Com isto, o negócio dos traficantes acaba, logo, a violência que promovem também se extinguirá. Além disso, o indivíduo exercerá a sua liberdade, pois ele é senhor de seu corpo e de seu destino. Contudo, antes de exercer esta liberdade ele deverá ser conscientizado (informado) sobre os perigos das drogas e os danos que elas ocasionam à saúde. Se o indivíduo tem plena consciência disso e, mesmo assim, quer usar drogas, o Estado não pode fazer mais nada, a não ser atender o seu desejo.

Esta é uma idéia preliminar que deve ser melhor estudada e detalhada, mas o caminho é este. Portanto, descriminalizar não é legalizar. E descriminalizar não é liberar a venda das drogas nos mercados, feiras, etc. Descriminalizar também não é deixar que usem drogas por todas as partes e por todos os cantos. A coisa deve ser controlada e feitas com inteligência e entendimento.

24/03/2007

Legalize já


O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, acha que a proibição das drogas é uma hipocrisia. Leia a íntegra da entrevista concedida à repórter-especial Ruth de Aquino

ÉPOCA: Em que exemplo o senhor se inspirou para passar a defender a legalização das drogas?
Sérgio Cabral: Nos Estados Unidos da década de 20, quando toda a bebida alcoólica era proibida. O país caiu numa depressão econômica. A proibição gerou corrupção e o envolvimento de policiais e políticos no esquema de venda paralela de álcool. Aí vem esse brilhante estadista que foi o (Franklin D.) Roosevelt, acaba em seu primeiro mandato com a Lei Seca, faz o New Deal (série de programas econômicos entre 1933 e 37, com obras públicas, criação do salário mínimo e agências reguladoras) e levanta a América, acabando com uma hipocrisia que deprimia os Estados Unidos. O efeito da proibição da droga é nefasto nos países de um modo geral no Primeiro Mundo, França, Inglaterra, Estados Unidos, e devastador nos países em desenvolvimento. Se a gente for quantificar os mortos por conta da proibição da droga, o total é esmagadoramente maior do que os mortos por conta do uso da droga. Desde as brigas de gangue no primeiro mundo, à luta pela cocaína e a guerrilha na Colômbia e a disputa por territórios nos pontos de venda nos países em desenvolvimento. Isso sem falar em África e Ásia. A balança é negativíssima para o planeta. Claro que você aí mexe com a emoção, e alguém diz, ah, você não teve um filho drogado, você não sabe o que é ter uma pessoa viciada em sua família. Eu tenho a exata noção do que é ver uma pessoa que tenha se perdido no trabalho, na família, tanto por conta da droga como por conta do álcool. Quantas pessoas no mundo perdem seus alicerces estruturais, de família, amigos, trabalho e estudos, por conta do álcool? E morrem. E também por causa de remédios, e por causa de tabaco...

ÉPOCA: O senhor acha que proibir drogas é hipocrisia?
Cabral: Acho. Claro que existem setores nos Estados Unidos mais progressistas. O ex-presidente (Bill) Clinton provocava essa discussão. Ele, por exemplo, teve a coragem de enfrentar setores conservadores que lutavam para acabar com o aborto legal. A senadora Hillary (Clinton) e até deputados republicanos também encararam essa briga. Mas há setores capitaneados pelo presidente Bush que têm uma visão extremamente caduca, míope, conservadora, atrasada. Isso não tem nada de ideológico. Estou sendo pragmático. Não sou a favor de cocaína, heroína ou do cigarro de maconha. Sou favorável a que o mundo reconheça que há uma demanda por drogas que só aumenta, agora se diversificam os produtos, muitos deles feitos em laboratórios como comprimidos, que é o caso do ecstasy. Se alguém vai às boates da moda em Londres, em Paris, em Nova York, no Rio de Janeiro e em São Paulo, percebe que a água está ficando mais cara do que o uísque, porque a pessoa que toma ecstasy precisa de líquido, de água.

ÉPOCA: A sua proposta seria legalizar as drogas leves ou todas as drogas?
Cabral: Todas as drogas. Com a saúde pública. A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem que entrar nessa discussão, estabelecer regras, a ONU também tem que entrar nisso.

ÉPOCA: O senhor acha que seria viável legalizar as drogas somente no Brasil?
Cabral: Acho complicado. Acho que é uma regra que deveria ser adotada no mundo. Mas o Brasil pode iniciar essa discussão, por que não?

ÉPOCA: Mas, na prática, o Brasil poderia tomar essa decisão unilateralmente?
Cabral: Acho que no plano nacional, sim. No plano estadual, não. É delicada a legalização unilateral. Acho que as autoridades brasileiras, a diplomacia brasileira, os empresários deveriam levar essa discussão para o exterior, dizendo o seguinte: em meu país, estão morrendo milhares de pessoas por ano por conta da proibição das drogas. Como é aí na África? Como é com o ópio na Ásia? Cada pais dará seu testemunho e vamos aprender com os exemplos. Minha intenção é que se discuta esse desafio mundial utilizando um foro como a ONU.

ÉPOCA: Existe o argumento de que, se as drogas fossem legalizadas, aumentaria o consumo.
Cabral: Não acho isso. O cigarro é legal. Mas, com as campanhas públicas esclarecendo os malefícios do cigarro, houve uma redução no consumo. Você não vai permitir que se faça campanha na televisão ou na revista, "fume maconha". Legalizando, é possível alertar. É melhor que o viciado em heroína vá a um local onde é identificado pelo Estado. Hoje, o sujeito precisa se apresentar a clínicas públicas ou particulares, e são poucas as públicas, para se desintoxicar e se tratar. No momento em que se tem o Estado legalizando a venda e o sujeito vai comprar cocaína, ele seria cadastrado, orientado. É preciso dar luz a esse assunto. Se pensarmos que a população do planeta é de 5 bilhões de pessoas, e fizermos uma estimativa bem conservadora de que 10% do planeta consomem drogas, estamos falando de 500 milhões de habitantes que precisam ser tratados à luz do dia.

ÉPOCA: A Holanda seria um modelo a ser seguido?
Cabral: Não é um mau modelo, mas virou uma Disneylândia para quem quer fumar um baseadinho livremente. Não é o ideal. Na Holanda, você não tem a cocaína liberada, só as drogas leves. E por isso fica no meio do caminho. Mas Amsterdã é uma das cidades mais desenvolvidas do mundo, sua economia não se prejudicou por ter coffee-shops em que você tem no cardápio a maconha da Colômbia, do Brasil, mais pura, menos pura. É muito menos perigoso o usuário ir a um bar desses do que ir a uma boca de fumo no morro. E, com a legalização, o vendedor está registrado, paga alvará, paga imposto, gera empregos, não tem a guerra pelo ponto. Você tem a guerra mercadológica, comercial, quem oferece a maconha mais pura, faz menos mal à saúde. E o garoto não é tratado como delinqüente. Botou luz, todo mundo ganha. O que deve ser proibido no mundo? Tudo que violar as regras da cidadania. Se atravessar um sinal vermelho, você está indo contra a sociedade. Se pegar uma arma contra a vida, é crime. Mas cigarro, álcool, maconha são contra os outros ou sinalizam uma relação com você mesmo, de liberdades individuais? Desde que você não prejudique o outro... A sociedade tem que mostrar a esse que está usufruindo de sua liberdade individual os males que está fazendo a si mesmo. No momento em que se proíbe uma liberdade individual e a transforma em coletiva, você está prejudicando a sociedade.

ÉPOCA: O senhor criou algum grupo de estudo para levar adiante essa proposta?
Cabral: Eu ainda não criei nenhum grupo de estudo mas me disponho a entrar nessa questão com mais profundidade. Só me falta tempo, porque estou cuidando de saúde e educação. Mas preciso me organizar mais. (A socióloga) Julita Lemgruber mandou email pra mim, tem gente levando essa discussão. Depois de minha declaração, vi que há mais debates nas universidades, em restaurantes, na mídia...

ÉPOCA: O ex-secretário nacional para drogas, Walter MaIerovitch, criticou o senhor, e o chamou de oportunista por defender a legalização.
Cabral: Eu tenho uma boa impressão dele. Eu o acho uma pessoa muito qualificada. Quando eu era presidente da Assembléia (Legislativa do Rio de Janeiro), eu o recebi, e acho que ele entende muito do que fala. Acho uma pena ele me tachar de oportunista, eu nunca precisei disso na minha vida pública. Oportunismo? Acho o contrário. Acho até que estou assumindo uma discussão de risco. Mas é a opinião dele e eu respeito.

ÉPOCA: O senhor foi relator da atual lei de drogas, que descreve o tráfico como crime. Mudou sua opinião?
Cabral: Mudou muito, porque discuti com políticos avançados como o (Fernando) Gabeira e o (Carlos) Minc, o general Jorge Uchôa, ouvi entidades. Tivemos avanços, como a descriminalização do usuário, a impossibilidade de ele ser preso em flagrante, o que gerava corrupção, suborno, e um comprometimento desnecessário de horas dos policiais com esse assunto. Hoje o caso vai automaticamente ao Juizado Especial. Ao mesmo tempo endurecemos com o tráfico por ser hoje uma atividade criminosa. Mas por que não substituímos tráfico pela atividade legal? Por que não colocamos o bicheiro na legalidade? Não é assim com a Loto, a Sena?

ÉPOCA: O senhor defende também a legalização do jogo do bicho e a regularização dos bingos...
Cabral: Claro! Porque as pessoas gostam de jogar. Todos os países civilizados do mundo têm o jogo legalizado. A Argentina tem o bingo, o cassino. Eu fui há uns três anos com minha mulher e os dois filhos menores a Camboriú, em Santa Catarina, ficamos num hotel, eu era senador. E um rapaz me perguntou: não quer jogar no cassino hoje à noite? Tem um hotel aqui e um monte de gente famosa, fulano, beltrano, eles vêm sempre jogar aqui, o jogo é muito bom, é de alto nível, senador. Falei, cacilda. Uma empresa de turismo cadastrada, que me serviu lá, sugerindo a ida ao cassino. Eu não fui porque nem gosto de jogar. Noutro dia, aqui nesta sala do Palácio Laranjeiras, eu estava com o presidente Lula, e a Dercy Gonçalves ligou para falar com o presidente. Lula mandou um carro buscá-la em casa, ela chegou aqui e o assunto foi. 'Lula, ô Lula' (imitando a Dercy) 'não pode proibir o bingo, as minhas velhinhas querem jogar, Lula, isso é uma sacanagem', falando assim do jeito dela. "Eu não sou bandida, quero jogar no bingo Lula". O bingo está funcionando na base de liminares. E o bicho? Quem faz a sua fezinha no bicho à tarde, na frente de sua casa, porque tem bicheiro em tudo que é lugar, por acaso essa pessoa é criminosa? As maquinetas de caça-níquel que são origem de esquema de corrupção de políticos, policiais. Brigas de família, mortes. Por que tudo isso? E o aborto? A mesma coisa. Se uma menina de classe média quiser abortar, ela sabe onde está a clínica, a família leva, o comandante da polícia sabe, o prefeito, o governador, o presidente, todo mundo sabe. Mas, como a maioria das meninas no Brasil é pobre, e a maioria que engravida é pobre, de que maneira essa gravidez indesejada é interrompida? Os depoimentos são atrozes. Barra de ferro, vassoura...é justo isso? Portugal, que é um pais conservador, e a Espanha também acabaram com isso. A legalização das relações dos homossexuais. Agora mandei uma mensagem para a Assembléia para regularizar uma lei minha e do Minc. Fui ameaçado quando aprovei essa lei em 2001. Alguns líderes evangélicos muito conservadores diziam que eu não seria eleito senador no ano seguinte. E fui eleito com 4 milhões e 200 mil votos. Será que é justo que, numa mesma repartição, dois colegas, um heterossexual tenha direito a pensão se a mulher morre, e um homossexual com relação estável não tenha direito a nada se perder seu companheiro? O que o Estado tem a ver com sua escolha pessoal? O importante é garantir o mesmo direito para companheiros e companheiras.

ÉPOCA: O senhor também se disse favorável à antecipação da maioridade penal, uma outra questão nacional.
Cabral: Foi um juiz da vara de execuções penais, Carlos Borges, um sujeito jovem e muito bom, que sugeriu uma fórmula para a gente. O garoto cometeu um crime, o Ministério Público avalia o crime. Isso não ficou muito claro na imprensa. O menor vai responder por esse crime ainda como menor. Mas, a partir dali, se o crime for grave, sua maioridade penal será antecipada pelo juiz e, para qualquer outro crime posterior, ele será tratado como um maior. A primeira pena ainda será como menor. Nesse caso, não se estaria antecipando a maioridade para uma idade específica. Pode ter 10, 11, 14 anos. Se tiver matado intencionalmente o pai, a mãe, um amigo ou uma vítima de assalto, a partir dessa idade ele será maior de idade para a Justiça.

ÉPOCA: Na reação ao crime do menino João Helio, uma grande parcela da sociedade pediu medidas mais radicais, não? Como a antecipação imediata, por lei, em caso de crime hediondo.
Cabral: Sei que a sociedade quer mais rigor. Sabemos que há sociedades muito mais avançadas do que o Brasil, mais democráticas, em que a punição é realmente mais rigorosa para menores criminosos, como a Inglaterra.

ÉPOCA: A família do João Helio está falando em processar o estado. O que o senhor acha disso?
Cabral: Há um projeto tramitando na Assembléia, segundo o qual o estado daria, para a família da vitima, atenções especiais como prioridade para um emprego, assistência psicológica e social, uma série de propostas de apoio. O estado daria uma ajuda que não seria remuneratória.

ÉPOCA: A família do João Helio estaria cometendo um exagero ao processar o estado do Rio?
Cabral: Depende. Se a família encontrar algum viés legal para processar o estado, é um direito da família. Eu não vou, nem hoje nem daqui a um, dois anos, me comportar na defensiva estado versus sociedade. Não vou disputar números de homicídios, vou reconhecer o erro, ou que a medida não funcionou. Às vezes me perguntam se não seria errado eu chamar atenção para a penúria do Degase (Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas), porque daqui a seis meses pode estar na mesma situação. Se estiver, vamos ter que mudar. Fui a uma escola pública que estava caindo aos pedaços, a imprensa levantou uma série de escolas públicas no mesmo estado. Para nós, é um serviço que a mídia presta: sabemos melhor onde temos que atuar.

ÉPOCA: O senhor também defende um período maior de internação para o primeiro crime dos menores, não?
Cabral: É uma proposta do (governador de São Paulo José) Serra, e eu concordo, uma sentença maior de internação do menor, que avance pelos 21, 24 anos de idade, no caso de homicídio, crime hediondo. Uma coisa mais dura. Por outro lado, a Adriana, minha mulher, que é advogada, visitou o Degase, as condições de internação desses meninos são destinadas a criar animais, monstros. Então estamos criando uma força-tarefa, fazendo uma intervenção pesada, que vai durar meses, políticas sócio-educativas, recreativas, profissionalizantes... Dignidade nas instalações dessas casas de recolhimento, para que eles tenham um mínimo de atendimento pelo estado, e que a gente possa ganhar essa guerra tirando esses meninos do caminho do crime. Só os tiramos do crime dando a eles dignidade e uma perspectiva de uma vida melhor. Nós estamos falando de 3 mil jovens internados no Rio. Meninos que pescaram no rio em área ilegal estão misturados ao garoto que matou dez pessoas. Assim a gente não vai salvar ninguém. É uma escola de crimes. O que pescou vai começar a matar porque é estuprado lá dentro. Essa é uma preocupação nossa, de investir nesses centros de menor infrator.

ÉPOCA: Sobre a revista policial das mochilas de crianças no Rio de Janeiro em área conflagradas. A polícia alega que, ao encontrar uma pistola 9 mm na mochila de um menino, passou a revistar as crianças como forma de evitar que fossem usadas pelos bandidos. O que o senhor acha?
Cabral: Isso é verdade. A idéia original era de proteção, para evitar que as crianças fossem usadas como mulas, levando armas e drogas de um lado para o outro. Agora, a gente tem que respeitar a decisão da Justiça. Acatamos e suspendemos a revista. Mas, qual é a nossa posição? No momento em que o traficante sabe que usar o menor no crime pode render para o garoto uns dois, três anos no Instituto Padre Severino. Ele fala, "olha, entra no crime, e daqui a pouco você estará solto e com grana no bolso; leva aí esse dinheiro, essa arma para o outro morro". Ele usa a inimputabilidade do menor para fortalecer seu esquema criminoso. É isso que a gente quer? A gente não está propondo que a policia agrida o menor.

ÉPOCA: O que acontece é que a criança rica nunca será revistada. É justo que uma menina ou um menino, que já vivem uma vida dura em área carente, tenham que abrir suas bolsas a caminho da escola, mostrar seus pertences, para policiais? Não é constrangedor?
Cabral: E aí? Mas é esse o pragmatismo que falta ao Brasil. Em áreas conflagradas, tem que revistar todo mundo se a gente quiser proteger a população. Nao é destratar uma criança, pelo amor de Deus. Acabo de me emocionar ao ver 200 crianças de áreas carentes que foram contratadas pelo Detran para trabalhar 4 horas por dia no programa Jovem Aprendiz, no emplacamento, fazendo um trabalho de educação com o motorista de boas práticas no trânsito: cinto, não beber etc. E vão ganhar 250 reais de salário mais 80 de vale-transporte mais 110 de alimentação, ou seja vão ganhar 440 reais. Vão poder continuar estudando, vão levar pra casa uma receita, e uma perspectiva de dignidade e remuneração que as vezes nem os pais têm. Tem gente que acha que é exploração de trabalho infantil. Cada país tem uma realidade.

ÉPOCA: O senhor defende também mais autonomia para os governadores.
Cabral: Isso é um princípio crucial. Ah, dizem, então Alagoas vai legislar com precariedade. Ou Rondônia, ou Acre... Não! Todos esses estados vão legislar com muito mais controle, mais propriedade sobre sua realidade local. Que é totalmente diferente do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, isso vale para matéria penal, trânsito, isso vale para uma série de assuntos que são de competência exclusiva da União. E a União, em seu artigo 22, Constituição Federal, num parágrafo, diz o seguinte: por lei complementar, os estados poderão legislar sobre esses assuntos. Abriu uma brecha, mas é uma pena que não tenha consagrado essa autonomia. O grande segredo dos Estados Unidos, um país continental, com uma diversidade cultural enorme, que nasceu da guerra do norte contra o sul, é que eles são pragmáticos e há 200 anos reconheceram que ou se dava autonomia aos estados para que crescessem de acordo com sua realidade, ou não daria certo o país. Você pega a Alemanha, cada região tem sua autonomia forte. O que é unificado é a moeda, a defesa nacional, política monetária. Até em regimes unitários como a Itália, as regiões tem maior autonomia do que o Brasil.

ÉPOCA: O senhor não está sozinho nisso, não é?
Cabral: O (José) Serra é simpático, o (Paulo) Hartung mais ou menos, Aécio (Neves) tem dúvidas, a Yeda (Crusius) gosta, o Jacques Wagner gosta.

ÉPOCA: O senhor vai continuar batendo na tecla da autonomia dos estados?
Cabral: Claro. Não sei em que momento o Congresso vai discutir isso seriamente. Mas quando se discutir de verdade uma reforma, vou pressionar pelo fim do voto obrigatório. O voto é um direito, não um dever. Não há nenhuma sociedade avançada do mundo onde o voto seja uma obrigação. O voto é facultativo. Ah, vão dizer que tem 50% de abstenção. Paciência. Na verdade, você assim está gerando uma obrigação. Sai do eleitor e passa para o político, que vai ter que fazer tudo para encantar o eleitor com suas propostas para que ele compareça às urnas. O debate é outro. Lembro, na primeira eleição do (Tony) Blair na Inglaterra, ele temia uma grande abstenção. Então, todos os programas dele na TV eram para perguntar à população se estava satisfeita com a saúde, a educação. Compareça. Isso vai melhorar demais a qualidade da política no Brasil. No Congresso, defendo o fim do voto secreto. Isso é um escândalo. Quando fui presidente da Assembléia legislativa, eu acabei com o voto secreto. Você acaba com o jogo que pode até gerar suborno ou troca de favores, sobre o qual não se tem controle. Se for para votar os membros do Supremo Tribunal Federal, tem que ser abertamente. Medo de retaliação? Agências nacionais de regulação, tudo no Senado, e em voto secreto. Por que isso? Cassação de parlamentares, eleição da mesa diretora... São pontos que não vão reduzir os juros nem o superávit primário, não vão aumentar taxa de crescimento anual. Sai dessa agenda do dia-a-dia para a arquitetura de uma nova democracia brasileira, um novo formato para a política. Somos um país com pouca tradição democrática, pensar que a mulher brasileira votou pela primeira vez em 1946 para presidente de uma república de 1889... E 18 anos depois, o país estava de novo numa ditadura. E a hora é essa, de rearrumar a democracia brasileira.

ÉPOCA: A urbanização das favelas. O que o senhor pretende fazer nas áreas carentes?
Cabral: Vou à Colômbia entusiasmado. O caminho é este. Temos que recuperar, com a ajuda do presidente Lula, áreas degradadas e áreas com conglomerados urbanos onde não há política urbana. Então eu moro no Complexo do Alemão, num amontoado de gente, não vejo na minha comunidade um posto de saúde, uma escola, uma rua, um arejamento, uma praça, uma quadra de esporte. Só vejo o tráfico passar de lá pra cá, meu pai sumiu de casa, minha mãe cuida de mim e mais quatro irmãos, ela é empregada doméstica, eu não estudo, o tráfico me convida para ganhar uma grana que pouca gente na favela ganha. Então, se você não entrar com sensibilidade, tratando essas comunidades como parte integrante da cidade, não vai ganhar essa guerra. Não é só a polícia que não entra. É o corpo de bombeiros, a ambulância, a cidadania que não entra.

ÉPOCA: EM que ponto está?
Cabral: O projeto na Rocinha está avançado. Possivelmente em setembro, outubro estamos começando as obras. Vamos ter que demolir, reconstruir. Há duas semanas, tive uma experiência emocionante em Belo Horizonte, o prefeito Fernando Pimentel me mostrou um conjunto de obras num complexo de favelas, em torno de 50 mil casas. Pegaram uma área exemplar e ele me chamou para ver. Tudo que eu quero fazer na Rocinha. Construiu prédios, área de lazer. A maior verba inicial é da Rocinha, de 72 milhões. O Alemão terá 380 milhões ao longo de quatro anos. Manguinhos, 200 e poucos, onde tem a famosa faixa de Gaza. A Rocinha é uma obra onde não se gasta menos de 800 milhões de reais. Mas, estamos salvando áreas da cidade, incorporando milhões de pessoas para a área formal.

ÉPOCA: O que o senhor espera de sua viagem à Colômbia?
Cabral: Aprender. Não tenho nenhuma vergonha de aprender. Quando me elegi deputado em 1990 com 12 mil votos, resolvi aprender. Eu queria legislar para a terceira idade. Como não havia nada no Brasil, viajei para outros países, bati na porta de consulados, e perguntava ao cônsul o que o país dele tinha sobre terceira idade. Na época não tinha internet e eu estudava. Aí nasceu a lei que dá prioridade ao idoso nas filas, meia entrada nos museus, cinemas e teatros, a gratuidade nos ônibus, trens, barcas e metrô para estudantes, deficientes e idosos, enfim. Isso me fez depois ser relator do estatuto do idoso, que é uma lei avançada. Em 94, disputei a reeleição e tive 168 mil votos, fui o mais votado da história do Rio de Janeiro, desde a fusão em 1975. Recorde que não foi batido ainda. Aí me elegi presidente da Assembléia. Mais uma vez, fui aprender em outras terras, rodei parlamentos do mundo para aprender como era aquilo. A Assembléia representava 4,5% do orçamento do estado. Reduzimos para 2,2%, e depois 1,8%. O povo gostou do que eu fiz. Em 98, tive 380 mil votos, fui o mais votado do Brasil. Dos 513 federais, nenhum teve mais voto do que eu. Aí, fiquei mais quatro anos como presidente da Assembléia. E em 2002 fui o senador mais votado da história do Rio de Janeiro, com 4 milhões e 200 mil votos. O senador mais jovem. Produzi leis depois de ouvir muita gente. Na Colômbia é a mesma coisa: o que eu posso fazer por meu estado? Uma coisa que eu queria fazer pelos jovens também no Rio é criar uma rede de albergues, os "youth hostels". Tem muito jovem da Baixada Fluminense que nem conhece o Leblon. Nós temos escolas estaduais que podem se converter nos feriados e nas férias em albergues, com hospedagem barata. Isso tem que ser feito com cuidado porque são prédios públicos. Vamos fazer em julho algumas experiências. Uma escola estadual em Búzios, uma em Cabo Frio, uma em Copacabana.

ÉPOCA: O que o senhor acha da proposta polêmica de sua secretária de Ação Social, Benedita da Silva, de se criar uma Bolsa-Família para pais de menores infratores?
Cabral: A Benedita tem muita sensibilidade para o tema porque tem uma origem dura e sabe que muitas vezes a família precisa de um apoio. Acho interessante desde que se comprometa a ajuda com o desempenho escolar do jovem, porque se mobiliza a família na recuperação do jovem. A gente diria aos pais: olha, teu menino está aqui, nós temos uma série de programas sócio-educativos, escola profissionalizante, uma fábrica, um curso de carpintaria. Se ele tiver um comportamento correto, se ele se engajar nesses programas, vocês vão continuar recebendo. Mas, se ele tiver um comportamento indisciplinado, envolvendo-se com coisas ruins, nós retiramos o bolsa-família.

ÉPOCA: E quando a própria família, ou a sua desintegração, ou a falta de valores, concorrem para que ele seja infrator?
Cabral: Aí eu acho complicado. Temos que saber se a família visita o menino, se dá carinho. O instrumento da rede de proteção social tem que estar sempre casado com um diagnóstico da família, e com a possibilidade real de ajudar o futuro da família, senão vira uma esmola.

ÉPOCA: O senhor defende um estado enxuto...
Cabral: Por mim eu teria apenas seis secretarias de estado. Casa Civil, Planejamento, Fazenda, Educação, Saúde e Segurança. Obras e Esportes seriam agências, bureaus que contratariam serviços especializados, e todo o resto eu jogaria para o município. Você tem Esporte e Lazer, tem Política Social, tem Meio Ambiente, tudo com o município.

ÉPOCA: Seu temperamento político.
Cabral: Tolerância.

ÉPOCA: O senhor é conhecido como um conciliador.
Cabral: Mas um conciliador com propostas objetivas; não é uma conciliação cuja solução é a mediocridade. A capacidade de ouvir, de entender o outro, é muito importante.

ÉPOCA: Como o senhor costurou a aliança com o presidente Lula?
Cabral: O governo federal tem uma presença enorme no Rio, historicamente, porque foi capital do Império, da Colônia e da República. Furnas está aqui, Petrobras também, o Ministério da Saúde tem aqui mais de uma dezena de hospitais, institutos nacionais do câncer, cardiologia. O governo federal deseja fazer coisas aqui, o presidente Lula também. Houve uma aliança no segundo turno que fluiu muito bem, houve uma empatia entre mim e o presidente, a gente se curtiu. Eu te diria que não é só uma relação pragmática. Eu gosto dele e ele gosta de mim. A gente tem uma relação boa, afetuosa. O presidente está maduro e quer fazer o melhor pelo pais. Temos uma camaradagem com profissionalismo, de mão dupla.

ÉPOCA: Com o Aécio, como é essa dobradinha de governadores e lideranças emergentes? É verdade que o senhor disse que, se ele for eleito presidente, poderia nomeá-lo embaixador em Paris?
Cabral: Eu disse sim. Mas ele falou: a recíproca é verdadeira, isso não saiu na imprensa. O Aécio é um amigo da vida inteira. Fomos presidentes da juventude do PMDB em 1981, 82 e 83. Ele em Minas e eu no Rio. Eu vinha do Partidão (Partido Comunista), ele vinha da militância com o avô (Tancredo Neves), e somos amigos desde essa época. Namorei a prima dele, casei com a Suzana, a gente se aproximou muito, e sempre fomos parceiros. Agora não somos tão jovens. Mas ele é mais bem conservado do que eu. Ele tem 47, é um pouco mais velho do que eu, mas se cuida muito.

ÉPOCA: Como o senhor herdou as finanças do estado?
Cabral: Um rombo de 1 bilhão e meio de restos a pagar, mais do que uma folha de pagamentos do estado, que é de 1,1 bilhão. E, mais grave ainda, 1 bilhão entre a previsão da despesa e a verdadeira receita do estado. Eles inventaram uma receita fictícia, superestimaram o valor dos royalties.

ÉPOCA: O ex-governador Garotinho criou um blog. O senhor terá também um blog?
Cabral: Eu tenho lá tempo pra isso?

ÉPOCA: O casal Garotinho o acusa de ser traidor e de ter se aproveitado deles durante a campanha...
Cabral: Escute, eu já tinha uma história no PMDB, de recordes de votações, e quando fiz campanha, disse o tempo todo que eu iria fazer o meu governo, não é uma novidade. Garotinho não apareceu um dia em meu programa de TV na campanha. A Rosinha, por delicadeza, eu a coloquei no primeiro programa do primeiro turno, por 30 segundos, por educação. Não devo nada aos dois. Mas, não tenho nada contra. Vou olhar para a frente.

ÉPOCA: Agora, o senhor quer um dia ser presidente...
Cabral: Do Vasco. Eu acho que o Eurico Miranda já sobrou na história do Vasco. Já deu sua contribuição para o bem e para o mal. Acabou. É hora de renovação. Acho que o próprio Eurico já deve estar percebendo isso. Não dá mais. As pessoas não devem se perpetuar em qualquer cargo, em qualquer instituição.

ÉPOCA: Mas então, para onde o senhor vai daqui a 4 anos?
Cabral: Eu não quero ser presidente da República nem quero pensar nisso. Porque acho ruim. o Rio é um estado em que o governador é seduzido a pensar nisso. E só prejudica o estado. Tenho que fazer o dever de casa. Penoso. Tenho que arrumar o Rio. Na hora em que você coloca um projeto pessoal à frente, acaba atrapalhando o governo. Sinceramente, estou muito satisfeito com a minha carreira política até agora.

ÉPOCA: E depois desse mandato?
Cabral: Sinceramente estou pensando só nesses quatro anos de governo. É difícil de acreditar, mas é isso. Tento arrumar um tempinho para namorar a minha mulher, para ir a um cinema. Tenho aula de inglês duas vezes por semana. Na segunda-feira fiquei chateadíssimo porque era para eu ir ao Municipal. Sou apaixonado pela Nona de Beethoven, ia assistir com a Orquestra da Petrobras e o maestro Isaac Karabitchevski, tudo que eu queria era entrar no teatro às 8h da noite, esquecer do mundo. Mal consigo curtir minha mulher, minha família, o lazer, imagina se eu vou me preocupar em ser presidente da república.

ÉPOCA: E seus filhos?
Cabral: Tenho filho pequeno desde 1988. O João Pedro, de 18, o Marco Antonio, que faz 16 em maio, e o José Eduardo, que tem 11, do primeiro casamento. Com Adriana, meu terceiro e último casamento, porque sou apaixonado, tenho o Tiago, que faz cinco em maio, e o Mateus, que tem sete meses e é uma gracinha.

ÉPOCA: Na relação com a imprensa, ser jornalista e ter pai jornalista ajuda?
Cabral: O fato de eu ter convivido com imprensa desde menino, a vida, a visão dos jornalistas, almoço e jantares em casa, acompanhando meu pai... Envolvimento com música, futebol, política, sempre gostei de acompanhar aquela roda lá em casa, os papos, dormia mais tarde. Desde os 7, 8 anos. Somos três irmãos, morávamos na quadra da praia, na Rita Ludolf, Leblon, e eu ia com a minha mãe comprar doces numa lojinha e ia para a Vila Militar visitar o Cabral (como ele se refere ao pai). Minha mãe criou uma cumplicidade comigo. Dizia que meus irmãos não podiam saber que o pai estava preso. Para todos os efeitos, meu pai mandava uma carta, porque tinha viajado. Anos depois, quando eu tinha 17, minha mãe resgatou essa carta e leu para a família, foi uma choradeira. Claro que tudo isso envolveu minha formação. Isso tudo me ajuda hoje a ser tolerante com a imprensa.

ÉPOCA: Houve um momento em que o senhor começou a aparecer demais, não? Até indo em festa de lançamento de novela, apertando a mão de namorado de atriz. Não é um certo exagero de marketing pessoal?
Cabral: Pelo amor de Deus, a novela foi o seguinte: eu recebi a abertura da novela em primeira mão, e chorei em casa. Aquela câmera vindo do mar, atravessando a montanha, e abrindo em Copacabana, e a Bethânia cantando "um bom lugar pra se morar". Eu liguei para o Erlanger, da TV Globo, para cumprimentar e ele me perguntou se eu queria ir. E eu fui.

ÉPOCA: Qual é seu maior defeito?
Cabral: O horário. Gostaria de ser mais pontual.

ÉPOCA: O senhor planeja bem?
Cabral: ( silêncio) Planejo. Mas tenho sempre bons planejadores ao meu lado.